segunda-feira, 23 fevereiro, 2026
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Marcela Dohms ensina comunicação médico paciente no Brasil

Marcela dando entrevista; Dr.Balint; Jubal Sérgio Dohms.
Marcela dando entrevista; Dr.Balint; Jubal Sérgio Dohms.

Há clichês e clichês para explicar pessoas e/ou situações. Um dos quais mais tento fugir, mas é quase impossível, é aquele, com algumas cores bíblicas do Velho e do Novo Testamento – “o fruto não cai longe da árvore”.

A ele recorro para bordar com a precisão desejável Marcela Dohms, a médica que optou desde sempre pela Medicina da Família (a saúde comunitária, de um modo geral) e foi se tornando uma autoridade nacional na área da MF. E também em PBI, OSCE e Balint, métodos imprescindíveis par o exercício de seu trabalho, hoje acatado no país.

Marcela vem de uma família que a levou “naturalmente” para as sendas dos estudos e boa formação profissional.

O pai, Jubal Sérgio Dohms, publicitário, graduado em Português (Letras), pós-graduado em Psicologia Analítica e Religiões Orientais, é reconhecida autoridade, consumada, em artes gráficas. Leciona no acatado Instituto Ichthys, da psicóloga Sônia Lyra, domina boa parte da teologia do budismo – de que é praticante – e tem um currículo invejável como editor de livros, jornais e revistas. A convite, ministra aulas em cursos universitários sobre Arte e Psicologia e sobre o I Ching – milenar oráculo chinês, como caminho de autoconhecimento.

O filósofo e escritor Luiz Felipe Pondé, por exemplo, está entre os que já manifestaram admiração pelo artista plástico (e gráfico) Jubal.

Poeta bissexto, o pai de Marcela só não é um campeão de muitos talentos exposto ao mundo porque é visceralmente um tímido. O que não o limita, no entanto, na vivência diuturna das tarefas de Hércules que abarca em 24 horas.

A mãe de Marcela, a publicitária Cláudia Manzoli Santos Dohms, fixou-se no mundo da Internet, associando-se ao filho do casal – Michel – em projetos de desenvolvimento da “web”, e pesquisas no setor, mantendo, os dois, empresa com clientes em o todo país.

3 – “TERRA PROMETIDA”

É com tal herança genética, de matrizes privilegiadas, mais a sua disciplina de trabalho, que classifico ser “como a de um imigrante em busca da terra prometida”, que Marcela foi se formando. Aos 6 anos, ainda sem saber ler, já executava músicas em violão, tendo depois estudado o erudito, por 5 anos, na Escola de Música e Belas Artes. Foi dedicada aos estudos desde a infância. A multiformação dessa doutoranda em Medicina pela USP é que a habilita a grandes missões. Como a que está fazendo, ao ensinar a médicos do Brasil a disciplina da Comunicação Médica (pelo PBI e o OSCE, já explicados).

E não o faz como mais uma tarefa, mas com um profundo sentido catequético. Quer transferir essa preocupação da MF com a comunicação médico paciente ao maior número de profissionais médicos. Até porque experimentou na carne quão danosos podem ser para médico e paciente as barreiras de comunicação. Começam elas pela linguagem.

4 – BARREIRAS DA LÍNGUA

– “Certo dia enfrentei na Unidade de Saúde, atendendo paciente haitiana, o drama que foi conseguir comunicar-lhe que ela estava infectada por HIV. Um desafio, para o qual a faculdade não me preparou. A imigrante simplesmente não me entendia, embora eu tivesse falado com ela até em francês, com todo cuidado, e fazendo desenhos. Mas ela só entendia o ‘creole’… Para resolver o ‘beco’ aparentemente sem saída para explicar a doença e sua gravidade. Isso gerou tensões, temores, dificuldades especialmente para a pobre mulher”, diz.

O episódio marcou Marcela fundamente. Não foi o detonador de suas preocupações com a Comunicação Médico Paciente (MP), pois ela já estava envolvida com os métodos PBI e OSCE. No entanto, o drama da haitiana confirmou-lhe uma certeza: num país de baixa escolaridade da população e hoje convivendo com ondas de imigrantes haitianos, africanos e latino-americanos, o tema ganha mais relevância. É preciso que o médico, particularmente o médico MF, esteja apto para trabalhar tais novas realidades.

5 – MÉTODO BALINT

Nesse meio tempo, Marcela, com sua hiperatividade e dedicação sacerdotal à Medicina, já estava indo adiante: aderia a curso de treinamento para ser coordenadora do método Balint, em Portland, Estados Unidos.

O curso reúne, uma vez por ano, profissionais de diversos países, em busca de ampliar conhecimentos de um dos mais avançados métodos de treinamento para o MF, conforme prescrito por seu fundador, Dr.Balint, um psicanalista húngaro.

O método pela primeira vez expôs em âmbito mundial (a partir de 1950, em Londres), quão essencial é a harmonia da relação do médico com o doente. Não uma relação lírica, puramente afetiva. Mas que seja capaz de, no médico, ir muito além da identificação da patologia, do órgão afetado pela doença e consequente terapêutica. E que exige, ao mesmo tempo, que ele entenda o que sente o paciente, o portador da doença.

“Esse sentir deve ser bem compreendido – diz Marcela -, valorizado e transformado em diagnóstico e terapêutica. ”

Marcela faz questão de assinalar: o Balint ensina o médico a se colocar no lugar do paciente, para que ele entenda os sentimentos do paciente. “Isso vai diminuir o stress, que é um impossibilitador do trabalho”.

Marcela cita uma frase do Balint: “O médico é como uma droga, um remédio, que causa impacto positivo ou negativo. Por isso, é importante a forma como ele lidará com o paciente. Assim, é vital o fator empatia ressaltado pelo Balint, no qual o profissional assume o lugar do paciente”.

No Brasil, a PUC de Goiás, a UFSC e a Secretaria de Saúde de Curitiba são alguns lugares que adotam o Balint.

(Prossegue – NA PRÓXIMA EDIÇÃO)

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