quinta-feira, 16 abril, 2026
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Lira Neto revela segredos da “carta testamento”

Lira Neto e o Presidente do Graciosa Gláucio Bley (Foto: Lucas Lopes)
Lira Neto e o Presidente do Graciosa Gláucio Bley (Foto: Lucas Lopes)

Lira Neto, hoje o mais respeitado dos biógrafos brasileiros, impôs-se profissionalmente por pesquisas que redundaram em livros únicos, vitais para que se entenda parte da história do Brasil do século 20.

Cito dois deles (Getúlio Vargas e Padre Cícero), que conheço bem, e sobre os quais tive a oportunidade de discutir por bom tempo com esse jornalista e escritor, na quinta-feira, 25, à noite, na biblioteca do Graciosa Country Club, pouco antes de ele proferir uma conferência magistral sobre Vargas.

As biografias de Castello Branco e Maysa estão também no precioso currículo de Lira Neto, que prova, mais uma vez, não ser a província impeditivo de gerar grandes valores humanos. Ele é natural do Ceará.

Lira é um homem afável, o sucesso não o mudou: continua o jornalista que sabe indagar, ir às raízes de suas pesquisas e sabe especialmente acolher observações. Das que fiz a Lira Neto, uma ele deixou claro aceitar bem:

Luiz Carlos França da Rocha
Luiz Carlos França da Rocha

Aquela sobre ele ter esquecido, na biografia de Padre Cícero Romão Batista, que esse taumaturgo caboclo fora, há 30 anos, declarado santo pela Igreja Católica Apostólica Brasileira (ICAB), fundada pelo bispo cismático dom Carlos Duarte da Costa, o chamado “Bispo de Maura” (diocese católica histórica, extinta, depois de ter sido bispo romano de Botucatu).

Ligado à realidade da sociologia religiosa, muito rica no Brasil, Lira concordou comigo sobre quão premonitória foi a decisão da ICAB, fato só agora seguido pela Igreja Católica Romana, pois a Santa Sé dá os primeiros passos para reconhecer a obra do “santo do Nordeste”.

O primeiro deles foi a recente decisão de suspender a excomunhão que alcançara Padre Cícero. Depois, quem sabe, virá a declaração de que Cícero foi um beato?

Tudo é possível nessas idas vindas do mundo do sagrado, independente do que poderiam dizer, se vivos fossem, de tais performances, Emile Durkheim e Mircea Eliade…

“STAFF” ESPECIAL

Eu tenho que fazer um adendo, cheio de admiração, sobre o que vi no Graciosa, no nosso encontro na biblioteca do Clube, marcante pela fidalguia de Silvia Camargo (diretora Cultural do Graciosa) e as atenções de gente como a RP Carol Nogarolli, a gentileza da professora

Wanda Camargo, Aroldo Murá e Lira Neto (Foto: Lucas Lopes)
Wanda Camargo, Aroldo Murá e Lira Neto (Foto: Lucas Lopes)

Wanda Camargo (UNIBRASIL) e do advogado Luiz Carlos França da Rocha (co-patrocinador do evento), a assessora de Imprensa Julia Nascimento.

Eles foram boas amostras de quanto a iniciativa particular está tomando o lugar do poder público em eventos culturais de qualidade.

O ciclo “Pensando o Brasil”, no qual falou Lira Neto, desenvolvido pelo Graciosa, é responsabilidade da diretora do GCC, professora da UPR Liana Leão.

Esse grupo foi parte saliente de uma enorme equipe que o Graciosa (presidente Gláucio Bley) e os patrocinadores colocaram a serviço da noite em que Vargas foi dissecado pelo escritor que melhor conhece a vida e obra do notável brasileiro.

CARTA TESTAMENTO

Um público estimado em 150 pessoas participou atentamente da conferência, em que anotei presenças de curitibanos interessadíssimos no tema, como Fernando Fontana, que acaba de lançar a biografia de Manoel Ribas, o interventor no Paraná nomeado por Getúlio no Estado Novo. E lá estava também outro escritor/biógrafo, Elói Zanetti, igualmente atentíssimo.

Wanda Camargo fez as vezes da mestra de cerimônia, desenvolvendo um apanhado daqueles eventos que já trouxeram notáveis da vida nacional. E que prometem para breve presenças outras, como a de Carlos Sardenberg.

Para quem não conhece (ou não conhecia, pois dezenas de livros de Lira foram vendidos depois da palestra), o fim trágico de Getúlio com as minúcias que o autor expôs, pode ter ficado muito surpreso. Lira assegurou, por exemplo, que a histórica carta-testamento de Getúlio (“todos conhecem alguma parte dela”, disse). O documento original, quase nada tem a ver coma carta que acabou entrando para a história: “Ela foi escrita e datilografa por Maciel, um secretário de confiança de Getúlio”, assegurou.

Vargas pedira que Maciel corrigisse e desse o formato mais adequado possível ao documento.

E o resultado da mudança entrou para a história.

“SINA DE VARGAS”

Entre as muitas curiosidades sobre a personalidade do ditador, Lira lembrou que ‘uma certa obsessão pelo suicídio’ sempre rondara a vida de Getúlio Vargas, desde a sua mocidade. Citou fatos concretos sobre essa obsessão.

À imagem do “pai dos pobres”, Lira contrapôs o legado de uma ditadura sanguinária comandada por Vargas, cujo executor de mortes e torturas foi o general Felinto Muller, responsável por crimes hediondos em busca de supostos (ou verdadeiros) inimigos do Estado Novo. Nas contas de Lira Neto, Felino chegou a prender cerca de 7 mil pessoas, muitas delas – centenas – mortas sob torturas de toda ordem, boa parte delas comunistas.

ASSINATURA

A verdadeira raposa política Getúlio foi lembrada em muitos momentos da conferência de Lira Neto.

O mais curioso deles – e que arrancou risos de uma plateia muito qualificada – foi quando o autor lembrou que Getúlio teria ‘assinado’ um compromisso de apoio futuro a Adhemar de Barros, o homem do “rouba mas faz”, uma liderança que crescia em São Paulo.

A ligação de Getúlio com Adhemar arrancou protestos de Alzira Vargas, a grande interlocutora do ditador – assinalou Lira -, que, ao contrário do habitual em correspondências a Vargas, em que o tratava simplesmente de “patrão”, protestou escrevendo: “Meu pai…”

Getúlio, que muito prezava a palavra de Alzira, a filha indignada com a aliança com o grande corrupto AB, ouviu do pai e ditador a seguinte explicação, sem volteios:

– Não tenho nada a cumprir. Não fui eu quem assinou o acordo. Foram assessores…

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