domingo, 21 junho, 2026
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Lerner em suas muitas iluminações

Por Aroldo Murá G. Haygert

São 9h25 min deste dia 27, quinta-feira. Há uma hora morreu Jaime Lerner. Sou tentado a ficar quieto, revivendo momentos em que vivi com o amigo e sua inigualável Fani, que morreu em 2009. Jornalista habituado a escrever obituários desde 1960, acabo optando por deixar o coração falar, fiel à verdade dos fatos. Não me reprimo, a fraternidade se impõe neste testemunho. Isto é essencial.

Vou apontando, sem preocupações cronológicas, alguns momentos muito salientes que tive com Lerner. O primeiro deles quando Aramis Millarch me o apresentou no começo dos anos 1960, JL recém chegado da França, onde estudara urbanismo. O primeiro aperto de mãos foi ali na José Loureiro, edifício Mauá, onde funcionava o antigo Canal 6, TV Paraná, térreo.

Jaime Lerner, Celso Nascimento, Marcus Vinicius Gomes e José Lúcio Glomb

Eu participava do programa “Dreher Convida”, de Dino Almeida, ao lado de Vinicius Coelho e Adalgiza Portugal. Com cenários pintados quase na hora por Juarez Machado. Eu o entrevistei, eram tempos em que nem se sonhava com TI e mesmo pré-comunicação via satélites. (Depois ele seria, em 1964, escolhido para presidir o IPPUC). No estúdio do Canal 6, quase tudo se improvisava. “Aqui só faltam focas amestradas”, disse, baixinho, fora do ar, JL expondo sua criatividade cortante no “senso” de humor, marca da inteligência que ele tinha. Nisso era ímpar. No mesmo programa, um dos personagens era Juanita Castro, irmã de Fidel, e o parapsicólogo Padre Quevedo – um espetáculo à parte, daí a miscelânea por ele observada…

80 anos de Lerner – Constantino Viaro, Monica Richbieter, Carlos Marassi, Aroldo e Francisco Borsari Neto

Outro momento inesquecível para mim, nesse inventário afetivo, foi nosso encontro em meu apartamento em 1971– Edifício Asa -, onde Gilberto Ricardo dos Santos e eu nos reunimos para escrever o perfil biográfico de Lerner, que acabara de ser escolhido prefeito de Curitiba. Horas depois o encontraria no edifício Hauer, na Praça Osório, escritório do novo prefeito a ser empossado. Com ele estavam Fani e a pequena Ilana. Ali, sem mais palavras, selamos uma amizade ao estilo de antigamente, sólida, à prova de borrascas. O discurso de posse, se bem me lembro, foi obra do Luiz Carlos Cunha Zanoni.

Ano 1992: Jaime Lerner e Fani com Manoel Haygert, no lançamento do livro “Querência em Prosa”, de contos e causos gauchescos.

Os “momentuns” com Lerner se sucedem. Lembro de alguns deles eu sendo obrigado, por obediência à verdade, a defender Jaime e sua equipe de ataques grosseiros, como os partidos de veículos que mancheteavam , a partir de 1974, “Vermelhão mata mais um”. Eram dias de enorme repercussão da mídia impressa.

No caso, “vermelhão era o ônibus expresso que, por sinal, Julio Zaruch, Celso Nascimento, eu e Almir Feijó, acompanhando Rafael Dely, fomos testemunhar a entrega dos primeiros ônibus expresso montado por indústria local, em Caxias do Sul.

Lerner em depoimento ao Encontros do Araguaia em 2017

NOS 80 ANOS DE LERNER

Há quatro anos, fui convidado pelas filhas e parte do “staff” do Instituto Jaime Lerner para festejar, em dezembro, lá na Rua Bom Jesus, Cabral, os 80 anos do urbanista que acabou sendo a melhor encarnação de uma Curitiba que, na verdade, foi por ele recriada. Afinal, o orgulho de ser curitibano é franquia de Lerner, nasceu com certidão “expedida” por ele e seu grupo mais imediato de colaboradores- Rafael Dely, Lubomir Ficinski, Angel, Cassio Taniguchi, Carlos Eduardo Ceneviva.

Esse timão, com outros craques, uma usina de ideias, tirou de Curitiba a triste marca – “aldeia sinistra”-, maldosamente assim chamada a Cidade nos dias antes de JL. A celebração dos 80 anos de Lerner, quatro anos atrás, foi uma boa “hora da saudade”, com Abrão Assad tocando harmônica, Ilana e Andrea de “hostess” do encontro em que não faltaram companheiros de mocidade, como Maurício Schulman e Salomão Soifer, e outros amigos de tantas jornadas, como Euclides Scalco, sentado ao lado do ícone aniversariante, João Elísio…

80 anos Lerner – Maria Inês, Euclides Scalco, Marassi, Borsari Neto, Aroldo, Monica e Antonio Poloni

Carlos Marassi, Maí Nascimento Mendonça, Maria Inês, Dante Mendonça, a irmã Clarita e Henrique Naigeboren, o sobrinho Henrique Naigeboren,Maria Elisa Paciornik e Martha Schulman, Julio Lerner e outros irmãos de JL, Constantino Viaro, Francisco Borsari Neto…Saí cedo. Deiró captou, depois, esse evento para todo memorável.

Mas a celebração foi até tarde da noite, com direito a pitadas de “savoire dire” de alguns dos mais diletos de Jaime, como Gerson Guelmann e o “polaco” Jaime Lechinski, este o codificador do pensamento do homem da acupuntura urbana; é o Lerner que divide com Ney Braga o justo título de “modernizador do Paraná”.

Lerner foi também modernizador porque, se Ney organizou o Estado, unificando-o por rodovias, sistema telefônico, eletricidade, banco de fomento, e sob a orientação de padre Lebret, Jaime lançou Curitiba/ e Paraná ao mundo. E o fez com sua usina de inovações. Com isso foi fiel à sua natureza, à sua herança étnica judaica. Foi nosso melhor mascate da cidade, atraindo para Curitiba atenções da mídia mundial. É só visitar arquivos para confirmar o que registro. Quem tem memória da cidade no século 20 não precisa de arquivos…

80 anos Lerner – Marassi, Mauricio Schullman, Aroldo, Saul Raiz e Mazza

Com orgulho, tenho de citar a mensagem que Jaime me mandou pelos meus 80 anos. Gravou um depoimento em vídeo para minha afilhada e sobrinha Marcelle de Cerjat Duarte em julho de 2020. Está no Youtube. A fala já deixava visível que o homem ao qual a revista Time classificara de um dos pensadores 100 líderes do século 20, estava com a saúde abalada.

Apontou-me, no vídeo, como alguém de importante na vida de Curitiba, uma licença de exageros que amigos se concedem. Antes, dois anos antes, Lerner dera, em minha casa, um longo depoimento sobre sua vida, obras, crenças, definições, amizades, para o meu futuro livro “Encontros do Araguaia”, que foi todo gravado por Wasyl Stuparik, dono de raro acervo de depoimentos de paranaenses notáveis.

Lerner e Manoel Coelho, nos 80 anos de Jaime

GUERRAS NECESSÁRIAS

Jaime Lerner sempre foi homem de paz e bem. O que não quer dizer que a revolução urbana que promoveu em Curitiba, lançando a cidade no olhar do mundo, tenha sido pacífica. Por exemplo, o fechamento da Rua XV foi importante, sobretudo por marcar uma definição do urbanista no seu brado de guerra ao automóvel.

Esse “profeta” de realidades que se tornariam obrigatórias na agenda universal anos depois – como limitar a presença do automóvel nas cidades –  contrariava tudo o que estava estabelecido, de amplo uso dos carros.

A valorização do transporte de massa, com a implantação do sistema trinário – duas vias expressas e uma via com canaletas, para os ônibus-, foi uma batalha que deu frutos, internacionalizando o BRT, que passou a ser adotado em cidades do porte de Seul, por exemplo.

Lerner e Eduardo Guimaraes

Eu me lembro bem da entrevista que lá pelos 1973, Jaime nos deu a jornal Voz do Paraná, no espaço Roda Viva, que Maí Nascimento tão bem cuidou. JL falou para Roaldo Koehler, Maí, Jamil Snege e eu, conforme registra Diego Antonelli em seu livro “Jornal Voz do Paraná – uma história de Resistência”. Na ocasião, mostrou que era um administrador de preocupações sociais, ao contrário do que seus adversários apregoavam. Por isso, indagava, se não seria, porventura, interesse social, o advogar um plano diretor que oferecesse trabalho perto das casas dos empregados?

VERDE E OS RECICLÁVEIS

Nos anos 1970, no Brasil estavam estabelecendo divisas os chamados ecochatos, os exagerados defensores do meio ambiente. Jaime prometia, naqueles dias, transformar Curitiba numa exemplar capital ecológica. E assim o fez, a começar pela arborização das ruas da cidade. Talvez tenham ocorrido certos excessos de verde, como no bairro Água Verde. Mas é melhor a abundância que…

Scalco com Jaime Lerner, que cumpria 80 anos

Com a promessa de “Capital Ecológica” vieram os parques, Tingui, Tanguá, São Lourenço, Parque Iguaçu, Barreirinha, Jardim Zoológico. Por falar em ecologia, sou obrigado a registrar, como o fiz recentemente neste site, que Lerner foi o inventor, uma de suas melhores ações ecológicas, o “câmbio verde”, implantado nos anos 1980/90 na Prefeitura. O programa previa a troca de recicláveis por frutas, verduras, alimentos. Não sei se seu ex-pupilo o mantém na Curitiba de hoje.

O que sei é que jornalões, como o Estadão, citam que o modelo (e dão crédito a Curitiba) está sendo adotado por cidades paulistas, a começar por Santo André. Gerson Guelmann pode depor sobre essa área renovadora que incluiu outro programa surpreendente para os anos 80: “O Lixo que não é lixo”. Foi quando Curitiba também inaugurou no Brasil a ampla campanha, permanente, de reciclagem doméstica, nos comércio e indústria de lixo reciclável. Coleta por caminhões especiais. E depois, como esquecer que preocupações sociais fizeram-no criar, com Fani, o vale-creche, compra de vagas em creches por empresários.

No Ao Distinto Cavalheiro, quem é quem: de camisa azul, o falecido assessor parlamentar Pedro Paulo Santos; Rafael Dely; o publicitário Hugo Weber; Jaime Lerner; este que vos escreve; na ponta direita Carlos Eduardo Ceneviva – foto de Odil Miranda Ribeiro

CINEMA E O SHEOL

Um curioso, que nunca negou suas raízes fincadas em Abrão, Isaac e Jacó, Jaime era sobretudo um bom ouvinte, marca dos inteligentes. Uma vez, por exemplo, numa festa na casa de sua cunhada Ester Proveller, me sabatinou sobre realidades do Antigo Testamento. Uma delas, lembro bem, pediu-me que lhe explicasse sobre o Hades, e o Sheol (Xeol?). E lá fui eu fazer exegese de definições judaicas. Tinha orgulho dos pais, seu Felix e dona Elza. Ao lado do pai, trabalhou como balconista na casa de armarinhos da família, na Rua Barão do Rio Branco.

GOVERNADORES: Irrepetível e histórico momento: em comemoração na casa de Leonardo Petrelli, anos 1990, reunião de Álvaro Dias, Ney Braga, Jaime Lerner, Paulo Pimentel, Emílio Gomes e João Elísio Ferraz de Campos.

Lá, uma de suas funções era ajudar os colonos que desembarcavam da Rodoviária, a provar sapatos. Um exercício de humildade para o moço que cursava Engenharia na UFPR ao lado de amigos como Segismundo Morgenstern. Nesse exercício de memória, me lembro bem do dia em que me telefonou – eu editava o DP Domingo, no Diário do Paraná -, convidando-se para ser conselheiro da Fundação Cultural de Curitiba, em 1972, e que iria inicialmente funcionar numa casa na Praça N.S.da Gloria.

O time de conselheiros refletia o espírito ordenado e democrático de Lerner, que sabia viver com gentes e opiniões diversos: O genetiscista Newton Freire-Maia, o médico Jaime Guelmann, professor Schwab (especialista em MPB), professor Labatut, Eduardo Rocha Virmond. Jaime era assim, múltiplo, aberto ao diálogo, disposto sempre a apostar em renovações. Na sua segunda administração como governador do estado, por exemplo, escolheu Ney Leprevost para seu secretário de Esporte e Turismo. O moço tinha 25 anos.

Jaime Lerner com Fani Lerner e as filhas Andrea e Ilana Lerner. Foto de 2009.

Assim como nunca deixou de responder a adversários que o acusavam de proteger às montadoras com benefícios fiscais, decisão que não apenas trouxe a Renault para o Paraná, como transformou o estado num pólo automobilístico com centenas de fornecedores que aqui se estabeleceram.

Do Jaime Lerner que o Anjo da Morte agora levou, ficam muitas certezas e agradecimentos da cidadania. Para mim, uma lembrança forte do amigo era seu amor ao cinema, o que o ele projetou em marcas concretas, como a criação da Cinemateca de Curitiba. Alguns filmes cheguei a assistir junto com o casal, como “Madre Joana dos Anjos”, um clássico do cinema polonês, que um dia O Chico Alves do Santos resolveu projetar em minha casa. Não, digo por antecipação aos críticos desse transbordar de recordações, que “Jaime Lerner não inventou a Aurora Boreal”.  Mas andou perto. Biógrafgos a postos, pois.

Com Jaime Lerner e o escritor David Belmiro da Silva
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