Por Sandoval Matheus – Exigências de última hora, plateias conservadoras, má vontade da imprensa e censura. Esses foram alguns dos percalços que a diretora e dramaturga Ada Luana, de “Júpiter e a Gaivota – É impossível viver sem o teatro”, enfrentou quando estreou a peça na Rússia, no fim do ano passado. A obra faz uma releitura “feminina e feminista” do clássico de Anton Tchekhov, e talvez por isso mesmo tenha sido recebida com o cenho franzido num país cada vez mais embrenhado em hostilidades com a comunidade internacional.
A diretora viajou à terra de Vladimir Putin a convite do Festival de Teatro de Alexandrinsky, de São Petersburgo. O primeiro obstáculo, ainda antes de embarcar, foi o pedido para atenuar a nudez de uma atriz, que aparece com os seios descobertos em determinado trecho do espetáculo.
Pouco antes da primeira apresentação, mais uma demanda foi colocada na mesa: uma intervenção no prólogo da montagem, quando os atores, um tanto carnavalescos, aparecem vestidos com maiôs de lantejoulas e apetrechos femininos. O problema? A Rússia tem uma lei que proíbe o que chamam de “apologia ao transgênero”.
“Me avisaram que aquilo poderia dar ruim. E, em se tratando de Putin, a gente sabe que esse ‘ruim’ pode ser muita coisa”, contou Ada Luana, em entrevista coletiva na Sala de Imprensa Ney Latorraca, no Hotel Mabu, na manhã desta quinta-feira, 03.
As duas primeiras dificuldades foram resolvidas com um sutiã e uma legenda de desagravo, explicando que a indumentária do elenco fazia referência a uma festa da cultura brasileira.

Após a primeira sessão, no entanto, outra exigência. “O próprio presidente do teatro, que havia assistido a uma parte da peça na noite anterior, mandou que fossem cortadas todas as palavras ‘boceta’ do texto”, relembrou, justificando que, na sua versão, o clássico de Tchekhov é entrecortado por monólogos autorais, baseados em obras de mulheres escritoras.
Aparentemente, foi o menor dos males, diz a diretora. “Ao mesmo tempo, eu via o alívio da equipe do teatro, porque o presidente não teve a reação que poderia ter tido”, observou Ada Luana. “Eles [os funcionários] vivem num regime ditatorial, fazendo o que podem, tentando dar um jeitinho, burlar o sistema. No Festival, programaram o meu espetáculo, quando poderiam ter feito qualquer outra coisa que desse menos dor de cabeça. Lá, isso significa perder o emprego ou até ir pra prisão.”
De acordo com a diretora, na atualidade os melhores dramaturgos russos estão presos ou exilados. “O que me falaram é que a situação é muito difícil. Não existe oposição na terra de Putin.”
Os maus modos de um jornalista local – que transformou uma entrevista rotineira numa verdadeira sabatina e pareceu muito ofendido pelas mudanças feitas na obra de Tchekhov – e o ambiente de um coquetel, em que a brasileira foi ignorada e não teve nem sequer o direito de falar, terminaram de instalar o clima de tensão.
Mesmo assim, Ada Luana pretende voltar ao país em novembro, agora para participar da criação de uma nova montagem, com elenco local, como parte da programação do Festival Internacional de Teatro do Pacífico, em Vladivostok.
“No começo, eu fiquei com medo. Não pelo desafio, porque sou acostumada a surfar ondas gigantes, mas pelas possíveis retaliações que isso pode gerar, com o tema do feminismo”, confessou. “Mas fui lembrando das mulheres que conheci lá, de como elas estavam precisando de ‘Júpiter e a Gaivota’, e decidi aceitar. Quando você abraça uma causa, não dá pra voltar atrás.”