terça-feira, 14 abril, 2026
HomeMemorialJornadas de reencontros, segundo Fábio Campana

Jornadas de reencontros, segundo Fábio Campana

Fábio Campana
Fábio Campana

Não posso dizer que é reconfortante. No entanto, asseguro: a plaqueta que Fábio Campana está distribuindo a um grupo de amigos, pela passagem de 2015/16, mesmeriza o leitor. E, desta forma, surpreende, não só pelo domínio poético do texto – arte em que Campana tem expertise consagrada; mas pelas revelações que as 16 páginas contêm, a começar pelo título – “E Coisas Extraordinárias Aconteciam”.

Desta forma, o que vai sendo dito, em versos, posso ler como autobiográfico do escritor e jornalista, uma preciosidade como profissional da comunicação e romancista muitas vezes prejudicado nas relações interpessoais pela firmeza com que se expõe, na defesa de seu pensamento, pouco se importando com os cortejos que passem ao largo de sua existência. E pela facilidade com que suas cortantes análises se impõem.

Elas são impressionantes exercícios críticos, com humor que destrói costumes e personagens ‘entronizados” no nosso entorno. Exercícios, por vezes, de autocrítica.

Fundamentalmente, prevalece nas “boutades” de Campana, o cáustico humor, aquela coisa latina do “ridendo castigat mores”.

A capa da plaqueta, retrato feito pelo pintor Cláudio Cambé, mostra Fábio Campana com fácies de um Zapata, com algo de figura ascética.

Num momento, penso estar contemplando o retrato de um místico medieval.

Exagero meu? Ou do pintor? Acho que de nós dois.

De qualquer forma, a capa desse ‘testamento’ é um grande ponto de partida, sugestão para se entender um itinerário de vida. Os olhos do autor, por exemplo, foram captados por Cambé com aquele brilho/percepção de alguém que está sempre sorvendo o misterioso, o inefável, o inescrutável – uma característica do olhar latino, plasmado nessa mistura de italiano e castelhano que os ancestrais de Fábio lhe passaram.

“O autobiográfico não remói dores e frustrações, mas não deixa de registrar as enormes macerações que lhe ficaram na alma e no corpo, depois que os bárbaros de uma ditadura procuraram matar o livre pensar que sempre existiu nele. Nesse ponto é absolutamente livre para mergulhar na noite teratológica, apaziguando fantasmas gerados na longa marcha noite a dentro. Pelas insuportáveis torturas físicas e mentais.”

Lembra-me do olhar igualmente agudo e inquietante de dois tios meus, criados, como Campana, na fronteira (só que na fronteira Oeste do RS), também marcados pelos acentos mouros/ibéricos dos Cáceres e Gomes.

O legado “E Coisas Extraordinárias…” começa pelo começo da vida: o autor transita numa infância de bem-estar material, manifestando primários e imprevisíveis questionamentos de uma criança com olhar radiográfico sobre a sua fauna humana doméstica – preciosa –, companheira de vida. O avô, a avó, o pai, a mãe – cada um vai sendo alfinetado nessa catarse, mantidos os esperáveis respeito e consideração devidos aos mais velhos. Não os endeusa, mas esparsas queixas desse universo são sutilmente compostas de forma que, no final, ninguém fica comprometido na tela. O autorretratado só tem de ser fiel a si mesmo, sugere Fábio.

Entender Fábio Campana não é fácil. Os amigos mais próximos – como Nêgo Pessoa, Vitorio Sorotiuk, Jamil Snege, Luiz Roberto Soares sempre conviveram com essa raridade de ser humano, um pouco senhor da história do Paraná contemporâneos, dono de conhecimentos enciclopédicos, que, no entanto, confessa, na plaqueta, ter sempre adiado a leitura dos clássicos. Um ‘pecado’ que, de resto, é de toda uma geração, mesmo daquelas em que se apontam supostas formações à base do latinório de cozinha ou o de Ovídio.

Mas leu muito dos judeus norte-americanos do século 20, os poemas de Lorca, Jack London, Marx, Sergio Buarque de Hollanda… Leu e lê de tudo, noite a dentro…

O autobiográfico não remói dores e frustrações, mas não deixa de registrar as enormes macerações que lhe ficaram na alma e no corpo, depois que os bárbaros de uma ditadura procuraram matar o livre pensar que sempre existiu nele. Nesse ponto é absolutamente livre para mergulhar na noite teratológica, apaziguando fantasmas gerados na longa marcha noite a dentro. Pelas insuportáveis torturas físicas e psicológicas a que se submeteu.

Amores, desamores, realizações pessoais, contradições, vitórias, perdas, aceitações e abandonos. Tudo está ali na plaqueta.

Um dos derradeiros gritos do testamento, – com enorme carga poética – está nessa pedra de esquina de “E Coisas Extraordinárias Aconteciam”:

O moço encontrou o homem

E mostrou-lhes o menino em sua noite

de olhos cerrados, a pedir os sóis que lhe prometeram.

Enfim, o que se tem é um presente natalino e de ano novo que reparto com meus leitores, por dever irrefreável de dividir bênçãos nesses dias de festas espirituais.

Leia Também

Leia Também