
Neto de Bernardo e Azalia, filho de Bernardino e Regina, irmão de Saul, marido de Martha, pai de Renato e Cila, o engenheiro Maurício Schulman tem raízes fincadas há tanto tempo em Curitiba, cidade aonde nasceu, que, diz brincando, confunde-as com as araucárias.
Aos 85 anos – ele nasceu em 21 de janeiro de 1932 –, Maurício é dono de um currículo invejável. Foi diretor da Copel, presidente do BNH, secretário da Fazenda do Paraná, presidente da Eletrobrás e presidente do Bamerindus, um dos maiores bancos privados do país. Há um mês foi convidado a retornar à presidência do Conselho de Administração da Copel, a convite do governador Beto Richa. Maurício Schulman segue sendo indispensável.
Indispensável, Schulman alinha-se na relação de notáveis paranaenses que ajudaram a fazer o século 20, e cuja memória – em amplos depoimentos – vem sendo levantada pelo projeto “Encontros do Araguaia”, que resultará em livro do qual sou o organizador.
QUATRO VIDAS
Descendente de judeus russos, que aportaram no Brasil no fim do segundo império, Maurício, diz que sua história é dividida em quatro vidas, como se nelas estivessem narrados capítulos de um livro inacabado. Trata-se de sua extensa carreira profissional. É nela que o engenheiro civil formado na Universidade Federal do Paraná, nos 50, se calca.
FUNCIONÁRIO 000019
Há uma dúvida no ar: foi o governo Ney Braga (1961-1965) quem formou o engenheiro Maurício Schulman ou foi Mauricio quem ajudou a formar a administração Ney Braga? As duas afirmações estão corretas. O clima de parceria e pioneirismo da gestão de Ney fez o estado crescer em cinco anos o que não crescera em um século. Foi a partir daí que o Paraná deixou de ser um apenas um estado arrecadador de impostos para ser também servidor. Maurício Schulman foi um dos personagens dessa mudança. Primeiro como funcionário da Copel – ele é o contratado de número 000019 (apenas dois que o antecedem na numeração estão vivos) –, depois como diretor da Eletrobrás, a estatal de energia que nasceu no regime militar em meados dos anos 60.
SECRETÁRIO DA FAZENDA
Mauricio só interromperia a sua escalada no setor, para atender o chamado de Parigot de Souza, que fora seu professor, ocupara a presidência da Copel e, em 1972, assumiu o governo do Paraná depois da cassação de Haroldo Leon Peres. Era um teste de fogo, para o qual o engenheiro diria não ter nenhum conhecimento acumulado. Que aprendesse. Dali por diante, seria o secretário da Fazenda do Paraná, e mesmo depois, com a morte repentina do governador, seguiria no cargo na gestão de Emílio Gomes.
PERDEU DINHEIRO
Um detalhe nessa história que mostra a opulência dos cargos de alto escalão nos últimos anos. Quando Maurício Schulman deixou a diretoria da Eletrobrás, atendendo ao pedido de Parigot de Souza, o salário que ele viria a receber na secretaria representava um quinto ou menos dos vencimentos na Eletrobrás. Mas ele diz: “Eu tinha um apartamento, um carro e podia me virar”.
DO BNH PARA O BAMERINDUS
Os saltos profissionais de Maurício Schulman, a partir daí, seriam grandes. Foi presidente do BNH, em 1974, cargo que ocuparia por cinco anos, e durante os quais foi presença quase que diária na mídia, já que o financiamento da casa própria ganhou impulso inédito nesse período. Construía-se em larga escala com fundos do FGTS que representavam 8% da folha de pagamento do país. Depois, convidado a princípio para ocupar a diretoria de crédito imobiliário do Bamerindus, teria uma ascensão meteórica, assumindo a presidência do banco no período de 1990 a 1997, quando então o Bamerindus sofreu a intervenção do BC em uma decisão até hoje considerada polêmica e duvidosa.
UM PENSAMENTO
Foi, nesse período, que apreciando a árvore de Natal do Rockfeller Center na sede internacional do Banco Bamerindus, localizado no andar superior da Saks Fifth Avenue, em Nova York, que Maurício Schulman, acompanhado de Martha, sua esposa (“o Aroldo Murá esteve lá”, disse Maurício), suspirou fundo e disse, como se deixasse escapar um pensamento: “Já fui rico e já fui pobre. Ser rico é muito melhor”. E riu.
Participaram da entrevista – e gravação em vídeo – com Maurício: Professor Antonio Carlos da Costa Coelho, José Lúcio Glomb, ex-presidente da OAB-PR, Jaime Lechinski, jornalista, Marcus Vinicius Gomes, jornalista, e Gerson Zafalon Martins, do Conselho Nacional de Medicina (CNM).
Nas fotos de Annelizze Tozzetto, temos registro de momentos do depoimento, seguido de almoço.

