Direito e Inovação por Nicolas Alves Fabeni – Há pouco tempo, anunciar que uma empresa utilizava inteligência artificial era suficiente para despertar curiosidade. A tecnologia aparecia nas apresentações comerciais, nos eventos de inovação e nos discursos de investidores como um sinal quase automático de modernidade. Hoje, a pergunta mudou. Não basta dizer que uma empresa usa IA. É preciso explicar o que ela faz melhor por causa disso.
A mudança parece pequena, mas revela uma transformação importante. Ferramentas que antes estavam restritas a equipes técnicas agora estão ao alcance de profissionais de praticamente todas as áreas. Uma pequena empresa consegue organizar atendimentos, revisar documentos, analisar dados e criar protótipos com recursos que, até recentemente, exigiam equipes maiores. Isso abre oportunidades reais, especialmente para negócios que precisam competir com estruturas muito mais robustas.
Mas há um risco nessa facilidade: confundir velocidade com qualidade. Produzir uma resposta em segundos não significa que ela esteja correta. Automatizar uma tarefa não significa que ela deveria ser automatizada. E reduzir o custo de uma operação não garante que a experiência do cliente tenha melhorado.
Novo diferencial é fazer as perguntas certas
A inteligência artificial funciona melhor quando existe clareza sobre o problema que se deseja resolver. Se uma empresa não sabe por que perde clientes, automatizar mensagens pode apenas acelerar um atendimento ruim. Se não conhece os próprios processos, criar dezenas de agentes digitais pode multiplicar erros em vez de eliminá-los.
Antes de contratar mais uma ferramenta, vale perguntar: qual atividade consome tempo sem gerar valor? Onde estão os erros recorrentes? Quais decisões exigem julgamento humano? Que informação não pode ser tratada sem cuidado? Essas perguntas parecem menos empolgantes do que uma demonstração tecnológica, mas são elas que separam projetos úteis de iniciativas que acabam abandonadas.
Para quem empreende, o ponto não é escolher entre pessoas e máquinas. É redesenhar o trabalho para que a tecnologia assuma atividades repetitivas, enquanto as pessoas concentram energia em negociação, criatividade, relacionamento e decisões difíceis.
Confiança não se automatiza
Existe outra diferença entre uma demonstração impressionante e uma empresa confiável: responsabilidade. Um sistema pode gerar um contrato, sugerir uma estratégia ou responder a uma dúvida de cliente. Mas alguém precisa definir critérios, conferir informações e assumir as consequências do que será utilizado.
Imagine uma loja que passa a usar IA para personalizar ofertas. A iniciativa pode melhorar a experiência de compra, mas também envolve decisões sobre coleta, armazenamento e uso de dados. A discussão deixa de ser apenas tecnológica e passa a envolver a confiança que o consumidor deposita naquele negócio.
No Brasil, a Lei Geral de Proteção de Dados estabelece princípios e regras para o tratamento de informações pessoais. Não é preciso transformar todo empreendedor em especialista jurídico, mas é indispensável entender que inovação e responsabilidade caminham juntas. Para consultar a norma, veja a Lei nº 13.709/2018 no Vade Mecum do JurisNauta.
A legislação não deveria entrar na conversa somente depois de um incidente. Assim como uma empresa planeja fluxo de caixa, contratos e atendimento, precisa pensar desde cedo em como utiliza informações, comunica escolhas e corrige falhas.
Oportunidade para negócios do Paraná
O Paraná reúne empreendedores de perfis muito diferentes: startups de software, indústrias, comércio, prestadores de serviços e negócios familiares. Nem todos precisam desenvolver modelos próprios de inteligência artificial. Muitos podem ganhar competitividade ao aplicar ferramentas existentes a problemas concretos, de maneira cuidadosa e mensurável.
Pense em uma pequena indústria que organiza melhor seus pedidos, em um escritório que reduz tarefas administrativas ou em uma empresa de serviços que consegue responder mais rapidamente às solicitações dos clientes. O valor está menos no nome da ferramenta e mais no resultado obtido: menos retrabalho, mais previsibilidade e tempo liberado para atender melhor.
Também há espaço para colaboração. Universidades, comunidades de tecnologia, entidades empresariais e profissionais de diferentes áreas podem ajudar a transformar experimentos isolados em práticas sustentáveis. O empreendedor não precisa saber tudo, mas precisa aprender a trabalhar com pessoas que dominam competências complementares.
O futuro pertence a quem combina velocidade com critério
Talvez a maior mudança provocada pela IA não seja a substituição de uma tarefa específica, mas a redução do tempo entre ter uma ideia e testá-la. Isso torna a experimentação mais barata. Também torna mais fácil lançar produtos sem compreender completamente seus riscos, custos e limitações.
Por isso, acredito que os negócios mais preparados não serão necessariamente os que adotarem o maior número de ferramentas. Serão aqueles capazes de medir resultados, reconhecer erros e estabelecer limites. Saber quando usar tecnologia é tão importante quanto saber quando não usar.
A inteligência artificial já está deixando de ser novidade para se tornar infraestrutura. E, quando uma tecnologia se torna comum, a vantagem competitiva muda de lugar. Ela passa a estar na qualidade das perguntas, na execução consistente e na confiança construída com clientes, equipes e parceiros.
O futuro não será decidido por quem escrever o melhor comando para uma máquina. Será construído por quem souber transformar possibilidades tecnológicas em decisões melhores para as pessoas.

Nícolas Alves Fabeni é advogado formado pela PUCPR, com certificação pela Universidade de Lisboa, administrador pela UFPR, founder e CEO da StartLaw, legal tech de Curitiba que oferece departamento jurídico digital para startups e pequenas e médias empresas.
