Por Eliaquim Junior – O silêncio da sala de cinema na sessão de Hamnet era ensurdecedor. Não havia tosses, cochichos ou o clássico barulho de pipoca: só gente tentando respirar com dignidade enquanto chorava em absoluto respeito coletivo. Na sequência mais intensa e devastadora do longa, o público não assistia ao filme — sobrevivia a ele. E quando parecia que o sofrimento já tinha feito hora extra, a diretora Chloé Zhao, com sua câmera perigosamente próxima e íntima, resolve extrair mais algumas lágrimas, sem a menor consideração pelo bem-estar emocional do espectador, em uma das reviravoltas mais tristes e cruéis do cinema recente.
Hamnet (que infelizmente carrega o subtítulo desnecessário A Vida Antes de Hamlet, isto é a equipe de marketing, mais uma vez, subestimando a inteligência do povo brasileiro) é, sem dúvida, o melhor filme de Zhao. Antes dele, a diretora entregou dois trabalhos bastante fáceis de esquecer: NomadlandeEternos, da Marvel. O primeiro, apesar de ter vencido o Oscar de Melhor Filme e Melhor Direção em 2021, segue sendo um exercício de memória falha. Já a “aventura” insossa com Angelina Jolie conseguiu a façanha de gerar mais desapontamentos do que entusiasmo.
Indicado a oito Oscars neste ano, Hamnet apresenta um retrato íntimo da relação entre o escritor William Shakespeare (Paul Mescal) e Agnes (Jessie Buckley). Ele, um jovem professor de latim; ela, uma aspirante a “bruxa” — ou treinadora de falcões, dependendo do ponto de vista. Eles se encontram, se apaixonam quase instantaneamente, se casam, têm filhos e enfrentam uma tragédia familiar. É tudo o que você precisa saber. E talvez tudo o que seu coração aguente.

Para quem já conhece Hamlet, o filme adiciona novas camadas à história, ampliando o que se sabia — ou se acreditava saber — sobre a origem da peça. Mas William não é exatamente o protagonista aqui. Quem conduz a narrativa é Agnes. É através do olhar dela que a história ganha peso emocional, densidade e dor. O luto, o sacrifício e o cruel exercício de “deixar partir” são vividos de forma devastadora por Agnes, em uma atuação assombrosa de Jessie Buckley que, sim, deve muito bem levar um Oscar para casa.
Hamnet não é um filme fácil. É intenso, doloroso, visualmente belo e emocionalmente implacável. Mas também é profundamente envolvente — e vai te fazer chorar o suficiente para considerar isso uma forma alternativa de catarse.
Se você não tem medo de sentir — sentir de verdade — vá ao cinema. Só talvez leve alguns lenços extras.
*Eliaquim Junior é cinéfilo e viciado em café (a ordem é discutível, o vício não). Escreve sobre filmes para justificar o tempo gasto assistindo a eles – e para reclamar com embasamento. Viu 125 filmes em 2025 e segue insatisfeito. Fã assumido de Spielberg e Hitchcock. Jornalista formado, e atua com edição e revisão de textos, mantendo vírgulas no lugar e expectativas altas no cinema.
