
“Vejo a gestão Greca baseada muito no marketing, mais do que em políticas públicas efetivas. E isso é feito pelo Marcelo Cattani. Ele voltou após a campanha da Cida Borghetti, está trabalhando no gabinete do prefeito. Eu diria que é uma gestão de imagem, de maquiagem da cidade.”
Na segunda e última parte da entrevista do deputado Goura Nataraj (PDT), 38, o único dos vereadores de Curitiba a conquistar uma cadeira na ALEP em 2018, resultado de sua criativa e crítica ação na Câmara mostrando soluções para Curitiba – não foge das perguntas: Trata da mobilidade urbana com a mesma desenvoltura com que condena ações como as canetadas do prefeito que excluem obras e serviços de licitações, por exemplo.
Esta entrevista tem amplo sentido documental. Serve como referencial para o cotejamento da real administração da Curitiba de hoje.
Goura garante que não faz uma “oposição dedicada” ao alcaide Rafael Waldomiro Greca de Macedo, o que até seria admitido no jogo democrático.
Seus argumentos têm a forte lógica de quem tem Mestrado em Filosofia pela UFPR, e boa parte de sua vida dedicada a prever soluções para prover o futuro da cidade.
Em resposta a indagação da coluna, feita depois da entrevista, Goura admite que se colocou, dentro do PDT, “à disposição de Curitiba, para servi-la em eventual eleição”.
Traduzindo: pode ser candidato do partido – assim como Gustavo Fruet – na eleição de 2020.
SEGUE A PARTE FINAL DA ENTREVISTA (concedida em 10 de maio de 2019):
Você será candidato a prefeito?
Pretendo me candidatar, sim. Sou pré-candidato. Mas ainda não temos vice. Nós pensamos em fazer uma discussão séria na cidade, e o único nome novo sou eu.
Sobre o xadrez político, qual sua avaliação para a próxima eleição?
Pelo xadrez político que se arma para 2020, além do Rafael Greca, teremos o Fernando Francischini, o Ney Leprevost. Os três devem dividir o mesmo eleitorado. E o delegado está forte, fez 140 mil votos em Curitiba, de um total de 430 mil.
No PDT, temos eu e o Gustavo Fruet como opções. Estamos idealizando uma frente de centro-esquerda, para unir forças com essa ideia de renovação.
E nesse aspecto, não existem nomes além de mim: fui líder de oposição ao Rafael na Câmara e o único vereador eleito deputado estadual, dentre todos que se candidataram.
Defendemos pautas ligadas à ciência, à mobilidade, ao urbanismo, à herança que Curitiba tem desde antes do Jaime Lerner. E existem herdeiros ilegítimos: o Greca não é herdeiro disso. A candidatura do Ney também não traz essa temática, nem a do Francischini. Quero trazer essa discussão.
Quais outras medidas da prefeitura você se opõe?
Vejo a gestão Greca baseada muito no marketing, mais do que em políticas públicas efetivas. E isso é feito pelo Marcelo Cattani. Ele voltou após a campanha da Cida Borghetti, está trabalhando no gabinete do prefeito.
Eu diria que é uma gestão de imagem, de maquiagem da cidade.
Outra questão, por exemplo, é a retirada de bustos e estátuas públicas sob alegação de roubos e vandalismo. Foram retirados para se fazerem réplicas, muitas não voltaram até agora.
A minha leitura é que ele se acha o dono da cidade, ele trata a coisa pública como propriedade privada. Ele não consegue fazer essa diferenciação.
Só tive uma audiência com ele, antes de ser da oposição. Tudo que defendemos em relação às bicicletas, mobilidade e Direitos Humanos, sobre os moradores de rua, ele foi contrário e fez o oposto.
O que pode ser dito em relação aos Direitos Humanos?
Eles fazem uma política higienista, de segregação dos moradores de rua.
São levados para longe do Centro, para o Sitio Cercado.
Você não tem política de habitação de interesse social. A Cohab está precarizada. E agora na discussão sobre a lei de zoneamento, em que podia haver essa discussão, a prefeitura não faz.
Havia um terreno da Cohab ao lado do Shopping Palladium, por exemplo. E eles colocaram à venda, mas não conseguiram. São áreas públicas da Cohab e da prefeitura. Havia terrenos no Batel também.
A Cohab tem construído muito pouco. O déficit habitacional da cidade é grande, temos acompanhado as ocupações da região Sul da cidade. E existem zonas sem urbanismo, como o Parolin, ocupação que já vem de anos.
Tivemos a ocupação 29 de março e Tiradentes, em que a polícia jogou fogo, já está comprovado. Foi vingança pela morte de um soldado que aconteceu na noite anterior. O Gaeco está investigando.
E o que mais?
A gente tinha uma Secretaria da Mulher, não existe mais. O Greca extinguiu. Ele alegou que estava enxugando a máquina, e colocou uma pessoa no gabinete. Também a política de igualdade racial, diminuída a uma pessoa negra trabalhando numa assessoria ligada ao gabinete do prefeito.
É preciso colocar em pauta também o desprestígio aos servidores públicos, professores, guardas municipais.
Em relação ao asfaltamento da cidade, quais suas considerações?
Mar de asfalto que esquece os pedestres, dos ciclistas. Levamos aos órgãos auxiliares a falta de transparência dos investimentos em asfalto: de onde vem, quem fornece, quanto se gasta?
Ele dá privilégios aos grandes empresários, não às políticas sociais.
Com isso se consolidam as desigualdades sociais. Não há políticas para a juventude.
Se candidato for, me dê quatro linhas de trabalho…
Vamos lá: teria como premissa uma cidade mais viva, atrair as pessoas para os espaços públicos, com políticas públicas nesse sentido, para as bicicletas, com melhoria nas calçadas para os pedestres, e no transporte coletivo. É preciso ter um projeto para que, em quatro anos, via incentivo no IPTU, estimular os proprietários a cuidarem de suas calçadas.
Precisamos ter uma política ambiental ousada, de tratamento do lixo.
Hoje está sendo levado e enterrado em Fazenda Rio Grande, depois de acabarem com o aterro da Caximba. Existe um consórcio de 23 municípios, Curitiba sendo o maior deles. E a maior parte é resíduo orgânico, que poderia ser destinada a uma política de compostagem. É preciso tratar isso de forma mais inteligente.
A gente tem um déficit muito grande de políticas habitacionais na cidade, isso precisa ser colocado de forma forte, com integração com a região Sul. É uma região em que boa parte da população habita, na CIC, no Sitio Cercado, mas há falta de infraestrutura urbana, de equipamentos culturais, de esporte e lazer. Temos que levar isso para a região.
Temos que investir mais em ações efetivas do que em publicidade de autopromoção pessoal. Não fazer ações como a peça teatral que ele escreveu e gastou R$ 34 mil. Está no MP, pediram ao prefeito, à secretaria de comunicação, a Fundação Cultural e à procuradoria municipal a se manifestar. E isso pode gerar uma situação de improbidade administrativa.
“A CÂMARA MUNICIPAL NÃO FISCALIZA, NÃO SE DÁ AO DEVIDO RESPEITO. É COISA ANTIGA, E O MESMO OCORRE NA ALEP”
E a Câmara é subserviente, não fiscaliza, não se dá ao devido respeito.

E isso não é de hoje. A Assembleia é a mesma coisa, estou lá agora e vejo.
Voltando ao meio ambiente e à conservação, precisamos de políticas para que Curitiba continue tendo área verde adequada. Temos o caso da Estação Ecológica Teresa Urban, fica no Alto Boqueirão, do lado do terminal de logística, criada oficialmente pelo Fruet em 2016. É o último remanescente dos campos naturais de Curitiba. Foi uma homenagem feita ao trabalho da Teresa, e isso está parado. Não foi nem cercado, nada foi feito lá. E isso tem potencial para educação ambiental para a população, tem uma fauna presente, tem bugios. Eu vi.
E na Educação?
A prefeitura atende apenas o ensino básico, até o quarto ano do ensino fundamental. São 194 centros educativos, se não me engano. A qualidade é boa, mas existem problemas estruturais e desprestigio aos professores. A merenda também, é preparada por uma empresa terceirizada, vem em plásticos, isso perde a questão educativa do papel da merendeira. E desde o primeiro governo Greca, em 1996. Para um universo de 120 mil crianças atendidas, deveria ter ao menos 58 nutricionistas, segundo o Conselho Regional de Nutricionistas do Paraná. E a prefeitura tem apenas três. Queremos trazer a educação nutricional de volta às escolas.
Campinas fez isso: privatizou a merenda, depois reestatizou.
E você acredita que possa ser visto como alternativa antidireita, fora do espectro do Bolsonaro?
Acredito que sim. Minha trajetória política está iniciando, sou jovem, mas já estou há 20 anos discutindo soluções para Curitiba. Soluções de inclusão, estímulo aos jovens, ao skate, etc. Vemos hoje uma falta de políticas da vida noturna, existem vários lugares com problemas para renovar alvará. Houve algumas batidas junto da polícia. E isso vai na contramão das necessidades da população, que quer se divertir a noite nos espaços públicos e privados. É uma ocupação legítima.
“ELES ESTÃO FAZENDO CONTRATAÇÕES PELO ICAC, QUE CONTRATA SEM LICITAÇÃO. TAL COMO O FEZ COM A DISCUTIDA PEÇA DE NATAL DO PREFEITO…”
E em relação às políticas culturais?
A Fundação Cultural está se precarizando cada vez mais. A sede continua no Moinho do Rebouças, junto com a Agência Curitiba e o Vale do Pinhão, apesar do gabinete da presidência estar na Casa da Memória, no Largo da Ordem. Hoje a secretária é a Ana Castro, servidora de carreira, que está ali para servir às vontades do prefeito. Eles estão “icaquizando” a cidade, através do ICAC (Instituto Curitiba Arte e Cultura). É uma organização social que recebe recursos da FCC e consegue contratar sem licitação várias ações, como o Natal Luz, a peça de teatro: a vontade do prefeito se sobrepõe a uma política cultural de discussão com a classe artística.

Os servidores estão se aposentando, e todas as obrigações estão sendo transferidas para o ICAC. O Cine Passeio é fruto de várias gestões, desde o Beto Richa com o Paulino Viapiana, que o Greca entregou agora. E quem está gerindo? O ICAC. O presidente é o Marino Galvão, ator e produtor, qualificado, mas está fazendo a gestão pelo prefeito.
Mais uma vez repito: a maior falha dessa gestão é a falta de diálogo com a população, com os setores de interesse das políticas públicas. Isso vale pra cultura, mobilidade, lixo etc. A gestão é marcada pela arrogância e prepotência.
E em relação à dita sustentabilidade, como cidade inteligente?
É importante dizer que Curitiba está parada no tempo, vivendo do eco dos anos 1970 e 80. Fala-se de Smart City, que nada mais é do que um verniz de sustentabilidade. Não faz sentido falar de cidade inovadora com o IPPUC totalmente fechado para participação. O presidente é o Jamur, secretário de governo, servidor de carreira também. Tem-se um desprestígio da classe. Há falta de inovação das universidades, por exemplo.
O Greca vai entregar uma gestão em que as bicicletas estão ausentes. Não faz sentido falar de cidade inteligente sem essas necessidades básicas de mobilidade. Mas é conveniente fazer evento de Smart City, gastando R$ 1,8 milhão de dinheiro público em dois dias de evento. Mais uma vez, sem licitação, sem exigência. Eles contrataram uma empresa de Curitiba que tem franquia com a marca de Barcelona, desses eventos “Smart City”.
Existem algumas irregularidades, como o fato de as pessoas que assinam contrato pela prefeitura com essa empresa terem sido palestrantes do evento. Alguns secretários e representantes da prefeitura palestraram.
Sobre o panorama nacional, quais suas considerações?
Estamos vivendo um culto da ignorância, um momento difícil. No aspecto ambiental, o retrocesso está sendo no nível anterior aos anos 1980, de disputas territoriais com a população indígena, tomada de terras de áreas preservadas, etc..
