
José Lucio Glomb, ex-presidente da OABPR, presidente do Instituto dos Advogados do Paraná, nunca escondeu ser um homem de fé cristã, que pratica no catolicismo, com a mulher, a também advogada Suely, tendo o casal criados os filhos nos mesmos princípios.
Por isso, não foi nenhuma surpresa para os amigos de Glomb o roteiro, a grande experiência, que ele viveu no mês passado, durante dezenas de dias, no Caminho de Santiago da Compostela, Espanha.
A entrevista a que ele respondeu e as fotos que a ilustram dão uma ideia da ampla jornada em que o advogado – ao mesmo tempo que milhares de outros peregrinos de todo o mundo – fez naquele roteiro que leva ao local em que (segundo a tradição) – está o túmulo de Santiago, o apóstolo de Cristo.
Eis a entrevista:
1 – Por que você resolveu fazer o Caminho de Santiago?
RESPOSTA: Há bom tempo vinha pensando sobre o Caminho de Santiago, como uma forma de agradecimento a Deus por tudo que aconteceu de bom em minha vida, na vida da minha família. E para fortalecimento espiritual, pois ele proporciona plena possibilidade de reflexões.
Um peregrino sabe se virar. Priorizei a estadia em albergues, muitos públicos, outros religiosos e também muitos privados. Em geral cobram 5 a 10 euros, mas alguns públicos não cobram nada. O peregrino dá o que quiser.”
2 – É possível um resumo (muito sucinto) do Caminho? Histórico.
R – O Caminho é uma peregrinação para reverenciar Santiago, o apóstolo, cuja tumba foi descoberta e, sobre a qual foi construída uma igreja e, ao redor, desenvolvida a cidade. Há mais de mil anos essa peregrinação ocorre, perdendo força na época do renascimento, mas reascendendo-se quando no século XVIII a Igreja católica reconheceu como verdadeiros os restos mortais de Santiago. Com a modernidade ficou a dúvida se prosseguiriam as peregrinações a pé, mas o que ocorreu foi justamente um aumento. Para se ter ideia do aumento, em 1985 cerca de 1200 peregrinos receberam a Compostela e em 2010, Ano Santo, foram mais de 200 mil. Para isto contribuíram muito as visitas que o Papa João Paulo II fez a Santiago.

3 – Há custos junto a alguma instituição, fazendo o Caminho?
R – Não paguei nada a nenhuma Instituição, exceto 5 euros à Oficina do Peregrino, em Saint Jean, para expedição de uma credencial. Os custos são baixos, após chegar lá.
4 – Explane sobre o roteiro, a quilometragem andada, o período das caminhadas… a hospedagem, os tipos humanos encontrados no caminho…
R – Andei 800 km em 33 dias, iniciando no dia 13 de setembro de 2016. As caminhadas variavam de acordo com a distância das cidades e vilas onde estavam os albergues. Poderia ser 18 km ou até mesmo 32, 34 km por dia.
Não é fácil, pois a região passa por muitas montanhas e o sobe e desce é grande. Mas também existem trechos mais suaves e a paisagem é maravilhosa.
É extraordinário ver pessoas das mais diversas nacionalidades entendendo-se, ainda que não falem o mesmo idioma, nem o espanhol ou inglês. Predominam os espanhóis, é claro. Mas temos muitos alemães, italianos, franceses, americanos, australianos e canadenses, entre tantos outros. A humildade e a solidariedade foram as marcas dessa gente, que fazia o Caminho.
“O Caminho provoca emoções, sensações e pensamentos que só aqueles que acreditam em Deus podem avaliar. Tenho belas histórias para contar e as contarei um dia.”
5 – O Caminho está fortemente ligado à Igreja, e ao espírito do Evangelho? Quem dele participa procura, essencialmente, um reencontro espiritual?
R – O Caminho tem forte ligação com a Igreja e o Evangelho. O reencontro ou a reafirmação espiritual fica claro nessa peregrinação. As pessoas ficam mais leves, despojadas, ao viver um período longo, com sacrifícios e orações contínuas. Compartilhando sentimentos e sensações a todo momento.
De minha parte assim vi o Caminho de Santiago. Mesmo aos que o encaram como desafio físico, ao final, na missa do peregrino na Catedral de Santiago de Compostela, observa-se a revelação de uma pessoa um pouco diferente daquela que começou a jornada.

6 – Como a população das cidades pelas quais o peregrino passa se comporta em relação ao caminhante?
R – ‘Buen Camino’. É o que mais ouvi de todos com os quais cruzei, nas cidades e vilas, que assim falavam tão logo viam um peregrino com a sua mochila. Não só eram simpáticos, como muito prestativos quando lhes dirigi a palavra, quer para alguma conversa. Fiquei com uma excelente impressão do povo espanhol nessa caminhada.
7 – Há assistência religiosa ao longo do caminho? Ele pode ser feito individualmente? Como você fez o Caminho: só ou em grupo?
R – Em quase todos os dias havia uma parada, com a missa e benção aos peregrinos, ao final do dia. Onde isto ocorreu sempre existiu um padre, disposto a uma conversa. No meu caso, parti sozinho para realizar o Caminho, porém ao longo dessa jornada naturalmente fui encontrando pessoas com as quais seguimos juntos.
No meu caso, no segundo dia encontrei um canadense e três australianos – um casal e a cunhada. Dali rapidamente nasceu uma amizade que nos fez caminhar juntos. Alguns por pouco tempo, como os australianos, com os quais fiquei apenas 7 dias, mas com Otto, canadense, fui até Santiago.
Hoje mesmo recebi uma foto e mensagem dos amigos australianos, em que dizem que tiveram a sorte de, nesses 7 dias, nos fazer amigos para sempre. Assim é quando há bondade e solidariedade no coração. Quando tudo acontece sem interesses outros que não de atingir algo comum.
8 – Qual a estimativa do número de peregrinos que passam anualmente por Santiago?
R – Para ter uma ideia, só no último mês de outubro, 25.575 peregrinos percorreram o Caminho. Eles iniciaram em diversos lugares, principalmente em Sarria, para fazer os últimos 100 quilômetros, Desde Saint Jean Pied de Port, foram 12% e os demais espalhados desde diversas cidades. É impressionante saber que em 2014, mais de 237 mil peregrinos conseguiram a Compostela, um certificado que é concedido a quem percorre mais de 100 quilômetros. Os meses mais movimentados são de julho e agosto e os menos dezembro a fevereiro, em face do frio, com muita neve. No dia anterior à minha passagem, muitos lugares estavam com zero grau. É difícil e perigoso, nesta época.
Embora tenha achado que existiam mais mulheres que homes, as estatísticas oficiais são de 45% de mulheres. E a maioria entre 30 e 60 anos de idade.
9 – Descreva as coisas prosaicas do dia a dia do caminhante, como as resolvia: a comida, as roupas lavadas, as hospedagens, a comunicação com o Brasil…
R – Um peregrino sabe se virar. Priorizei a estadia em albergues, muitos públicos, outros religiosos e também muitos privados. Em geral cobram 5 a 10 euros, mas alguns públicos não cobram nada. O peregrino dá o que quiser. Nestes casos, observei que todos sempre contribuem com um valor justo. A alimentação é muito boa, principalmente com o menu do peregrino, que existe em todos os lugares. E de baixo custo. Se dá oportunidade para escolher entre três pratos de entrada e mais outro prato principal. Além de sobremesa, pão e vinho. Este da melhor qualidade em todos os lugares. Já conhecia o vinho espanhol, mas fiquei fã, principalmente do tempranillo.
Aliás, como curiosidade existe até uma fonte de vinho gratuito aos peregrinos, mas ninguém exagera, não. Há um ditado que diz: “Com vinho se faz o Caminho”.
Pouca roupa, mochila leve, esse é um dos mandamentos. Para isso há necessidade de lavar a roupa, o que fiz sem nenhum problema, ainda mais com esses tecidos modernos, que secam rapidamente. Alguns prendedores de roupa fazem parte da bagagem.
Cuidar dos pés é tarefa árdua, difícil, pois não há descanso. Ainda que sem qualquer dor muscular, sofri muito com bolhas, a ponto de caminhar mais de 200 quilômetros atormentado por elas. No fim, tudo deu certo.
Foi uma cota extra de sacrifício. E a maioria das pessoas enfrenta isso.
10 – Como se sentiu, enfim tocado pela mensagem espiritual do roteiro?
R – Sempre fui homem equilibrado, mas é impressionante como há uma influência do Caminho no balanço final. Fiz profundas e concentradas orações durante todo o Caminho, com reflexões que envolveram não só minha vida pessoal e familiar, como também a preocupação com nosso país, alvo de roubalheiras perversas, que impedem a felicidade da população.
Confesso que pedi muito a Deus, pois só ele pode resolver tudo. Que ele ilumine as pessoas que podem fazer a diferença. Que contenha a violência, a guerra em todo mundo. Utopia, dirão alguns. Um sonhador fora da realidade, dirão outros. Mas prefiro acreditar que um dia desses algo vai mudar, pois como diz a música, “se foi para desfazer, por que é que fez?”
O Caminho provoca emoções, sensações e pensamentos que só aqueles que acreditam em Deus podem avaliar. Tenho belas histórias para contar e as contarei um dia. Dou meu testemunho que vi a maioria dos peregrinos felizes e agradecendo a Deus cada passo no Caminho.
