(trechos do perfil de Geroldo Hauer, constante do volume 7 do livro Vozes do Paraná, a ser lançado dia 10 de setembro na EBS Business School, Rua Eng. Rebouças, 2176)

Há quem insiste em enquadrar Geroldo Augusto Hauer na restrita categoria de ‘socialite’, em primeiro lugar, para defini-lo. Alguns assim o farão, é lamentável, por puro preconceito contra um dos nomes que monopolizaram e têm papel importante no chamado “carnet social” (da chamada alta sociedade) da Curitiba do século 20 e parte deste, ao lado de sua mulher, Marly Leal Hauer.
No fundo, eles gostariam até de ter estado no lugar dele; outros, por incapacidade de avaliação desse cavalheiro, não o enxergam corretamente como ser humano raro que é. Formado numa sociedade “antiga” (mas nem tanto assim), abrangente, de valores sólidos e profundos; é cavalheiro de um Paraná que, infelizmente, resta cada vez mais distante, muito mais na memória de alguns, nas pesquisas de historiadores e em lances de estudos antropológicos. E, é certo, em obras referenciais, como os mergulhos que o múltiplo Wilson Martins (crítico literário, misto de historiador e sociólogo) faz sobre este Brasil diferente.
No entanto, quem é capaz de se conceder momentos de reflexão madura sobre a identidade do curitibano, sabe que o mundo desse advogado tributarista referencial no Paraná, ex-secretário da Fazenda estadual, poeta bissexto, passa por múltiplos lances da cidade em que seus ancestrais – o bisavô José Hauer sênior e o avô Augusto) – chegaram a Curitiba, fincaram estacas e, possivelmente, proclamaram – “aqui é o lugar”.
2 – OS HAUER
Os dois patriarcas da família Hauer, naturais da Silésia (depois da Segunda Grande Guerra voltou a ser território polonês) fizeram-se brasileiros incondicionais. Aqueles Hauer, base de Geroldo, acabariam não apenas formando uma das mais representativas famílias do Paraná, plasmada pelos tons da imigração europeia. Passaram a identificar o nome com a cidade, especialmente no comércio dos séculos 19 e parte do século 20.
Um exemplo é a Casa dos irmãos Hauer, que por anos funcionou na Travessa José Bonifácio, ao lado da Catedral de Curitiba.
A etnia germânica foi – lembra Hauer, numa rápida rememoração histórica – responsável pelas grandes “ferramenteiras” de Curitiba, assim chamadas as especializadas em ferramentas. Mas que eram, tanto quanto isso, repositórios de peças de cutelaria, cristais e louças de altíssima qualidade, importadas da Europa. Como exemplo, a Casa Crystal, Casa Esmalte, a Glaser e a Casa dos Irmãos Hauer (do avô e um tio-avô de Geroldo).
3 – A GRANDE SOCIEDADE
Vou ampliando o rol de indagações ao tributarista. Ouvindo suas respostas, consolido minha antiga certeza: estou diante de alguém que não apenas domina vários ângulos da vida paranaense; dá prazer embrenhar-me com Geroldo no exame de dias que foram marcos no Estado, por obras de homens que ele justamente aponta como especiais. “São dignos de entrar na História. Ou que já estão na História do Paraná”, como Geroldo assinala.
No caso dos que já estão na História do Paraná, aponta os governadores: Bento Munhoz da Rocha Neto, pela estatura de estadista e paranista ímpar; João Elísio Ferraz de Campos, que embora em governo curto, menos de ano, construiu estradas de ligação para acesso a rodovias do Norte do Estado e no Litoral (Alexandra-Matinhos) – “com Heinz Herwig, muito ativo como secretário dos Transportes”.
Geroldo está preocupado com o que se pretende, com o projeto do metrô. Sua visão é a favor do chamado metrô de superfície. Mais preocupado se mostra com a rapidez com as quais vão desaparecendo marcas da Curitiba em que se criou e viveu a vida toda.
4 – IDENTIDADE
Perdemos, acredita, não apenas o sotaque curitibano, mas também qualidade de vida, e uma identidade que não é incompatível com cidades grandes, a exemplo de Munique e, particularmente, Hamburgo, assinala.
Ele tem a consciência – “como costuma dizer Jaime Lerner” – que “Curitiba não é uma cidade criada por relojoeiros suíços”. Mas Geroldo advoga que sejam salvas algumas de suas principais características. Uma delas, a mais saliente e necessária, aquela alma que seus bisavô e avô alemães encontraram e ajudaram a consolidar-se, com contribuição de culturas de além-mar, sinalizadoras, dentre outras relíquias, do nosso “leite quente”.
