terça-feira, 14 abril, 2026
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Formato Berliner não é nenhuma novidade

Hélio de Freitas Puglielli
Hélio de Freitas Puglielli

Nos meios jornalísticos, na universidade, entre empresários, publicitários, e leitores em geral, as observações da semana que passou giraram em torno da grande novidade implantada na Gazeta do Povo, em primeiro de dezembro: o jornal passou a ser impresso em formato Berliner.

O formato Berliner não é novidade no Brasil, a própria Tribuna do Paraná (que pertence ao grupo Gazeta do Povo), nos últimos anos já havia adotado o Berliner, formato que identifica a maioria dos jornais da Argentina, e consolidado há anos no Rio Grande do Sul.

A novidade, pois, é o Berliner na Gazeta do Povo.

A coluna ouviu o jornalista Hélio de Freitas Puglielli, sobre o assunto. O veterano jornalista profissional, que em antiguidade só perde para o decano Luiz Geraldo Mazza (sem contar profissionais do sexo feminino, como Rosy de Sá Cardoso) confessa não ter um posicionamento a respeito da mudança efetuada pela “Gazeta”. Mas lembra, principalmente aos jornalistas mais jovens, que não se trata de nenhum avanço ou conquista “moderna”. E fez – como se lerá a seguir – um amplo apanhado de parte do histórico da imprensa curitibana.

NO TEMPO DO CHUMBO

Mussa José Assis
Mussa José Assis

Com certa nostalgia, recorda os tempos em que a impressão de jornais, livros e revistas era feita com matrizes de chumbo. E destaca que sempre foi possível adotar formatos não exatamente iguais ao “Berliner”, mas bastante aproximados. Diz não falar em tese, pois a impressora do jornal cuja redação integrou por quase 30 anos – “O Estado do Paraná” – podia imprimir jornais em vários formatos, revistas e até livros.

A VERSÁTIL M.A.N.

Hélio diz à coluna que ao ingressar no agora extinto jornal matutino, a rotativa de marca M.A.N., alemã, estava funcionando há pouco mais de um ano, tendo substituído máquina mais antiga. A nova impressora era muito mais moderna que as que eram então usadas pelos jornais da época, como a própria “Gazeta”, “O Dia” (que deixou de circular em 1960) e mesmo o “Diário do Paraná”, que começara a ser publicado poucos anos antes.

O DILEMA DOS IMPRESSORES

O dilema – diz Hélio – era fazer com que a máquina funcionasse bem. Embora fosse do mesmo modelo e tivesse as mesmas características da usada pelo jornal “O Estado de S.Paulo”, à época o órgão líder da imprensa brasileira, a M.A.N. daqui não produzia exemplares de alta qualidade gráfica e praticamente impecáveis, como os do tradicional quotidiano paulista. O problema estava nos gráficos que operavam de forma bisonha a rotativa, ainda que tivessem sido treinados por um técnico da própria fábrica.

O “MILAGRE DO MUSSA”

Hélio rememora que houve uma espécie de “milagre” quando o falecido jornalista Mussa José Assis assumiu a direção de redação de “O Estado do Paraná”. “Mussa resolveu tratar pessoalmente do assunto e passava horas nas oficinas. Observou que os linotipistas usavam sempre as mesmas matrizes, por preguiça de efetuar a substituição. Mussa chamou às falas os linotipistas e, trocadas as matrizes de composição, as matrizes de impressão tornaram-se quase perfeitas, sendo meio caminho andado para um bom resultado final” – observa Hélio.

A BOA REGULAGEM

“O segundo passo – prossegue – foi regular adequadamente a rotativa, coisa que os impressores não conseguiam fazer, mas que Mussa conseguiu, arregaçando as mangas e fazendo pessoalmente a regulagem. Desde então, a impressão do jornal curitibano passou a ser equiparável, em qualidade, à do “Estadão”. A ironia é que, poucos anos depois, tudo mudou com a aquisição de nova rotativa, no novo sistema que se generalizava nas oficinas de jornais: o “offset”, que dispensava as pesadas “telhas” de chumbo, usando matrizes de alumínio de fina espessura, permitindo máquinas mais compactas e menores, além de mais rápidas e eficientes”.

E O NOVO FORMATO?

Voltando à questão do formato “Berliner”, depois de sua digressão histórica, menciona o veterano jornalista que esse formato não constitui novidade na imprensa paranaense, pois assim foi editado o jornal “O Estado do Paraná”, poucos anos antes de deixar de circular. Por isso mesmo Hélio se abstém de opinar se o novo formato constitui mesmo um passo avante dado pela “Gazeta”. “É verdade que, mundo afora, muitos jornais circulam há anos com esse formato. Mas aqui no Brasil, entre os jornais da chamada “grande imprensa”, somente a “Zero Hora” circula com um formato parecido.

Vamos ver agora se o “Berliner” vai dar sorte ou azar à “Gazeta”, finaliza Hélio.

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