sexta-feira, 20 março, 2026
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Florestas plantadas: a base sustentável da madeira

Negócios & Gente por Aline Cambuy – No debate ambiental, poucos temas carregam tantos ruídos quanto o uso da madeira. Às vésperas do Dia Internacional das Florestas, celebrado em 21 de março, os dados mais recentes ajudam a reposicionar uma discussão que ainda carrega ruídos: o uso da madeira no Brasil.

Hoje, cerca de 94% da madeira utilizada para fins industriais no Brasil tem origem em florestas plantadas. Na prática, isso significa que a base produtiva do setor não está mais apoiada na exploração de matas nativas, mas em um modelo de cultivo planejado, com ciclos contínuos de plantio e colheita.

O dado ganha ainda mais relevância diante de uma demanda global crescente. Estimativas da Embrapa Florestas indicam que o consumo mundial de madeira, atualmente na casa de 1,6 bilhão de metros cúbicos por ano, pode dobrar até 2050. É um cenário que pressiona cadeias produtivas e coloca a origem da matéria-prima no centro das decisões estratégicas.

Nesse contexto, a silvicultura comercial deixa de ser apenas uma atividade do agronegócio para assumir um papel estrutural na economia e na agenda ambiental. Além de atender à demanda por insumos presentes no dia a dia, que vai de embalagens e móveis a componentes farmacêuticos, o setor tem avançado na construção de um modelo que combina produtividade e conservação.

Um dos pontos mais relevantes dessa equação está no uso do território. As florestas plantadas ocupam apenas 1,47% da área do país, mas sustentam praticamente toda a produção industrial de madeira. Ao mesmo tempo, a legislação brasileira exige a manutenção de áreas de preservação, o que cria uma dinâmica de equilíbrio dentro das propriedades rurais.

Esse movimento também ajuda a desconstruir uma percepção ainda recorrente. “Os dados derrubam um mito persistente de que as florestas plantadas prejudicam as florestas naturais. A verdade é que, historicamente, o cultivo de pinus e eucalipto se consolidou principalmente sobre áreas anteriormente degradadas e que, por condições de relevo, foram preteridas por outras culturas”, afirma Ailson Loper, diretor executivo da APRE Florestas e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Na prática, o setor também passou a incorporar a conservação como parte do próprio modelo de negócio. Dados da Indústria Brasileira de Árvores (Ibá) mostram que, para cada hectare de floresta plantada, há em média 0,7 hectare de vegetação nativa conservada pelas empresas. Em estados como o Paraná, essa proporção pode ser ainda maior, chegando a uma relação próxima de um para um.

Mais do que uma exigência legal, esse movimento reflete uma mudança de posicionamento. A sustentabilidade deixou de ser um discurso periférico para se tornar ativo estratégico, seja na atração de investimentos, seja na inserção em mercados internacionais cada vez mais exigentes.

Além do impacto ambiental, a cadeia de florestas plantadas também movimenta a economia. São cerca de 2,6 milhões de empregos diretos e indiretos no país, com forte presença em regiões fora dos grandes centros e papel relevante no desenvolvimento local.

O que se observa, portanto, é uma transição importante: a madeira, historicamente associada à ideia de desmatamento, passa a ser reposicionada como recurso renovável dentro de um sistema produtivo estruturado.

Isso não elimina os desafios, especialmente no que diz respeito à fiscalização e à garantia de boas práticas em toda a cadeia. Mas os dados indicam que o caminho mais consistente para atender à demanda global sem ampliar a pressão sobre florestas nativas já está em curso.

E, ao que tudo indica, deve ganhar ainda mais espaço nos próximos anos.

Se você conhece uma história inspiradora de gente ou de uma empresa que mereça ser contada, ou se tem uma sugestão de tema que gostaria de ver por aqui, escreva para negociosegente@gmail.com. Vai ser um prazer te ouvir!

*Aline Cambuy é jornalista com mais de 20 anos de experiência e atua na área da comunicação empresarial. Estudante de Psicologia, une seu olhar crítico e humano para construir narrativas que conectam pessoas e negócios.

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