
Em entrevista ao “Canal Livre” da Band, no domingo (21), o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso abusou da serenidade. Para espanto dos jornalistas, incorporou o antídoto à efervescência política que provoca ebulições em Brasília, na mídia, nos meios acadêmicos e transborda em revanchismo e intolerância bocó nas redes sociais.
Fala-se pouco em FHC quando se trata de especular nomes para substituir Michel Temer.
A propósito de FHC: seu ex-ministro Euclides Scalco, disse a “Encontros do Araguaia”, que o ex-presidente tucano é um líder. Mas não um estadista. Difícil mensurar.
Sem dúvida é um pacificador.
APENAS UMA METÁFORA
Há um ano, quando Temer assumiu o governo, disse que o peemedebista estava atravessando “uma pinguela” e que era necessário ajudá-lo. Foi mal interpretado. A pinguela era uma metáfora da situação do país.
Ele não crê e nem descrê dos não políticos. Diz que Collor era um outsider e não vê restrições a nomes como João Doria ou Luciano Huck, de quem, aliás, é amigo.
NÃO REPRESENTADOS
O que é preciso agora? Olhar para frente. Há 210 milhões de habitantes no Brasil. Boa parte deles com necessidades prementes. Ninguém será presidente se não pensar nisso.
E parece ecoar Sir Winston Churchill que afirmou que a democracia é o pior regime político, com exceção de todos os outros. FHC diz que o problema não é a democracia representativa, é a pouca representatividade dos partidos. Os eleitores não os veem como canais de comunicação.
HÁ TRIGO NO JOIO
Seria um otimista tolo se generalizasse, mas não o faz. Concorda que há trigo e há joio na política, mas essa é uma visão esperançosa.
A crise política no país o faz ser indagado diuturnamente sobre a promoção de um “diálogo nacional”. Ele concorda, mas desde que público e baseado em uma agenda.
VOTO FACULTATIVO
FHC é um observador privilegiado. Ele preza a credibilidade de um mandatário e minimiza a importância da popularidade; defende a candidatura independente e diz que já passou da hora de colocar na pauta o voto facultativo.
O que FHC acha da Operação Lava-Jato? Aprova, porém critica o aspecto messiânico de alguns integrantes do Ministério Público Federal. Neste ano, foi chamado como testemunha de defesa em caso envolvendo o Instituto Lula. Foi criticado, mas deu pouca importância. Na audiência, disse o que pensava. Ponto.
Sim, ele ouviu falar da manifestação de grupos que defendem a intervenção militar e reagiu com parcimônia. “Nossa cultura é democrática”, diz.
NO FIM DA FILA
Durante o programa, diverte os entrevistadores, entre eles Fernando Mitre, diretor de jornalismo da Band, e Ricardo Boechat. Conta que entrou em uma fila de banco e imediatamente um funcionário o reconheceu.
Convidou-o a passar à frente. Recusou. Não na condição de ex-presidente.
Acabou convencido, mas por outra razão: “Sou velho”.
Ao fim, deixou frase lapidar sobre as novas gerações: “Elas têm o computador na alma, eu tenho no bolso”.
