
Por Aroldo Murá G.Haygert
À parte observações irretorquíveis do teólogo e jornalista Franco Iacomini constantes de seu e.book (Gazeta do Povo) “Evangélicos no Brasil”, observo que o trabalho, no entanto, deixa de abordar realidades que estão na própria essência do crescimento pentecostal no Brasil; ou da chamada “opção brasileira pelos evangélicos”. Até por isso, passo à minha contribuição e visão pessoais sobre o assunto, procurando ampliar o olhar do jornalista Iacomini, pertencente ao ramo das igrejas batistas (no caso, originários da Junta de Richmond, EUA, e vinculados à Convenção Batista Brasileira). Há diversos outros ramos de batistas no Brasil.
Acredito que Franco tenha sacramentado essa omissão diante de limitado espaço/tempo de que dispôs. No entanto, esse faltoso aprofundamento elimina o básico para se entender como, de fato, se opera a fácil passagem do catolicismo à brasileira para o pentecostalismo nativo.
O pentecostalismo é ideário de fé religiosa gerado a partir das experiências religiosas de Azuza Street, Los Angeles, no começo do século 20, chegado ao Brasil via Belém. Seu pai é Seymour, que começou o movimento anos antes, em Arkansas.
Depois de desembarcar no Paraná, lá pelos 1911, o pentecostalismo em seguida chegou a a Santo Antonio da Platina, PR. Curas, línguas estranhas e manifestações espirituais diversas – como as chamadas profecias – atribuídas ao Espírito Santo, definem o movimento. Assim como a expressão de chamados dons outros, como o do Discernimento dos Espíritos, são marcas pentecostais.

PORQUE NO PARANÁ
O curioso , e para surpresa até de muitos estudiosos do fenômeno religioso, é que, quase ao mesmo tempo de Belém, o pentecostalismo implantou-se no país na pequena Santo Antonio da Platina, PR. Isso também no alvorecer do século passado. Lá Francisconi fundaria a Congregação Cristã do Brasil, uma denominação toda atípica do universo pentecostal, conhecida pela recusa à política, a ausência de literatura e a concentração na formação de músicos para a adoração, e sem possuir um clero regular.
Não levanto aqui teses renovadoras. Sou um profissional da comunicação, com alguns anos de magistério, ao mesmo tempo dedicado ao estudo de certos ângulos do fenômeno religioso. Para tanto, estudei Eliade, Durkheim, Francisco Cartaxo Rolim, Regina Novaes, Mendonça, Rubens Alves, Isaura de Queiroz, Mariano, Beatriz Muniz Souza, Cox, Collins… São alguns dos autores em que me amparo para estas análises jornalísticas. Há ainda vários outros, como Ellen G.White, Mary Baker Andersen, da Ciência Cristã, e, até, Joseph Smith e Brigham Young, que não foram evangélicos, mas fundadores do Mormonismo.
Na verdade, adiciono a esse mergulho em textos básicos para entender o fenômeno, pesquisas de campo em torno do mundo das igrejas e seitas cristãs (um gradiente não bem definido ainda pelos sociólogos da religião). Parte desse mergulho foi feito em Spencer e Rochester, Estados Unidos, Chile e Oka, Canadá. As andanças no Brasil continuam nessas pesquisas de antropólogo “amador”.
Em Oka, no Canadá, perto de Montreal, mergulhei no exame de experiências monásticas dos trapistas locais para a criação da primeira escola de agronomia do Canadá no final do século 19. Episódio fascinante foi entender os monges Cistercienses da Stricta Observantia e seu enraizamento na vida rural e na formação de agrônomos, na convivência ecumênica com os evangélicos locais.
Volto ao básico do capítulo de hoje: mostrar a direta associação do pentecostalismo brasileiro com o catolicismo popular. Nessas andanças em torno do fenômeno religioso, muito concentrada no pentecostalismo, posso garantir que não foi uma passagem difícil, no Brasil. Isto porque constatei a existência de uma certa “pedagogia oculta” nesse trânsito religioso no país, realidade que hoje deve envolver pelo menos 35 milhões de brasileiros. Ou mais.
ORFANDADE RELIGIOSA
Antes, o leitor não acostumado ao tema, tem de entender que a religião católica, no Brasil, ficou nas mãos dos colonizadores portugueses, do Reino, da Regência e dos Impérios, que lhe garantiam o “estímulo” material por meio do Padroado. Esse era mecanismo antievangélico. Mas dava à Igreja sustento material e a amarrava umbilicalmente ao poder secular.
Se a Igreja apoiava a vida dita espiritual nas fazendas e nas cidades , em troca permitia todo tipo de invasão em seu trabalho ao submeter-se ao Padroado. Tal como até a indicação dos bispos, que só seriam aceitos se tivessem o ”placet” do governo. O Vaticano aceitava a submissão. Uma das exceções foi o nome do regente Feijó, ao qual a Santa Sé disse não. Na verdade, ele era candidato a criar uma igreja nacional, o que, só no final dos 1940, aconteceu com o ex-bispo de Maura (Botucatu), dom Carlos Duarte, criador da Igreja Católioca Apostólica Brasileira, de pouca presença na aceitação popular. Outras igrejas ditas nacionais, minúsculas, foram criadas,m sem abalar a Igreja no Brasil.
Voltando à questão da interferência do braço secular na religião, lembro: no Mosteiro de São Bento, o mais tradicional do país, no Rio, o governo não pouca vezes chegou a interferir, designando ou destituindo abades… ou proibindo a formação de novos monges, medida que, no II Império, atingiu a todas as ordens monásticas.
CATOLICISMO AUTÔNOMO
Tal conveniência danosa, aceita pela Igreja no Brasil, garantiu o transcorrer e a ampliação de um catolicismo basicamente desligado da estrutura eclesial e longe da doutrina ortodoxa, alheio, por exemplo, a grandes mudanças como as ditadas pelo Concílio de Trento.
A alavancagem de Trento, em resposta (?) à Reforma, passou em branco no Brasil dos rincões e da religiosidade popular. Era assunto, claro, de meios clericais e raras lideranças leigas de uma elite católica.
O catolicismo no Brasil viveu e cresceu, pois, distante, na maioria das vezes, da doutrina tradicional. Fez uma ampla mistura do catolicismo ibérico com sincretismos e magis diversas. Consequência foi um raquitismo de fé, resultado que hoje sabemos avaliar. Isso tudo gerando inúmeros desdobramentos danosos às instituição Igreja e ao processo de evangelização.
A santa madre oficial, na verdade, quase só se fazia presente, especialmente nos rincões do país, para a chamada “desobriga anual”, quando os fiéis recebiam os sacramentos, e se faziam casamentos e batizados. Explique-se: o Brasil, até o início dos 1950, século 20, quando ocorre o início da urbanização , era fundamentalmente rural.
UMA GRANDE FAZENDA…
Diante desse distanciamento do catolicismo oficial, sem acesso a documentos eclesiais, orientações religiosas e a uma “manutenção doutrinária” (esta apenas esboçada brevemente no período de catequese para a Primeira Comunhão), o católico brasileiro foi ficando mais ou menos à sua própria sorte e gerência. E entregue, ao mesmo tempo, às mais variadas expressões de uma religiosidade mais ou menos sincrético, apaixonadamente voltado à figura dos santos (os heróis da fé), com pouca missa, muita reza, muita festa e procissões. É o que se pode classificar de “catolicismo à brasileira”, ainda visível e expressivo em certas regiões.
E anote-se: a figura de leigos oficialmente atuando como ministros extraordinários nas paróquias, só surgiu com o Concílio Vaticano II, no final dos anos 1960. Mas foi graças a eles que a Igreja alimentou laços – ainda tênues – com essa multidão Católicos autônomos.

Aqui cabe um olhar muito especial: a Teologia da Libertação (TL), acusada de ter inspiração marxista, nascida com Gutierrez, Boff – e que no Paraná teve um nome importante, um pastor luterano, Gernote Kirinus, que vive em Curitiba – tentou muito se aproximar das chamadas “classes oprimidas”. A CEBs, comunidades eclesiais de base, se faziam discurso político, também promoviam alimentação da fé segundo a expressão da hierarquia.

RAQUÍTICOS NA FÉ
Enfim, o catolicismo no Brasil desenvolveu-se numa comunidade raquítica em doutrina, como regra. O comando dessas práticas católicas no interior distante e abandonado ficava por conta dos chamados zeladores das capelas ou dos “puxadores” do terço, líderes que acabavam ordenando as grandes festas e mantendo o “controle dos santos”.
Isso significava igualmente a centralização de cultos religiosos em capelas dedicadas a algumas devoções. Os proprietários das capelas eram, então, vistos, como “donos dos santos”, e tinham o real ‘poder eclesiástico’.
Por questão de verdade, é importante dizer que nas colônias de imigrantes alemães, italianos, poloneses (mais tarde, também ucranianos), no Sul do Brasil, as comunidades se estabeleceram a partir de 1860 sob a forte presença da hierarquia representada por sacerdotes de congregações missionárias e irmãs de congregações. Nos estados de São Paulo e Espírito Santo, este com forte presença de alemães e italianos, deu-se o mesmo: a Igreja institucional estava mais presente, pois com os imigrantes vieram “guardiães” da fé, padres e freiras.
COMEÇA A ROMANIZAÇÃO
Mas a verdade é que apenas no final da primeira metade do século 19, com a chamada Romanização da Igreja no Brasil, gerada para evitar a montagem de uma igreja nacional – o Galicanismo Religioso – , sonho do regente Feijó, é que as coisas começariam a mudar.

Mudariam com o fortalecimento do aparelho eclesiástico, as novas dioceses e arquidioceses passando a ter domínio de fato e de direito sobre centros de culto e começando a espalhar por todo o país a presença de congregações religiosas ou institutos de vidas consagradas que se voltaram à educação, à saúde e a assistência social.
Com a romanização vieram também as novas devoções, assunto para outra abordagem futura. E o país todo foi campo fértil de novas congregações católicas, como os Vicentinos, Lazaristas/ e Filhas da Caridade; Salesianos e Irmãs de Nossa Senhora Auxiliadora; padres e irmãs Scalabrinianas, os Capuchiunhos…
Ao mesmo tempo, nos primeiros anos do século 19, ressalte-se, igrejas protestantes – como a Anglicana, Metodista e Presbiteriana, entre outras – amparavam-se no apoio de uma elite cultural nacional e começavam a ter vida às claras no país. No entanto, é certo reconhecer que essas igrejas históricas ficaram fundamentalmente com uma classe média esclarecida, jamais alcançando repercussão nas classes populares. Essa conquista, do chamado povão foi mesmo dos pentecostais da Asssembléia de Deus (em suas muitas igrejas autônomas e/ou convenções) e da Congregação Cristã.
IMIGRANTES VÃO CHEGANDO
Assim, não erro ao lembrar que milhares de missionários europeus, até americanos, e mais tarde canadenses, de fato “refundaram” a Igreja Católica Apostólica Romana no Brasil. Isso, claro, sem menosprezar o trabalho iniciado por frei Henrique de Coimbra e o longo e insuperável labor evangelístico e civilizatório dos jesuítas, salvatorianos, dos mercedários, dos dominicanos. Eles foram autores de ações louváveis, embora de limitado alcance diante da realidade territorial e das necessidades brasileiras.
A chamada Romanização tratou de, em primeiro lugar, controlar e tomar conta (por posse e por direito) dos lugares de culto. Mesmo que, na maioria dos casos, decretando, ipso facto, o início do declínio de muitas manifestações religiosas populares. A começar, por exemplo, com a introdução de “novos” santos e novas devoções ao calendário religioso dos fiéis, que passariam a valorizar expressões de fé com os nomes N.S.de Lourdes, Sagrado Coração, Medalha Milagrosa, N.S das Graças, São Vicente de Paulo, etc.
NOVAS DEVOÇÕES E SANTOS
Com as novas invocações ao estilo romano – ou europeu não português -, foram gradativamente sendo desligados das grandes manifestações populares santos muito próximos ao povo, trazidos pela tradição portuguesa, como Santo Amaro, Santa Bárbara, São Jerônimo… Santo Antonio, São Francisco, São Jorge, indissociáveis da alma da gente do povo, nunca foram abalados pela nova ordem. São muito fortes no imaginário e nas práticas populares.

Claro que essas medidas de romanização não operaram milagres da noite para o dia. No fim, deram resultados surpreendentes, ajudando a formar uma elite intelectual católica de grande ressonância na vida do país. Exemplo claro é Tristão de Athayde .
Inventivas e definitivamente inoculadas por práticas de uma religiosidade popular marcada por forte autonomia, as populações foram apenas lentamente tentando se adaptar à romanização. Ficaram, isso sim, por exemplo, de forma muito definitiva com os grandes pontos de peregrinação que passaram ao total controle da máquina eclesial. Um deles, o Santuário de Bom Jesus da Lapa, na Bahia, e as amplas áreas de controle do grupo de padre Cícero, no Ceará, o sacerdote que, mais tarde, seria banido da Igreja, mas que hoje volta a aceitá-lo, entendendo o tempo histórico em que ele viveu. E como esquecer da presença das massas, aquelas do catolicismo popular, no Santuário de Aparecida, por anos administrado por redentoristas alemães?
CURAS E POSSESSÕES
Na alma simples do católico praticante de uma religião muito autônoma no interior difícil do país continente, os fieis sempre foram íntimos de relações com o sobrenatural. Elas se manifestavam em ações de curas, de benzimentos para expulsão de males e de diabos, ou de “mau olhado”. Nada de observância de calendários litúrgicos, no máximo o Natal e a Semana Santa.
As práticas do povo se fortaleciam nas rezas, promessas e oferendas visando quase sempre benesses materiais. Sem falar nas penitências, sublinhadas pelo terço, por vezes cantado e acompanhado por violas. Isso sem esquecer as impressionantes manifestações do sagrado nas festas do Divino, nas congadas, nas procissões do fogaréu, nas celebrações da Semana Santa, nos cultos de comovente pieguice, como o do Negrinho do Pastoreio, no Rio Grande do Sul.
Essa familiaridade com o misterioso, com os temas da morte, com o sagrado, marcada sobretudo por uma liberdade religiosa, longe das limitações eclesiásticas, sempre esteve na alma boa e simples do povo. Sua fé foi pouco apegada ao Cristo Salvador, mais ao Cristo morto; mas umbilicalmente unido à Mãe Maria e a uma coorte de santos.
Afora os santos, afora Maria Virgem, todo o resto do brasileiro da religiosidade popular sempre teve muito a ver com o espírito do pentecostalismo que lhe seria ofertado, depois, nas periferias das grandes cidades.
TUDO ESTAVA PRONTO
Nas periferias, o ex-católico popular poderia colocar sua alma musical também a serviço de orquestras e cânticos que o ajudariam a “descobrir o verdadeiro Jesus”, como me garante OYG, pastor da Igreja Holiness, ramo do metodismo que acolhe descendentes de japoneses evangélicos no Brasil.
Quem desconhece, pergunto, a importância da Congregação Cristã do Brasil na formação musical de novas gerações de músicos brasileiros, boa parte deles em orquestras de música clássica? Em orquestras sinfônicas de Rio e São Paulo.
Essa abordagem que faço deixa claro que a opção do brasileiro pelas igrejas evangélicas dá-se basicamente em direção ao pentecostalismo e suas centenas e centenas de face. O homem e a mulher do catolicismo popular não fizeram opção pelas igrejas evangélicas históricas (metodistas, batistas, presbiteriana, luteranos, episcopais, congregacionais…). As chamadas “históricas”, hierarquizadas e doutrinariamente definidas por cânones e normas rígidas significam tudo aquilo que o homem rural, ex-devotos de santos, não estava disposto a aceitar.
Não preciso insistir, mas é bom lembrar: os evangélicos pentecostais pescam muito além de ‘peixes em aquários’, ao agasalhar, de braços abertos, um povo historicamente preparado pela encarnar e assumir dons de cura, de profecia, de sabedoria, de discernimento que os discípulos do Pastor Seymour, de Azuzza Street descobriram . E que hoje consolidam-se como a mais impressionante manifestação de fé cristã, numericamente, depois do catolicismo
(CONTINUARÁ)
