quarta-feira, 7 janeiro, 2026
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EUA na Venezuela: poder, petróleo e controle

José Benedito Caparros Junior* – Na madrugada do último sábado, os Estados Unidos lançaram uma operação militar sem precedentes na Venezuela, com ataques que provocaram explosões em Caracas e em outras cidades do país, culminando na captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa. O episódio marca uma inflexão profunda na política externa norte-americana para a América Latina e recoloca na agenda regional uma lógica que muitos acreditavam superada.

Em pronunciamento realizado no mesmo dia, direto de sua residência, o presidente Donald Trump justificou a ação militar como parte de uma suposta luta contra o narcoterrorismo e o tráfico internacional de drogas, que, segundo ele, afetariam diretamente a saúde e a segurança pública em solo estadunidense. No mesmo discurso, Trump afirmou ainda agir em nome da paz, da democracia e da segurança do povo venezuelano, evocando uma retórica humanitária frequentemente utilizada para legitimar intervenções externas.

É inegável que o governo Maduro sustenta uma democracia frágil, esvaziada e essencialmente formal, marcada por questionamentos recorrentes quanto à transparência e à legitimidade de seus processos políticos. As últimas eleições presidenciais foram amplamente contestadas, com denúncias de práticas institucionais destinadas a restringir o exercício do voto livre por parcelas significativas da população. Soma-se a isso o fato de que cerca de oito milhões de venezuelanos vivem hoje em situação de exílio, sobretudo em países vizinhos, o que evidencia a profundidade da crise política, econômica e social enfrentada pelo país.

Contudo, o discurso de Trump não se limitou a esse diagnóstico. Três pontos específicos chamaram atenção e acenderam sinais de alerta. O primeiro foi a menção direta ao petróleo venezuelano, tratado como ativo estratégico. O segundo, a referência à necessidade de administração externa da Venezuela, sugerindo uma tutela política temporária. O terceiro, a alegação de que María Corina Machado, vencedora do Nobel da Paz, não seria uma liderança por não ser respeitada na cena política venezuelana, argumento apresentado como elemento adicional para justificar a permanência norte-americana na condução do país.

Quando analisados em conjunto, esses pontos revelam uma narrativa que vai além da retórica de combate ao narcotráfico ou de defesa da democracia. Eles apontam para uma tentativa de legitimar o controle político e econômico sobre um Estado soberano, utilizando fragilidades internas reais como justificativa para uma intervenção de amplo alcance.

O posicionamento de Trump e de sua equipe foi claro em diversos momentos do pronunciamento: “não se mexe com os Estados Unidos”, ainda que sem direcionar explicitamente a quem essa advertência se destinava. Apesar disso, o efeito colateral imediato é evidente. A ação coloca em xeque os projetos de integração latino-americana e levanta a hipótese de uma estratégia deliberada de desagregação regional, com o possível objetivo de manter os países do continente sob a zona de influência norte-americana e afastá-los de parcerias estratégicas com atores como China e Rússia.

Nesse jogo de xadrez geopolítico, o Brasil será inevitavelmente chamado a se posicionar de modo mais ativo. Mais do que notas emitidas em meios de comunicações oficiais, o governo brasileiro deverá refletir cuidadosamente sobre os impactos de curto e médio prazo dessa nova dinâmica, equilibrando princípios de soberania, interesses econômicos, estabilidade regional e relações estratégicas com os Estados Unidos. A forma como o país conduzirá esse posicionamento poderá definir nossa política externa imediata e nosso papel na redefinição do equilíbrio político da América Latina nos próximos anos.

Neste cenário, o mais recomendável é adotar uma abordagem de realismo político. Isso significa reconhecer que o sistema internacional é essencialmente anárquico e que a manutenção do poder e da segurança deve sempre priorizar o interesse nacional. Em outras palavras, parte-se do princípio de que as relações entre Estados são marcadas pela desconfiança, pela instabilidade e por uma cooperação que é sempre limitada pela busca de vantagens próprias.

*José Caparros Junior é Mestre em Educação e Novas Tecnologias e coordenador de cursos de pós-graduação em Relações Internacionais no Centro Universitário Internacional Uninter.

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