quinta-feira, 5 fevereiro, 2026
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Esporte & Destino: O caso e a coragem de Alexa Herse

Por Marilia Mesquita – O esporte, em sua essência, deveria ser um santuário de disciplina, superação e respeito. No entanto, pode ser um terreno fértil para o abuso de poder e a violência sexual. O caso recente envolvendo a lutadora Alexa Herse e o ícone do Jiu-Jitsu André Galvão não é apenas mais uma manchete; é um sintoma doloroso de uma cultura que protege o abusador e silencia a vítima sob a ameaça do ostracismo.

As acusações trazidas a público por Herse, uma jovem de apenas 18 anos, contra Galvão, de 43, desenham um cenário perturbador que vai muito além de um “mal-entendido” nos treinos. O relato da atleta descreve um padrão de comportamento predatório: isolamento da vítima, toques inapropriados, gemidos de cunho sexual e até o ato de lamber a orelha da aluna durante a prática esportiva.

Se os fatos narrados causam repulsa, a resposta institucional alegada pela vítima causa indignação. Ao buscar amparo em Angélica Galvão, esposa de André e liderança da equipe Atos, Alexa relata ter ouvido uma frase que resume a toxicidade das relações de poder no esporte: “Não morda a mão que te alimenta”.

Essa frase é devastadora. Ela sugere que a integridade física e psicológica de uma jovem atleta é um preço “aceitável” a se pagar em troca de treinamento e oportunidades de carreira. Ela transforma o abuso em moeda de troca e impõe a lei do silêncio, sugerindo que denunciar o assédio é um ato de ingratidão, e não de justiça.

A assimetria de poder

O caso ilustra a brutal assimetria de poder existente em academias de alto rendimento. De um lado, temos André Galvão, uma lenda do esporte, líder de uma equipe mundialmente famosa sediada na Califórnia, detentor de influência e recursos. Do outro, uma garota de 18 anos, faixa-roxa, tentando construir seu futuro, muitas vezes longe de casa e dependente da estrutura da equipe para competir.

Quando Galvão se defende chamando as acusações de “rumores falsos” e atribuindo a saída de membros da equipe a “mudanças administrativas e financeiras”, ele utiliza uma tática comum em casos de assédio: desqualificar a narrativa da vítima, reduzindo uma denúncia de violência a uma mera disputa contratual ou vingança pessoal. A ameaça de medidas judiciais serve, muitas vezes, como uma ferramenta final de intimidação para desencorajar outras possíveis vítimas.

A necessidade de mudança

A coragem de Alexa Herse em expor os episódios ocorridos nos últimos seis meses deve servir de alerta. O esporte precisa urgentemente de mecanismos independentes de denúncia e acolhimento. Não podemos aceitar que lideranças femininas, que deveriam ser um porto seguro, atuem como guardiãs do patriarcado e do abuso, aconselhando o silêncio e o fingimento.

Enquanto a comunidade esportiva continuar valorizando medalhas acima da dignidade humana, continuaremos vendo jovens talentos serem triturados por um sistema que lhes diz para “fingir que está tudo certo”. A mão que alimenta não pode ser a mesma que abusa. E se for, ela precisa ser mordida, exposta e parada. A integridade de uma atleta vale mais do que o legado de qualquer campeão.

Impactos reais

Lucas Pinheiro, que compete profissionalmente pela Atos Jiu Jitsu Team, se posicionou publicamente e se afastou da equipe em apoio a Alexa. O atleta revelou que conversou com professores e lideranças da equipe, que confirmaram as acusações, e destacou que a verdade seguirá o caminho legal. “Não posso representar uma bandeira que não reflita meus valores”, declarou, reforçando compromisso com segurança, respeito e responsabilidade no esporte.

Mayara Munhoz, outra atleta que representava a Atos, anunciou seu afastamento através das redes sociais. “Hoje é sem dúvidas um dos dias mais difíceis da minha vida. Tomei a decisão de deixar não apenas o time que represento, mas também o meu trabalho”.

A marca Kingz, uma das principais patrocinadoras de André Galvão, anunciou a suspensão temporária de todas as cotas e repasses destinados ao atleta, professor e líder da equipe Atos Jiu-Jitsu. A decisão permanecerá em vigor enquanto durarem as investigações em curso.

O movimento reforça um novo momento no esporte, onde atletas e marcas passam a adotar postura cautelosa, responsável e alinhada a valores éticos, priorizando transparência e respeito à comunidade.

O assédio existe. Não é “mal-entendido”, não é exagero. 

Como praticante de artes marciais, eu peço. Mulheres, não desistam. Façamos do tatame um lugar seguro para todas nós.  Não se calem!

Pautas e contato: esporteedestino@gmail.com

*Marília Mesquita é jornalista e assessora de imprensa. Entende que a combinação de esporte e viagens oferece uma mundo de oportunidades para experiêncas únicas, nos conectando com a natureza, enquanto exploramos diversas culturas.

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