Por Marilia Mesquita – Sendo descendente de japoneses, uma das perguntas que mais ouvi na vida foi: “Você já foi para o Japão?”. Confesso que, às vezes, essa pergunta me incomodava, pois eu ainda não conhecia o país de origem dos meus avós.
Em 2025, meu irmão, que mora lá há quase 20 anos, me convidou para passar as férias com ele. Fazia mais de um ano que eu não meu irmão, minha cunhada e meus três sobrinhos — a última vez foi quando vieram ao Brasil, em 2023. A saudade já era grande e estar perto deles é fundamental, ainda mais quando os sobrinhos crescem na “velocidade da luz”.
E lá fui eu! Encarei 36 horas de viagem para chegar ao meu destino: de Curitiba para São Paulo, depois Istambul e, finalmente, Tóquio. No caminho, trocas de roupa; a temperatura só caía, o que é um desafio para mim, uma apaixonada pelo verão.
Meu irmão, John, mora em Ota, uma cidade no estado de Gunma, a duas horas de Tóquio. Logo no início, o que me chamou a atenção foi a limpeza. Apesar de ser curitibana e estar acostumada com a organização urbana, o Japão me surpreendeu. Não se vê lixo no chão e não existem garis como aqui; eles simplesmente não precisam dessa mão de obra. Os japoneses guardam o lixo nos bolsos ou bolsas e o descartam em casa, já que quase não há lixeiras nas ruas. Fumar em público também é proibido, exceto em espaços apropriados, e quem descumpre a regra é multado.
A educação dos japoneses é surpreendente: cumprimentam-te ao entrar e sair dos estabelecimentos e agradecem mesmo que você não compre nada, convidando-o a voltar. As escadas são divididas entre subida e descida (não tem sinalização, simplesmente funciona assim). Nas escadas rolantes, o costume é manter-se à esquerda, liberando a direita para quem tem pressa. Os metrôs são extremamente pontuais e a regra é clara: só entramos após todos saírem. E o silêncio lá dentro? Cada um com seu fone ou livro e, quando precisam falar, o tom é tão baixo que mal se percebe.

A culinária
Desde que minha Obachan (avó) faleceu, muitos pratos deixaram de ser feitos em casa e passaram a existir apenas na minha memória. Confesso que sou exigente e prefiro os pratos tradicionais aos servidos em restaurantes comuns no Brasil. Resultado: engordei 2 kg em 23 dias. Comi muito, e tudo bem! Não é sempre que tenho essa oportunidade.
O preço da alimentação em restaurantes não é caro, sendo muito parecido com o praticado no Brasil. Ao contrário do que muitos imaginam, o que mais vemos nos cardápios é carne de porco. Por outro lado, o preço do arroz está altíssimo até para os padrões locais: um pacote de 10 quilos custa, em média, R$ 220,00. As frutas também são caras e, na minha opinião, não tão saborosas quanto as nossas.
Passeios

De tudo o que conheci, a Disney foi uma das maiores surpresas. A escolha foi do meu sobrinho Victor, que completou 8 anos e optou pelo passeio em família em vez de uma festa. O John consultou o ChatGPT sobre a melhor data e fomos na esperança de aproveitar ao menos dois ou três brinquedos. A IA sugeriu o dia 27 de dezembro, informando que o volume de visitantes seria menor que a média para o período. Acreditamos, acordamos às 5h e viajamos até a Tokyo Disneyland, que não fica tecnicamente dentro da cidade de Tóquio, mas sim na cidade vizinha de Urayasu, na província de Chiba.
Que grata surpresa! O ChatGPT tinha razão. O parque estava com cerca de 1/3 da capacidade; conseguimos ir a oito ou nove atrações, além de não enfrentarmos filas nos banheiros ou praças de alimentação. Conseguimos até a tão sonhada foto com o Mickey! O valor da entrada por adulto foi de 10.900 ienes (R$ 366,90).
Tóquio também foi muito legal, uma cidade que oferece luxo e diversas atrações. Lojas de grifes internacionais e carros que eu jamais tinha visto estavam por toda parte. Atravessei o famoso Cruzamento de Shibuya (Shibuya Crossing), o mais movimentado do mundo. Conhecido como scramble crossing, ele é o símbolo do “caos organizado” japonês. A cada sinal verde, estima-se que até 2.500 pessoas atravessem simultaneamente em todas as direções sem colisões, graças à incrível sincronia dos pedestres.

Visitamos também o teamLab Borderless, um coletivo internacional de arte interdisciplinar formado em Tóquio, em 2001. O grupo é composto por artistas, programadores, engenheiros, animadores de CG, matemáticos e arquitetos que se autodenominam “ultra-tecnologistas”. Pintei uma tartaruga e coloquei o Brasil, temporariamente, na exposição. Já o imponente Monte Fuji, vi apenas de longe, do Umi-hotaru (que significa “pirilampo do mar”), um local único localizado na Tokyo Bay Aqua-Line, que nada mais é que uma das obras de engenharia mais fascinantes do Japão. Trata-se de uma combinação de ponte e túnel que atravessa a Baía de Tóquio, ligando a cidade de Kawasaki (em Kanagawa) a Kisarazu (em Chiba).
Outro lugar bem legal foi China Town, também em Tóquio. Um pedacinho da China no Japão, com muita decoração e luzes, e diversos restaurantes. Confesso que optei por não comer por lá. Nada parecia muito agradável, mas experimentei um bolinho de pata de caranguejo (já comi melhores). O lugar também me surpreendeu, sendo muito interessante e bem maior do que eu imaginava.
Esporte na neve

Praticar snowboarding em Niigata foi uma experiência incrível. Conhecida como “Snow Country”, a região de Yuzawa é um dos destinos de esqui mais acessíveis a partir de Tóquio. A estação estava cheia, repleta de turistas do mundo todo.
Pagamos 6.800 ienes por quatro horas de snow (cerca de R$ 230,00) no Mt. Naeba, que ficava bem em frente ao nosso apartamento. A primeira descida foi lamentável: eu não conseguia parar em pé e levei 20 minutos para descer o que meu irmão fazia em 90 segundos. Foi então que descobri que descer de costas era mais fácil para mim. Treinei em um trecho menos íngreme e o resultado foi: menos quedas e mais velocidade. No segundo dia, já entendia melhor os movimentos e aproveitei muito mais.
Também andamos de snowmobile. É divertidíssimo pilotar pela floresta coberta de neve. O passeio de uma hora custou 15 mil ienes, cerca de R$ 500,00. Cheguei com medo e saí apaixonada pelo snow!
Este é apenas um resumo do resumo da minha viagem. Foram dias incríveis para mergulhar na cultura japonesa e perceber o quanto dela ainda preservamos em nossa família. Tudo se tornou mais especial por ter quem eu amo ao meu lado: John, Cris, Victor, Renan, Lavínia e os novos amigos que fiz.
Quero voltar durante a primavera para ver a florada das cerejeiras (sakuras). Quem sabe, em breve, teremos mais um tema nipônico por aqui!
Pautas e contato: esporteedestino@gmail.com

*Marília Mesquita é jornalista e assessora de imprensa. Entende que a combinação de esporte e viagens oferece uma mundo de oportunidades para experiêncas únicas, nos conectando com a natureza, enquanto exploramos diversas culturas.
