Por Marilia Mesquita – A luta contra a misoginia ganhou um novo capítulo no Brasil com a sanção da Lei 14.802/2024, que incluiu a misoginia no rol de crimes de racismo e injúria racial, intensificando as penas para ataques baseados no ódio ao gênero feminino. No entanto, ao observarmos o universo do esporte, fica claro que a legislação é apenas o primeiro passo de uma maratona muito mais longa.
O esporte, historicamente construído como um “templo da masculinidade“, ainda resiste ferozmente ao protagonismo feminino. A misoginia nos gramados e quadras não se manifesta apenas em agressões físicas; ela sobrevive no comentário depreciativo, na disparidade abissal de investimentos e na objetificação constante.
O peso da realidade
Não precisamos ir longe para encontrar exemplos de como essa violência opera. Casos emblemáticos mostram que nem o talento, nem o sucesso profissional protegem a mulher. Mesmo no topo, o preconceito é um marcador persistente.
A trajetória de Carol Solberg no vôlei de praia nos recorda que o silenciamento é uma face da misoginia, manifestada através de punições e pressões quando a atleta decide usar sua voz. Até mesmo no tênis, a campeã Bia Haddad relatou enfrentar “piadinhas” e um preconceito velado que tenta minar a confiança de mulheres que dominam suas modalidades. Essa estrutura de exclusão começa cedo: a barreira imposta a uma jogadora de apenas 13 anos, impedida de participar de uma equipe mista no Rio de Janeiro em 2022, revela que o sistema tenta nos expulsar do campo antes mesmo de começarmos a sonhar.
Infelizmente, esse desequilíbrio atinge níveis globais de violência, como vimos no caso de Jenni Hermoso em 2023. O beijo forçado que ela sofreu diante do mundo tornou-se o maior símbolo contemporâneo da falta de consentimento e da vulnerabilidade que as mulheres enfrentam, mesmo em seu momento de maior glória.
A lei é o início, não a linha de chegada
A nova legislação é fundamental porque retira esses atos da esfera do “mal-entendido” e os coloca onde devem estar: no Código Penal. No esporte, isso significa que gritos misóginos ou ataques em redes sociais contra atletas e jornalistas agora podem — e devem — resultar em punições severas.
No entanto, a lei diz o que deve ser feito, mas cabe às federações, clubes e patrocinadores a coragem de executá-la. É preciso ir além das notas de repúdio; é necessário o banimento de agressores e a implementação de protocolos de proteção real.
O esporte educa a sociedade. Enquanto permitirmos que as arenas esportivas sejam territórios livres para ofensas de gênero, estaremos validando a desigualdade em todos os outros espaços. A lei finalmente “deu os dentes” ao combate ao preconceito; agora, cabe às instituições a coragem de expulsar, de vez, os agressores do jogo. Se o campo é de todos, as regras de respeito também precisam ser.
Pautas e contato: esporteedestino@gmail.com

*Marília Mesquita é jornalista e assessora de imprensa. Entende que a combinação de esporte e viagens oferece uma mundo de oportunidades para experiêncas únicas, nos conectando com a natureza, enquanto exploramos diversas culturas.
