domingo, 31 agosto, 2025
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Entre no fluxo: aprenda a pensar devagar

Por Eloi Zanetti – Nos últimos tempos, talvez por causa do ritmo alucinado com que estamos levando a vida, têm surgido movimentos que fazem a apologia de se levar uma vida mais devagar. Assim nasceram os slow food, slow arte, slow money e outras dezenas de especificações do gênero. No meio de tudo isso, desponta o “pense devagar” já com alguns livros abordando o assunto e tratado como se fosse a maior novidade. O filósofo romano Sêneca há dois mil anos já dizia: “Nada é ordenado quando feito precipitadamente”.

Por força profissional, sou obrigado a pensar rápido e a maior parte das minhas sugestões a clientes nasce de trabalhos a ritmo de “pra ontem”. A prática me ensinou a gerar ideias a compasso industrial e, garanto, são sempre boas e ótimas soluções. Porém, nos últimos anos, talvez por causa da idade, tenho preferido me deter mais sobre os trabalhos que executo e, aos poucos, estou aprendendo a pensar de forma mais vagarosa. Isso tem me proporcionado um prazer que eu não sentia antes: o de acompanhar com calma o nascimento e o desenvolvimento das ideias. Voltando aos filósofos romanos, estou em ritmo de festina lente, isto é, “apressar-se devagar”. O imperador Augusto, que ficou mais de 50 anos no poder, costumava advertir os seus comandantes mais impetuosos com esta citação, sua preferida.

Aprendi que o trabalho criativo, quando tocado com mais calma e suavidade, produz um gostoso e sereno fluxo de energia e concentração. Desse modo, quase não sinto o tempo passar e a minha produção torna-se mais rica, eficiente e com menos desgaste. Trabalhar com afobação quase sempre significa deixar a obra inacabada. Uma viagem é melhor e menos cansativa quando estabelecemos um ritmo constante, sem pressa.

Esse estado de atenção sem esforço, fruto do pensar devagar, tem merecido atenção de pesquisadores e psicólogos. Eles nos dizem que, ao entrar em tal forma de trabalho, em vez de gastarmos parte da nossa energia tentando nos manter concentrados e livres de distrações, canalizamos esses recursos para a tarefa em si. 

Os atores do Cirque du Soleil têm como regra primordial considerar o tempo do preparo da maquiagem sagrado. Monta-se a base e as pinturas corporais em ritmo lento, com muita calma, com todo o tempo do mundo à disposição. Fazendo assim eles preparam o corpo e o espírito para o que vem em seguida: um show alucinante capaz de arrebatar entusiasmo das plateias.

Há muito tempo entrevistamos para a revista Bamerindus o músico Dorival Caymmi. Ele, que tinha fama de ser preguiçoso, nos disse: “Eu sou é janeleiro, gosto de ficar na janela observando a vida passar. É deste estado de contemplação e introspecção que nascem as minhas composições; levo tudo com muita calma.” Ao analisar suas composições, constatamos que em 70 anos de vida profissional ele só compôs trabalhos excelentes – clássicos como “O que é que a baiana tem”, “João Valentão”, “É doce morrer no mar”, “Eu vou pra Maracangalha”, “O mar”, “Dora”, etc. Ele nunca pensou rápido, sempre muito devagar.

Treinados desde cedo na pressa do fast food, na rapidez da banda larga, nas imagens alucinantes do vídeo-clip, dos jogos eletrônicos e na superficialidade das mensagens da web, estamos nos desacostumando a fazer nossos trabalhos em ritmo mais lento e compassado. Resultado: estresse, doenças, acidentes e trabalhos superficiais.

Longe de querer um mundo dominado pela pasmaceira, pela lassidão e pela preguiça, mas temos de aprender a controlar nosso ritmo de pensamento: quando precisar acelerar, aceleramos; quando precisar puxar o freio de mão, puxamos o freio de mão.

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