
Vale por muitas aulas da maioria de nossas escolas de Comunicação a leitura do livro “Enquanto houver champagne, há esperança”, do jornalista Joaquim Ferreira dos Santos, ex-O Globo.

Não só ensina a boa escrita jornalística, repetindo técnicas básicas implantadas por primeiro pelo o Diário Carioca nos anos 1950/1960 (calcadas da experiência norte-americana); vai adiante em seu objetivo maior: narra, de cátedra, a vida e obra de Zózimo (Bráulio) Barroso do Amaral, personagem quase lendário, e central do livro, em 600 páginas. Promove amplo mergulho num mundo então polarizado por duas cidades – Rio e São Paulo. Uma, a cidade do lazer e atração mundial por encarnar aparente proposta de “dolce far niente”; outra, a cidade trabalho incessante, com um quê de análise à Max Weber.
Os mais jovens devem ler essa superior lição de pesquisa jornalística de Joaquim, anotando toda uma atmosfera de mudanças e novidades que a então Belacap, a partir dos 1950/60 iria plasmar no país.
“CARNETS SOCIAIS”
O universo de interesses que Joaquim Ferreira dos Santos abre com seu livro não é importantíssimo apenas para os candidatos a jornalistas, muitos dos quais hoje muito mais encantados com a possibilidade de aparecer na telinha, e ignorando que essa arte-profissão exige espírito público desabrido e capacidade investigativa; sempre respeitando o direito de sigilo da fonte e a ouvir o contraditório. O livro vai muito adiante: traça como Zózimo não apenas superou, com sua coluna de “potins”, no Jornal do Brasil, seus primeiros exemplos, Ibrahim Sued, Álvaro Americano e Jacinto de Thormes (Maneco Muller).
Mostra Zózimo equilibrando-se entre a narrativa dos repetitivos “carnets” sociais, com as eternas mesmas personagens da cena carioca, até encontrar o ponto de equilíbrio. E que acaba fazendo toda a diferença numa carreira jornalística inovadora. A começar pela linguagem irônica, frequentemente iconoclástica, quase sempre comprometida com a crítica do seu mundo ao derredor; mas, é claro, sem derrubar muros nem inviabilizar contatos com as fontes que, no caso, faziam dele um privilegiado que não tardou a superar “mestres” como Ibrahim.
DANIEL MÁS E MARTINO
Há curiosidades históricas, como a abordagem que Joaquim faz do trabalho de dois outros colunistas da mesma geração de Zózimo, Daniel Más (iconoclasta demolidor de gentes e realidades entronizadas na sociedade) e Telmo Martino, que impressionava pelo alto nível cultural e a inquietude de repórter “full time”.
Ao contrário de Daniel Más, Zózimo nunca levou surras de homens e mulheres por causa de sua coluna. Era, isto sim, uma espécie de lorde da Zona Sul carioca, traumatizado que fora por rigorosa educação católica do tradicional Colégio Santo Ignácio, e suas repressões sexuais.
AS DELÍCIAS DO MOTEL
Alfinetadas de Joaquim Ferreira dos Santos não faltam ao personagem, como quando lembra que Zózimo tinha sempre à mão a carteira “permanente” de alguns motéis cinco estrelas, a cujas delícias tinha acesso. Tudo grátis, incluindo restaurante. Eram tempos – lembra o escritor – em que as questões de ética jornalística não tinham chegado às redações, o que só ocorreria – assegura -, a partir dos 1980.
O “picadinho relations” foi um dos pecados mais frequentes de um jornalismo que, muitas vezes, não passava de primário serviço de Relações Públicas.
BRASIL “FAZENDONA”
Imperdível é o livro. Com ele se entendem melhor facetas de um Brasil daqueles dias, ainda parecendo “uma fazendona”, que apenas via chegarem as montadoras, mas totalmente preenchido por permanentes colunáveis (termo criado por Ibrahim) como Didu e Tereza de Souza Campos; Glorinha Drummond; os Bocaiúva Cunha; os Scarpa; Jorginho Guinle e Dolores Guinle; Carmen e Tony Mayrink Veiga; Beki Klabin; Marcos Tamoio… Era gente que se repetia à exaustão até Zózimo poder, livre de heranças e amarras, fazer um colunismo dito social absolutamente renovador, comprometido em exercitar jornalismo de A a Z.
