quinta-feira, 7 maio, 2026
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Em silêncio, Dalton Trevisan chega aos 92

Dalton Trevisan: pode surpreender
Dalton Trevisan: pode surpreender

O escritor curitibano Dalton Trevisan completa 92 anos na próxima quarta-feira (14), em profundo silêncio. Não se tem notícia de novo livro do contista há pelo menos três anos. “O beijo na nuca”, sua última obra, foi lançado em 2014. Dois anos antes, Dalton conquistara o Prêmio Camões, uma das maiores honrarias para autores da língua portuguesa. O escritor nunca se deixou levar pela reclusão extrema a que J.D. Salinger, um dos prediletos, se impôs. Negava-se a dar entrevistas ou a comparecer a eventos (noites de autógrafo eram impensáveis), mas seguiu publicando seus livros regularmente, quase que um por ano.

NÃO INCOMODEM

Dalton é tão protegido pelo curitibano quanto Salinger o era em Cornish, New Hampshire. Sua casa está ali na esquina da Rua Amintas de Barros com a Ubaldino Amaral, mas ai de quem maculá-la.

Longe de sua fama de taciturno, introspectivo, o escritor sempre foi expansivo e falante com seus amigos. É dado a gracejos e cortejos. E gosta de ajudar. Indicou “Contos de Tchekhov” a um jornalista que o perseguia, mas não lhe deu entrevista. Encaminhou colegas a editores e, quando pôde, pagou o que deviam. Mas ai de quem lhe traiu a confiança. Miguel Sanches Neto, o escritor, foi um deles. A ele, Dalton dedicou um poema venenoso: “Hiena Papuda”. Bem na jugular.

EZRA POUND

Há na história da literatura, filantropos literários com a mesma inclinação. Dentre eles, Ezra Pound talvez seja o mais notório. Ernest Hemingway dizia que ele dedicava quatro quintos do seu tempo a promover a fortuna tanto material quanto artística de seus amigos. “Ele os defende quando são atacados, coloca-os nas revistas e os tira da cadeia. Empresta dinheiro. Vende os quadros deles. Consegue concerto para eles. Escreve artigos a seu respeito. Apresenta os amigos a mulheres ricas. Faz com que editores leiam seus livros. Passa a noite em claro com eles, quando acreditam que vão morrer, e serve de testemunha na hora do testamento. Adianta despesas de hospital e os dissuade de cometer suicídio. E, no final, alguns poucos evitam apunhalá-lo pelas costas na primeira oportunidade.”

ENJAULADO

Simpatizante da Itália e de tudo que dela emanava, inclusive Mussolini, Pound foi preso em 1945 pelas tropas americanas e colocado em uma jaula ao ar livre, em Pisa, como uma besta feroz e raivosa. Acabou sendo declarado insano. Insano porque, entre outras coisas, punha os amigos de talento no seu devido lugar: o mais alto possível.

Miguel Sanches Neto: inimizade; Ezra Pound: execração pública
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