terça-feira, 27 janeiro, 2026
HomeColunas do MuralEloi Zanetti: Gasosa de framboesa aos domingos

Eloi Zanetti: Gasosa de framboesa aos domingos

eloizanetti@gmail.com – Quando eu era um pobre piazito, em determinados domingos costumávamos almoçar na casa dos avós, eles moravam na rua Thomazina esquina com a Colombo no Ahu, nós na rua Simão Bolívar esquina com a 7 de abril; nada longe para os deslocamentos a pé. Para mim tudo era novidade, pois havíamos mudado recentemente de Jacarezinho para Curitiba. Enquanto se preparava o almoço, em um enorme fogão a lenha, o meu trabalho era buscar, duas quadras abaixo, em uma fabriqueta, as bebidas para acompanhar a refeição.

Instalado em um pequeno galpão, um senhorzinho produzia gasosas de diferentes sabores, creio que de limão, abacaxi e framboesa. Antecedendo os modismos atuais, fabricava também cerveja artesanal: se guardadas por algum tempo, explodiam nas prateleiras por causa da fermentação tardia. Geladeira ainda era coisa de gente rica.

Com o dinheiro contado em uma mão e garrafas vazias na outra – a lei do retorno já existia de forma espontânea naqueles tempos -, eu batia palmas e um senhor idoso vinha me atender já se dirigindo para o pequeno alpendre. O curioso era que ele estava sempre de chinelos e com as calças amarradas por um fio de luz; muitos velhos italianos amarravam suas calças com o que encontravam pela frente, meu avô era um deles, no lugar de cinto usava uma corda esfiapada. O galpão estava sempre impregnado por um forte cheiro adocicado oriundo da preparação das bebidas em grandes tinas.

Abelhas atraídas pelo intenso odor esvoaçavam por todos os lados. O senhor pegava uma garrafa colocava embaixo de uma torneira e com o auxílio de um funil fazia o enchimento, em seguida em um aparelho em forma de prensa lacrava com a tampinha. Eu acompanhava fascinado o processo, curtindo aquele insólito ambiente. Memórias desses pequenos momentos vêm nos visitar de tempos em tempos. A gasosa vermelha de framboesa era a preferida da criançada. Doce sabor, doce lembrança.

Criança só tomava refrigerante aos domingos e sempre gasosa, creio que por ser mais barata e doce. “Refri” nos lanches escolares e todos os dias, nem pensar. Com o tempo, outros refrigerantes foram tomando conta do gosto popular, como as gasosas da Cini com suas inesquecíveis Wimi e Gengibirra, a Crush, a Coca-Cola e os guaranás. Os refrigerantes artesanais só ganharam força novamente com a invenção da garrafa pet que pode ser produzida regionalmente em larga escala. Nasceram as tubaínas.

Lembrança igual, só quando lançaram o Ki Suco, aquele, cuja propaganda dizia “valer por um bom mergulho”. A piazada do bairro comprava em copos preparados no Bar do Zezo – rua Almirante Tamandaré esquina com a Simão Bolívar, mas isso já é outra história.

*Eloi Zanetti é escritor, especialista em marketing e comunicação corporativa. Contato: eloizanetti@gmail.com

Leia Também

Leia Também