quarta-feira, 7 janeiro, 2026
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Eloi Zanetti: A volta do Eudocimus ruber

Há muito tempo desaparecidos, o “vermelho glorioso”, ou melhor, o guará-vermelho, começou a voltar em grandes bandos ao nosso litoral. Antes de desaparecer, ocupava uma faixa do litoral brasileiro que ia de Santa Catarina até os manguezais do Norte/Nordeste.

Eram tantos que Guaraqueçaba na língua indígena quer dizer “lugar onde dormem ou pousam os guarás” e Guaratuba “lugar de muitos guarás”.

No início da década de 70, a escassez começou a ser percebida nos manguezais. A caça predatória para aproveitamento das penas em adereços e fantasias, somada à extinção das principais fontes de alimentação que são pequenos caranguejos e crustáceos, esses mesmos, cujas carapaças possuem um pigmento chamado caroteno que dão a cor vermelha brilhante aos guarás, provocaram a migração dos poucos que sobreviveram para outros locais.

Na vizinha Baixada Santista (SP), sumiram principalmente, por causa da redução dos manguezais e da poluição. Porém, segundo biólogos, há algum tempo, foram reintroduzidas 18 aves em Peruíbe, todas capturadas no Maranhão. Descendentes deste bando habitam hoje as nossas baías e manguezais.

No final de década de 90, a Fundação Boticário de Proteção à Natureza patrocinou um projeto visando a sua reintrodução, foram feitas pesquisas de campo e o maior cuidado dos biólogos era saber se os do Nordeste eram da mesma espécie dos que viviam em Guaraqueçaba. Discussões pra cá, discussões pra lá, o projeto acabou terminando sem resultados positivos. Os cuidadosos biólogos não quiseram ouvir a voz da experiência do então conselheiro da Fundação, o Almirante Ibsen de Gusmão Câmara, um dos mais antigos e importantes ambientalistas brasileiros. Ele propôs a fórmula mais simples – capturar alguns exemplares em Cubatão (SP), onde já existiam uns 400 exemplares e soltá-los em Guaraqueçaba.

Como o conselho não foi levado em conta, os guarás trataram de fazer esta jornada sozinhos. As ações de proteção ao meio ambiente encetadas por algumas ONGs, como a SPVS, a própria Fundação Boticário, UFPR e a fiscalização do Ibama no local promoveram a restauração dos manguezais no Paraná facilitando o retorno das aves. Em meados de 2008, pescadores e moradores locais começaram a observar pequenos bandos chafurdando no mangue em busca de alimento. O aumento da espécie foi célere e hoje começam a ser formados grupos de observadores de pássaros acompanhando o sobrevoo nos manguezais.

Guaraqueçaba e Guaratuba começam a fazer jus aos seus nomes originários.

*Eloi Zanetti é escritor, especialista em marketing e comunicação corporativa. Contato: eloizanetti@gmail.com

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