segunda-feira, 6 abril, 2026
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Efigênia Rolim: Rainha do Papel de Bala voou nas Asas do Peixe Voador

Por Dinah Ribas Pinheiro – Quem não conheceu Efigênia Rolim, a Rainha do Papel de Bala, não sabe o que perdeu. Figura franzina interessante, alegre, falante, dançante, a mineira que saiu de Abre Campo (zona da mata), e chegou ao Paraná em 1971, aos 40 anos, com marido e filhos, é uma artista popular de muitas facetas: poeta, estilista, escultora, contadora de histórias.

Sem nunca ter pisado numa escola de arte, seu talento borbulhava em cada dobradura, em cada desenho, em cada poesia, em cada escrito e em cada escultura onde a matéria prima eram os materiais descartados. Ecologista sem saber que era, numa época em que cuidar do planeta ainda não era moda, ela alimentou seu amor pela natureza tanto no reaproveitamento de objetos dispensados como na temática de sua obra.

Animais, pássaros, árvores, flores, mar, céu não podiam faltar nas suas poesias e desenhos. Estava sempre inspirada para fazer um verso. Três semanas antes de fazer a passagem, no leito da enfermaria do Asilo São Vicente de Paula, em Curitiba, lúcida, a repentista recitou para mim:

Sonhei que estava sonhando/ Veja um dos sonhos meus/ Sonhei que estava voando/ Procurando encontrar Deus/ Rezei 7 Ave Marias/ 7 Pai Nossos também/ E os anjos em minha companhia/Todos diziam Amém.

E assim acontecia inúmeras vezes quando lhe vinha uma ideia na cabeça.

A mulher talentosa de 94 anos partiu no último sábado, dia 28 de março, depois de três anos na residência para idosos no bairro do Cabral, na capital paranaense, onde morou e recebeu cuidados médicos para o enfisema pulmonar em estado avançado. Tive a imensa sorte de ter convivido com Efigênia durante 35 anos e tido a oportunidade de escrever um livro sobre ela. A Viagem de Efigênia Rolim nas Asas do Peixe Voador, lançado em dezembro de 2012, com projeto gráfico de Mauricio Morton, me fez mergulhar na sua vida e na sua arte num dos períodos mais ricos e profundos da minha carreira como jornalista. Fui sua acompanhante em diversas viagens ao Rio de Janeiro, Minas Gerais, Ceará e Piracicaba onde fez participações em exposições e encontros de cultura popular.

Alfabetizada pelo Mobral aos 58 anos, tinha a sabedoria dos filósofos e poetas. Com uma lucidez impressionante, até quase a véspera da última viagem, em direção ao infinito, lembrava das pessoas e fatos que marcaram a sua longa existência.

Existiram episódios na sua vida que lhe alegravam a alma. A mais grata lembrança foi seu título de Comendadora, recebido em 2008 pelo Ministério da Cultura, na cerimônia anual realizada pela pasta. A Comenda do Mérito Cultural, mais importante honraria do governo brasileiro, é concedida a artistas de todas as tribos. Além do diploma assinado pelo ministro Gilberto Gil (Governo Lula, 2001 a 2008), o que mais a envaidecia era a medalha que tem o formato da cruz de São Tiago da Espada, esmaltada em branco e perfilada em ouro. No centro da cruz, há um círculo também esmaltado de branco. Dentro dele, encontra-se a imagem de um livro aberto, lavrado em ouro, posicionado sobre uma coroa de louros. A insígnia é suspensa por uma fita de cetim vermelho. Guardada numa caixa forrada de veludo, o tesouro, segundo a portadora era mostrado a poucas pessoas.

Efigenia e Helio Leites. Foto: Wagner Roger

Naquele ano a cerimônia, geralmente realizada em Brasília, aconteceu no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Ao lado da mineira de Matipó estavam no mesmo palco expoentes da cultura nacional de vários segmentos, dentre eles os músicos Paulo Moura, Sérgio Ricardo, Elza Soares, Carlinhos Lira, Edu Lobo, o antropólogo e psicólogo Roberto Crema, os atores Anselmo Duarte, Eva Tudor e Leonardo Vilar, os artistas plásticos Maria Bonomi, Emanuel Araújo, o escritor Milton Hatoum e o cineasta Rui Guerra, dentre outros.

Mais recentemente, um outro fato a deixou alegre, mas devido à doença em estado avançado não lhe causou tanto impacto. Em 2021, o exame do Enem (exame nacional do ensino médio) incluiu no quesito Linguagem e Comunicação uma questão sobre a nossa personagem. Um texto de apoio mostrava aos candidatos o perfil de uma artista nascida em MG, sua iniciação na arte e no aproveitamento de materiais rejeitados. Depois da leitura os alunos precisavam escolher a resposta:

Essa produção artística relaciona-se principalmente com o conceito de:

  • A) industrialização da arte
  • B) Arte erudita tradicional
  • C) reaproveitamento criativo de materiais
  • D) Produção em massa
  • E) minimalismo contemporâneo

Participar no Museu Oscar Niemayer de uma exposição ao lado de Bispo do Rosário e outros destaques da cultura popular brasileira elevou ainda mais sua auto-estima. Em 2005, o curador carioca Ricardo Aquino organizou no MON a exposição Museu Bispo do Rosário + 3. Do Rio de Janeiro vieram Bispo, José Rufino e Raimundo Camilo, companheiros de internamento na Colônia Juliano Moreira. Quando Aquino conheceu Efigênia na feirinha, a convidou imediatamente para participar da Mostra. ”Ela tem tudo a ver com eles” argumentou

A maga da transformação

“Não preciso comprar nada para trabalhar a minha arte. Meu prazer é transformar o lixo em novos objetos dizia. Todo tipo de sucata, nas suas mãos viravam obra-prima que foi parar nos museus, colecionadores, galeristas e admiradores. Os papéis de bala e bombons, em especial, serviam de adorno para vestidos saias e capas que ela criava,tanto para compor suas próprias vestimentas, como para figurinos de grupos de teatro. Aliás, todo papel colorido e brilhante fazia brilhar seus olhos, eles encontravam logo seu destino nas esculturas da artista. Embalagens as mais diversas eram convertidas em bonecas, animais, sapatos e instrumentos musicais. A professora e crítica de arte Maria José Justino, fã de carteirinha de Efigênia, no seu texto para o catálogo da exposição Os Significadores do Insignificante, da qual também foi curadora, que reuniu Efigênia e Helio Leites no Museu de Arte Contemporânea- Museu Oscar Niemayer, em 2024, fala o seguinte:

Efigênia Rolim. Fotos: Divulgação

“Popular? Visionária? Primitiva? Carnavalesca? Acredito que embora seja nutrida por um imaginário popular, a obra dessa artista não se enquadra em gavetas, ainda que mantenha estreita ligação com a arte bruta definida por Jean Dubuffet. ‘É preciso que os doutores façam o grande hara-kiki da inteligência’. Nas performances de Rolim na feirinha do Largo da Ordem de domingo, na cidade de Curitiba, ou nos ambientes onde é convidada para animar debates, festas, palestras, em que a artista se envolve em roupas tecidas de papel de confeitos do qual surgem planejamentos mágicos, ela desfia narrativas fazendo o espectador cúmplice desta festa dionisíaca. Nesta reversibilidade artista-espectador, vivencia-se o estado estético…”

Na Curitiba do comportamento e da arte tradicional, a desenvoltura e a espontaneidade da Rainha do Papel não eram unanimidade. Mesmo assim ela conquistou, sem nenhum esforço, um grande número de seguidores e admiradores. Depois que ela recebeu convites para diversas exposições individuais no Museu Oscar Niemayer, no Palacete dos Leões e em galerias chiques da cidade, seu prestígio subiu de patamar. Ela gostava de declamar os versos que falavam de suas excentricidades e que recebeu o título de Ensaio sobre a Loucura.

“É um Pouquinho de Loucura/ Que está dentro de mim/ Vou mostrar pras criaturas/ que a vida é mesmo assim/ pelas ruas isoladas/ninguém me conhecia/ eu sentava nas calçadas/ e declamava poesia/ eu não tenho muita cultura/ pra seguir esse caminho/ mas nas minhas aventuras eu sei que não estou sozinha/ Eu não sei pra onde vou/ ninguém sabe de onde eu vim/ mas se Deus me convidou/vou ficar até o fim/ nem tudo o que se diz é verdade/ mas pode ser verdade o que diz/a maior felicidade é ser feliz/ felicidade não é avoar alto/ mas ter onde pousar.

As Noivas da Efigênia

O Grupo teatral Pé no Palco, dirigido por Fátima Ortiz, utilizou os figurinos confeccionados por Efigênia no espetáculo Já viu como o Pinguim Anda? Já os componentes do grupo musical Mundaréu, criado por Itaércio Rocha adquiriu os chapéus que fizeram parte do espetáculo Embala Eu, em 2003. Deise Santiago, uma das integrantes, se sentiu tão embelezada com o adereço que resolveu fazer a encomenda do seu vestido de noiva (real) para o casamento. Vasculhei por todos os cantos para ver se encontrava o modelito. Minha curiosidade era ver com meus próprios olhos, essa raridade. Infelizmente Deise já tinha se mudado de Curiitba e não consegui localizá-la. Efigênia me discorreu da seguinte forma a feitura do traje : “Pedi para ela me trazer um vestido branco, básico e eu decorei com flores de filó colorido, borboletas e laços com papel de bala. O véu seguiu a mesma estética. Quando ela entrou na Igreja, chorei de emoção. Nunca imaginei que alguém casaria com um vestido decorado por mim e que ficasse tão lindo”.

Fotos: Wagner Roger

As noivas sempre estiveram presentes no imaginário da artista. Após receber de uma amiga um pára-quedas esquecido no fundo de um armário, ela o transformou numa noiva, sua mais importante obra, uma das últimas que realizou em tamanho natural. Cavalos, girafas, leões, bois, suas esculturas grandes mais cobiçadas pelos admiradores da arte naif foram parar no Museu Oscar Niemayer e em coleção particulares. O médico e colecionador paulista Roberto Avrichtir possui uma centena de obras da artista. Todo esse acervo, junto com outras peças raras garimpadas pelo Brasil afora, se transformou na ONG Brinquedo Vivo, á espera de um reconhecimento oficial. Roberto durante vários dias entrevistou e gravou cenas da Rainha no seu atelier na Vila Autódromo, em Curitiba que será transformado, com certeza, no maior documento sobre visual sobre ela.

O pára-quedas, que deixou de ser o equipamento original de salvação dos pilotos e passageiros aéreos passou por uma total metamorfose. A peça de nylon, medindo 1,60 m de altura com 6m de diâmetro, recebeu um suporte feito pelo filho Clemente e com o auxílio da filha Terezinha e mais dez auxiliares ganhou um tratamento vip. Ao repetir a mesma metodologia de seus trabalhos, Efigênia comandou o pequeno exército de colaboradoras na inserção de centenas de flores coloridas feitas com papel de bala. A cabeça teve como arcabouço uma bola de futebol sem serventia que recebeu uma cobertura de EVA (eveá). A escultora não fez uma noiva idealizada semelhante às que se encontram nas capas das revistas. “Dei ao seu rosto um tom amorenado, com olhos expressivos. Era uma mulher do povo que vivia o dia mais importante da sua vida” relatou. Esta obra exposta pela última vez na exposição do MON em 2024, foi adquirida por um mecenas curitibano que prefere se manter no anonimato.

Além do livro que une biografia e catálogo, escrito por mim em 2012, a jornalista Adélia Maria Lopes, a pedido da personagem, registrou seus versos e pequenas história em Contos da Fada Efigênia, de 2019. Muitos autores nacionais incluíram a artista em suas coletâneas. Em nome do autor: artistas e artesãos do Brasil, edição bilíngüe, dos pesquisadores paulistas Beth e Walfrido Lima, conta com com 454 páginas. São 400 nomes de todos os estados brasileiros. A página dedicada à Efigênia, ricamente ilustrada recebeu seis imagens de bonecos. Animais e trajes. Curitibocas: diálogos urbanos, de João Varela e Cecília Arbolave, reuniu personagens icônicos da capital paranaense como a vendedora de bilhetes de loteria, Borboleta 13, o compositor Ademir Plá, o multi-artista Helio Leites e outras figuras populares, não podia faltar a Rainha do Papel. Caminhos do Imaginário Popular, organizado pela galeria Noris Espaço de Arte, selecionou Efigênia para apresentar seus figurinos. O ilustrador carioca Cesar Lobo, fez desenhos estilizados de pontos conhecidos de Curiitiba dentro do projeto gráfico Cidades Ilustradas. No seu garimpo por locais significativos selecionou o Museu Oscar Niemayer, praças e parques. Na Feirinha do Largo da Ordem ele escolheu Efigênia no seu habitat preferido naquela época.

A primeira vez que Efigênia se viu na tela foi no documentário Rainha do Papel, de Estevan Silveira e Tiomkim. Na ocasião, o jornalista José Carlos Fernandes, da então Gazeta do Povo escreveu que “o vídeo traz a própria biografada como narradora num depoimento tocante. Intenso, extenso e cheio de graça. Ela também canta à capela acompanhada de Kátia Horn. São três canções, duas de sua autoria e outra de Helio Leites e Carlos Careqa. Só mesmo Efigênia poderia proclamar sem pieguismo certos episódios do seu diário de bordo, dando-lhes a medida certa do drama e do humor da prosa e do verso, da dança e da música”.

Sérgio Mercúrio, titereteiro argentino realizou em 2005, O Filme da Rainha ou La Pelicula de La Reina, que participou do Encontro Hispano-Americano de Cine e Vídeo Documental Independente do México e recebeu o prêmio internacional Mulher e Trabalho dividido com a mexicana Adriana Estrada, autora de Terra de Mulheres. No mesmo ano, o filme recebeu o troféu de Melhor Documentário Estrangeiro na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, um dos eventos mais importantes do gênero no Brasil. Muitos outros registros foram feitos sobre ela, gravados pelas TVs brasileiras ou, de forma particular, por interessados na originalidade do seu trabalho e das suas performances.

Muito embora a biografia de Efigênia Rolim esteja recheada de sacrifícios e privações, não falta o termo superação. No início de sua vida em Curitiba, até se tornar artista reconhecida, passou por momentos difíceis. A morte do marido Francisco, o esforço para sustentar os filhos. A pouca escolaridade para conseguir trabalho qualificado a conduziu para uma maratona de atividades pouco remuneradas. A perda da casa em que vivia, na periferia de Curitiba, a morte misteriosa do filho Ângelo, a ausência de visão causada por uma cirurgia malsucedida não tiraram dela a alegria de viver. Antes de se instalar no asilo São Vicente, onde recebeu tratamento digno, teve um atelier junto à sua casa, na Vila Autódromo e mais tarde um outro espaço em que morava e fazia sua arte na praia de Itapoá. Todo seu precioso acervo se encontra com a família.

Efigênia deixa nove filhos, dezesseis netos, dez bisnetos e centenas de amigos.

*Dinah Ribas Pinheiro é jornalista e escritora, especialista em Jornalismo Cultural. Trabalhou por duas décadas na Assessoria de Imprensa da Fundação Cultural de Curitiba. Exerceu a mesma função na Escola do Teatro Bolshoi em Joinville. Assessora de Comunicação no BRDE e no espaço cultural do Palacete dos Leões. É autora dos livros “A Viagem de Efigênia Rolim” nas Asas do Peixe Voador e “Teatro de Bonecos Dadá-Memória e Resistência”.

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