Nada foi mais cômico, e houve esforço por parte dos deputados para ganharem o troféu, do que a faixa pró-Temer estendida na Câmara Federal que dizia: “Deixe o homem trabalhar, vão arrumar o que fazer”. Ora, é o que ele tem feito desde que tomou posse na presidência em 2016. Claro que o verbo “trabalhar” tem amplo significado. Pode significar isso: o dar duro, o basquete, o trampo, o ingrato, o indesejado das gentes. Mas pode significar aquilo: a flauta, o tilintar, o burro na sombra, o surrupio, o desmando e a desdita.
LUA: OBRA DE MALUF
O slogan tampouco é novidadeiro. Foi cantado em prosa e verso quando Lula se viu cercado pelas denúncias do mensalão. Talvez, antes, quando Maluf (aquele mesmo) se pôs a dizer em campanha que era o dono de todas as obras que o paulista via à sua volta. Inclusive a Lua!
NADA VAI SAIR DA CARTOLA
Temer trabalha sim, mas ora em diante para manter o mandato. Não há perspectiva por parte do brasileiro (pró ou contra) de que algo saia da cartola antes do crepuscular 2018. Talvez a reforma da previdência, mas reduzida à idade mínima. E só. Se as emendas que salvaram o presidente da República forem contabilizadas, o governo deve saltar de um déficit de R$ 159 bilhões para mais de R$ 200 bilhões. A recuperação da economia que viria em 2021, mal pode ser vista no horizonte quatro anos depois.
Não há argumento “em nome do trabalho” ou da “estabilidade” que resista a um quadro tão desolador.
A MARCHA É FÚNEBRE
O futuro é incerto porque tenciona a política. Não há alternativa que se vislumbre entre os candidatos à presidência. Todos insistentemente draconianos ou obtusos. Ou ambos. A esquerda já escolheu o seu caminho:
Vai policiar todo e qualquer indício de preconceito de gênero ou etnia. Ponto. Vade retro reforma social ou econômica. A direita também fez sua escolha: vai defender Deus, a família e a moralidade na porta dos museus. Vade retro o emprego e a produtividade. A questão essencial é o sexo e a cor. Visto de longe, o Brasil parece uma democracia racial e não a única experiência de nação miscigenada que deu certo. Visto de longe, o Brasil não parece o país do Carnaval, da mulata, da loira do tchan, da Rogéria, da Roberta Close, da Madame Satã, da Lacraia, do Grande Otelo, da Rô Rô, do Clodô. Está mais para marcha fúnebre em passo de ganso.


