
O elevado Costa e Silva, mais conhecido como Minhocão, foi rebatizado em 2016, com o nome de João Goulart. Parentes do general militar reclamaram: “faltou democracia”, disseram. E, de certa forma, eles têm razão. A democracia é a ditadura da maioria, inclusive quando essa maioria está disposta a destruir a democracia. O regime militar foi instalado sob o silêncio cúmplice da democracia brasileira. É uma ideia incômoda, mas verdadeira.
PEDRA E BRONZE
Mudar o nome de um elevado de 3,4 quilômetros de extensão é fácil. O duro seria derrubá-lo como vem fazendo com as estátuas, ao longo da história, movimentos de vários matizes. O ditador soviético Joseph Stalin perdeu a cabeça de pedra e bronze em várias cidades do antigo império vermelho na década de 90. Lênin, o líder máximo da revolução russa teve o mesmo destino, ainda que seu mausoléu, em Moscou, tenha sido preservado. Talvez por atrair turistas de todo o mundo.
SADDAM VEIO ABAIXO
Na revanche de derrotados contra vencedores, não sobrou pedra sobre pedra nem mesmo da estátua de Napoleão Bonaparte I, que deitou morta em praça pública, apesar do histórico de conquistas e glórias do imperador francês. Igual destino teve a grande figura de concreto do ditador Saddam Hussein derrubado por militares norte-americanos tão logo selaram o destino de Bagdá, sob o pretexto de que o governo iraquiano detinha um programa secreto de armas químicas. A estátua caiu mesmo assim, em 2003.
ATÉ A CABEÇA DE GETÚLIO
Recentemente, uma gigantesca imagem de 36 metros de Mao Tse Tung foi abaixo em uma cidade no interior da China e um pobre monumento de Getúlio Vargas, o ditador mais adorado do Brasil, teve sua cabeça parcialmente destruída por vândalos em Nova Friburgo (RJ). Fim semelhante amargado pelo busto de Costa e Silva (o mesmo do Minhocão), cuja cidade-natal de Taquari (RS) calhou de ser governada por um prefeito petista, e foi removido da praça central.
AO DEBOCHE DOS POMBOS
Donde não parece surpresa agora que em algumas cidades do Sul norte-americano instalem-se movimentos pela derrubada de monumentos confederados. As estátuas estavam lá há muito sendo vítimas, como é corriqueiro, do que lhes destinam os pombos com ar de deboche. Ganharam protagonismo porque há um entorno de “fúria e fogo” incensado pelo presidente Donald Trump que eles, os supremacistas irracionais, julgaram ser um recado.
OBRA E GRAÇA
Não são as estátuas, portanto. Fossem elas e estaria explicada a destruição de imagens históricas milenares em Mossul, por obra e graça do Estado Islâmico ou, antes, a estátua de Buda explodida por talebans, no Afeganistão.
E SE A REVOLUÇÃO VIER?
Destruir imagens lembra a prática de vandalismo contra imagens do catolicismo cristão, em anos recentes, e nos faz conjecturar sobre uma hipotética e quase utópica revolução comunista que poderia pôr fim ao maior símbolo da fé no mundo: o Cristo Redentor. Aos que veem na derrubada de estátuas um ato político imagine então, em milhares de anos, uma guerra de teísmo ou ateísmo pondo abaixo a imponente e simbólica imagem dos convictos cristãos. Dá o que pensar.

