domingo, 22 fevereiro, 2026
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Dos Leitores: Paulo Carneiro: curva de nível

Aroldo:

Celso Ferreira do Nascimento
Celso Ferreira do Nascimento

Boa a matéria sobre as curvas de nível, embora você tenha esquecido do nome do Paulo Carneiro – o secretário que determinou a criação do programa de conservação de solos e pôs o José Guilherme como coordenador/executor. Bom executor, aliás.

O Paulo Carneiro era um alucinado por conservação de solos, que já adotou desde sempre em suas fazendas.

Foram da época dele também os primeiros incentivos para que os agricultores utilizassem outra técnica de conservação: o “plantio direto”.

Funciona assim: o agricultor colhe a soja (ou o milho, etc.) e não queima ou tira do chão a palha que sobra; deixa-a para se incorporar à terra e enriquecê-la de nutrientes. No plantio seguinte, o agricultor não usa arado, planta diretamente sobre aquele solo enriquecido pelas sobras da colheita anterior. Não é necessário usar arados para revolver a terra que, portanto, permanece protegida de efeitos erosivos. Com a vantagem também de precisar menos de fertilizantes químicos caros.

2 – PLANTIO DIRETO

Iapar e Emater foram pioneiros (no Paraná) a estudar e difundir a técnica do plantio direto naquela época. Hoje é uma tecnologia comum, adotada por grande parte dos agricultores mais modernos (ou menos convencionais).

O programa de conservação de solos do fim da década de 70 se concentrou principalmente na região Noroeste, de solo arenoso e que vinha sendo devastado pela erosão. Até cidades eram engolidas pela erosão.

A sequência foi esta: primeiro, a região foi criminosamente desmatada para dar lugar à cafeicultura a partir dos anos 1950/60; depois, com a geada negra de 75, os cafezais foram erradicados para dar lugar a lavouras temporárias e destrutivas do solo, como soja e milho e, em seguida, substituídas por outra atividade ainda mais destrutiva – pastagens para pecuária. Foi o horror!

O Iapar (que fez o primeiro mapa de solos do Paraná) calculou que 700 milhões de toneladas de terra do Noroeste eram levadas todos os anos pelas chuvas para assorear o rio Paraná e fatalmente comprometer, a médio prazo, a hidrelétrica de Itaipu. Pior: em poucos anos o Noroeste viraria um deserto, como aconteceu nos Pampas gaúchos.

3 –FISCALIZAÇÃO DO VIZINHO

O programa de conservação de solos do Paraná funcionou como uma autêntica blitzkrieg: começando com um processo de conscientização seguindo de ação direta e rápida do governo, que disponibilizou técnicos e máquinas (Acarpa e Café do Paraná) para fazer curvas de nível em propriedades rurais privadas. Um vizinho tinha de fiscalizar o outro, pois quem não fazia a conservação destruía a lavoura ao lado.

Em cerca de três anos mais de 1 milhão de hectares foram recuperados com a adoção do sistema de curvas de nível.

Ao mesmo tempo foram tentados incentivos para que no Noroeste fossem admitidas preferencialmente plantios perenes, como laranjais e seringais, não só menos agressivos, mas “protetores” do solo. Alguma coisa prosperou neste sentido, mas o “boom” da soja e mesmo da pecuária limitou a expansão dos plantios perenes. Na sequência da gestão do Paulo Carneiro, veio o Reinhold Stephanes, que ainda fez grande esforço em favor da fruticultura na região, mas sem muito sucesso. E aí é outra história, com motivos plausíveis que só “a economia, estúpido!” explica.

4 – OSMAR DIAS

Osmar Dias veio depois deles. Manteve e ampliou o programa, que passou a chamar de conservação de microbacias. Teve grandes méritos; mas não foi o pioneiro e já encontrou, na sua administração (governo Álvaro Dias) a experiência de muitos técnicos formados anteriormente.

Infelizmente, o livro do Canet quase nem cita o Programa de Conservação de Solos, embora tenha sido muito mais importante do que muitos outros (veja da página 120 em diante).

CELSO F.DO NASCIMENTO, jornalista, Curitiba.

(correspondências para a coluna: aroldo@cienciaefe.org.br)

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