
A morte de dom Pedro de Casaldáliga, 92, um sacerdote da Catalunha que chegou ao Brasil com 40 anos, como Missionário Claretiano, coloca em foco algumas questões históricas do Brasil dos últimos decênios, boa parte do século 20.
Em primeiro lugar, revive na “memória histórica” uma das personagens mais questionadas e de maior expressão da Igreja Católica no Brasil. Para uns, ele não teria passado de “um agitador social”, visão compartilhada especialmente pelos que apoiaram cegamente o movimento militar de 1964, responsável pela ditadura a que o prelado tanto se opôs; para outros, cristãos ou não, o prelado (bispo) de São Felix do Araguaia, Mato Grosso, foi alguém que “se imolou em defesa da justa reforma agrária, em defesa das populações indígenas e dos pequenos posseiros da Amazônia”. Essa visão confirmaria a fidelidade do bispo ao Evangelho, pelo apoio que deu ao fracos e oprimidos.
LUTOU O BOM COMBATE
Dom Pedro, que há anos vivia como bispo emérito de São Felix (aposentado), entra na história do Brasil por um dado concreto, a despeito daqueles que lhe eram opositores: lutou o bom combate em defesa dos oprimidos.
Teve, na minha opinião, pecados, como o de defender regimes autoritários, como Cuba, Nicarágua e Venezuela. O saldo final é favorável ao bispo, que morreu em Batatais, São Paulo. E cujo sepultamento deveria ocorrer em São Felix.
PAULO VI
Por dever de justiça a um dos papas mais injustiçados do século 20, Paulo VI, não tenho dúvidas em classificar o pontífice como o salvador humano de dom Casaldáliga, ao fazer o então sacerdote bispo, depois do triste episódio em que ele vira seu companheiro de lutas, padre Penido Burnier, ser morto por policiais de uma delegacia do Mato Grosso, quando os dois tentavam defender duas mulheres torturadas no local.

