segunda-feira, 23 fevereiro, 2026
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Do “Fugindo do Inferno” ao momento histórico dos beneditinos franceses

Carlos Harmath, Antonio João Mânfio
Carlos Harmath, Antonio João Mânfio

Quando se for escrever com profundidade sobre o período de repressão política pós 64 no Paraná, haverá que se reservar amplo espaço a um grande centro de acolhimento a intelectuais locais não conformados com o estado de coisas reinante naqueles dias. Não eram necessariamente revolucionários dispostos a derrubar os generais à força, mas homens e mulheres que queriam apeá-los do poder pelas ideias. Água mole em pedra dura…

São Bento
São Bento

2 – ACOLHENDO INCONFORMADOS

Esse centro de acolhida aos inconformados ficava na estrada de Paranaguá, ainda no município de Piraquara, Laranjeiras, onde uma fundação católica, de regra beneditina e de origem francesa, estabelecera um mosteiro contemplativo. Contemplação que incluiu, ao mesmo tempo, a valorização dos leiteiros da região, a quem os religiosos ofereciam conhecimentos técnicos e orientação política. E religiosa, naturalmente.

3 – VIGIADOS PELO DOPS

O espaço era frequentado (e vigiado pelo DOPS) por gente como o professor Lamartine Correa de Oliveira, Euclides Scalco, o professor e advogado Francisco Muniz, Leonor Demeterco de Oliveira, professor Luiz Gonzaga Paul e Halina, o médico (ex-presidente do CRM) Gerson Zafalon Martins, professor Antônio João Mânfio, o psiquiatra Pérsio Guimarães, o psiquiatra Carlos Harmath, dentre outros.

Registraram-se acolhimentos de alguns perseguidos políticos, vindos de São Paulo, que lá eram abrigados com discrição e sob a proteção da autoridade moral do superior da casa, Père Felipe.

4 – PRIOR FELIPE

Por Felipe Ledet quase ninguém identificava o prior da casa, Père Felipe, monge beneditino, membro de uma das mais antigas ordens religiosas católicas, fundada no século 4 por Bento de Nursia. Foram a história de vida e as atitudes de Felipe que o fizeram comandar aquele enorme centro de espiritualidade engajada na doutrina social da Igreja. O que, no caso, incluía, combater o sistema ditatorial, mesmo que de uma maneira – digamos assim – ‘light’.

Felipe não foi um monge comum. Era em tudo diferenciado, a começar pela vocação religiosa que o levou a assumir o sacerdócio e a vida monástica depois de ter cumprido missões arriscadas como ‘partisan’ na luta contra os nazistas, na Resistência Francesa.

Veio para o Brasil no começo dos 1960, estabeleceu-se com sua comunidade em Curitiba.

5 – NA TELA GRANDE

Steve McQueen em “Fugindo do Inferno”
Steve McQueen em “Fugindo do Inferno”

Só no final dos 1970, depois de muitas dificuldades enfrentadas por sua obra – incluindo perseguições que teriam ocorrido por parte de setores da hierarquia – mudou o seu Mosteiro da Anunciação para Goiás Velho. Lá, acolhido pelo bispo dom Tomás Balduíno, estabeleceu nova comunidade, com propósitos de oração, trabalho e justiça social. Morreu nos 1980 na França, vítima de AVC.

A referência inusitada na vida desse verdadeiro religioso muito amado pelos os que o conheceram foi o filme “Fugindo do Inferno”, épico da II Guerra, com Steve McQueen, que na fita foi identificado como sendo Felipe.

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