quinta-feira, 2 abril, 2026
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Divã de Ideias: A força do vínculo

Prometo tentar conectar sempre que possível temáticas paralelas que trouxe de alguma forma em colunas anteriores.

Quando escrevi sobre o processo psicoterapêutico em linhas gerais, acabei falando também sobre a importância fundamental da formação e sustentação de um vínculo entre paciente e profissional.

E esse é um elo criado e sustentado por ambas as partes, ainda que caiba ao profissional as condutas técnicas para faze-lo florescer.

Já ouviu falar daquela expressão ‘deu match‘? Ou ainda, ‘nossas ideias casaram’? Pois é. Entre profissional e paciente, visando um processo forte, longevo e satisfatório, a concepção e a manutenção de um elo de sincronicidade e troca é indispensável.

Este vínculo é o que constitui a ponte facilitadora de acesso pelo profissional às demandas trazidas pelo paciente quando ele se sente confortável para verbaliza-las. É também a sensação que faz afrouxar o laço da censura e do embaraço para fazer com que ele se sinta, justamente, mais apto a falar dentro das sessões.

De um lado, ele orienta o paciente sobre a forma de trabalho do profissional – por isso creio que seja essencial uma postura ativa do psicólogo no sentido de oferecer ao paciente também uma faceta psicoeducativa, especialmente no início do trabalho. Por outro lado, ele direciona o próprio profissional nas possíveis frestas de acesso ao paciente e atualiza, sempre que possível, a própria demanda dentro do trabalho clínico.

E quando isso não acontece? Tal qual a possibilidade contrária, esta também é muito comum no processo em psicoterapia. Gosto de dizer que há encontros e desencontros neste tipo de processo, assim como em quase qualquer outro. Paciente e profissional podem não formar uma percepção síncrona sobre tantas coisas.

Forma de trabalho, uso do silêncio, técnica, abordagem… são múltiplas as possibilidades.

Quando isso acontece, creio que em algum momento alguém precisa dar um passo a frente e verbalizar esse desencontro de forma a estabelecer um marco na jornada. É aqui que outras vias podem se formar. Pode se materializar uma troca de perspectiva para ajustar o processo, uma lapidação da técnica ou ajuste da abordagem, ou ainda um desprendimento do paciente para se sentir mais confortável e mais aberto no setting terapêutico.

Ou, pode-se decidir pelo término do processo. E não há absolutamente nada de errado nisso.

Encerrar um processo, por verbalização e decisão de ambas as vias, muitas vezes é sinal de maturidade. É sinal de que as coisas podem não ter funcionado ali mas devem encontrar outros caminhos em outras portas que daí podem se abrir.

Essa sensação é geralmente uma percepção mútua que pode significar a chance de um novo encontro no mesmo trabalho ou em algum outro lugar.

Fernando Simonetti é psicólogo graduado pela PUC-PR. A Psicologia em que ele acredita tem relação com o trabalho integral da pessoa, com o respeito e a ética irrenunciáveis na compreensão do que atravessa o sujeito e, principalmente, na capacidade de reconhecer o espaço do outro, respeitá-lo e conduzi-lo a um lugar mais seguro. Fernando acredita também no trabalho clínico que constrói um espaço acolhedor pela escuta e viabiliza mudança através da elaboração da palavra.

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