Por Fernando Simonetti – “Eu penso em tudo que nunca tive e sinto…a falta“. Um dos versos do refrão da bela composição da banda brasileira Udora nos leva a sentir num curto espaço de tempo aquilo que sentimos por uma vida toda. “A falta (que me faz)”, uma balada melancólica esquecida nos arquivos musicais.
Experimente parar por um segundo. Sim, você, aí, lendo estas linhas no celular, no ônibus ou onde quer que esteja. O que você está buscando, exatamente? Uma distração, uma resposta ou algo palpável que dê sustentação a esse incômodo inexplicável, intangível e indescritível que te atravessa?
A falta. Falta que seria equivocadamente caracterizada como inata, visto que é condição sine qua non para o nascimento e para a existência após. É, a falta não é um acidente de percurso de existir. É a condição que possibilita isso tudo. Sem ela, sinto informar-lhe, há desgaste rápido do desejo.
‘Mas eu já me senti completo! Naquele abraço, naquele momento, num beijo…’. Sim, a completude é uma fantasia costurada em padrão fugaz. Arrebata parte de nós e parte lembrando que é preciso novo movimento para um novo encontro com um novo pedaço.
Nem os seres ditos completos, como no mito de Platão, sustentaram a completude por muito tempo. Zeus os condenou à existência cindida, em busca de suas respectivas metades.
A completude é, ao mesmo tempo, afrontosa e enfadonha. Completos, não encontramos combustível interno para sustentar a busca. Busca pelo que? Aí é de cada um e de cada momento.
Certo é que, sem busca, não há desejo. E sem desejo, não há campo para expectativa.
E não vivemos diariamente esperando por alguma coisa? Coisa que pode ser de maior ou menor magnitude, coisa que pode ser um alguém ou um lugar, coisa que se transforma no compasso da nossa transformação. E da transformação do nosso desejo.
Invariavelmente você vai acabar encontrando, de tempos em tempos, alguém que afirme não lhe faltar mais nada. Não há problema nenhum nisso. Trata-se apenas de mera confusão transitória causada geralmente por um instante em que a própria vida parece completa.
Como aquele quebra-cabeças de infinitas peças que você termina e organiza na mesa da sala. Para descobrir no dia seguinte que lhe falta uma peça. Algo se perdeu.
Como na vida. Quando parece completa algo precisa se perder para que se reinicie a procura.
Consentimos em não saber a razão do sumiço da peça na convicção de que encontraremos outra.
A peça que falta.

Fernando Simonetti é psicólogo graduado pela PUC-PR. A Psicologia em que ele acredita tem relação com o trabalho integral da pessoa, com o respeito e a ética irrenunciáveis na compreensão do que atravessa o sujeito e, principalmente, na capacidade de reconhecer o espaço do outro, respeitá-lo e conduzi-lo a um lugar mais seguro. Fernando acredita também no trabalho clínico que constrói um espaço acolhedor pela escuta e viabiliza mudança através da elaboração da palavra.
