
A partir os anos 1970, as cidades médias e grandes do Brasil deslancharam um amplo e jamais contido (até agora) processo de verticalização.
Curitiba não foi exceção.
Eu mesmo, menino, 13 anos, costumava memorizar os nomes e características dos primeiros significativos edifícios da cidade, nos anos 1950.
Especialmente dos de mais de 4 andares e com elevadores. O Garcez e o Santa Julia estavam na ponta da lista restrita, assim como o Marumbi, na Praça Santos Andrade.
Eu morava com minha família num de 3 andares, sem elevador, na Carlos de Carvalho, próximo à Alameda Cabral, onde depois, no térreo, os Calicetti estabeleceram seu restaurante e lá funcionou por anos.
Para mim, uma das ‘delícias” daqueles dias era entrar no elevador do edifício que, até poucos anos atrás (5 anos?), existia na Rua Comendador Araújo com Rua Visconde do Rio Branco, que seria depois revenda Ford e mais adiante, loja de móveis, no térreo.
“Eu pertenço a uma geração privilegiada de “sobreviventes”, pois conheci e vivi Curitiba predominantemente horizontal, provinciana, as pessoas tendo nomes e sobrenomes. Fui parte de uma juventude que se reunia, na Biblioteca Pública do Paraná no Centro Liberal de Cultura, assistia a concertos clássicos na Concórdia e ‘excursionava’ ao Templo das Musas…”
Tratava-se de uma experiência sempre nova, interessante: ‘andar’ de elevador. E ela me era propiciada porque ali, no terceiro andar daquele prédio sem estilo e sem graça arquitetônica nenhuma, iria apanhar a edição mensal da revista Sezinho, do Sesi nacional – publicação infantil -, que me era entregue por Lala Schneider, funcionária do Serviço Social da Indústria (SESI).
Mulher fantástica, Lala depois se tornaria a grande atriz teatral do Paraná.
Eu pertenço, pois, a uma geração privilegiada de “sobreviventes”, pois conheci e vivi Curitiba predominantemente horizontal, provinciana, as pessoas tendo nomes e sobrenomes. Fui parte de uma juventude que se reunia, na Biblioteca Pública do Paraná no Centro Liberal de Cultura, assistia a concertos clássicos no Concórdia e fazia “excursões” ao Templo das Musas, em Vila Isabel, e participava das missas do padre Albano Cavalin (depois bispo e arcebispo de Londrina) e do monsenhor Isidoro Mikosz, na Catedral, ouvia os programas de Artur de Souza e de Aluizio Finzeto.
“Marleth Silva, dona de texto precioso, me colocava mais “minhoca” na cabeça, indagando: “que fizeram da separação do lixo, iniciada por Jaime Lerner a partir de 1989?”.
Até por isso tudo, leio com redobrado interesse artigo de Luiz Fernando de Queiroz, o assunto me diz respeito – moro num prédio, o mesmo, há 32 anos. Está na revista curitibana “Direito & Condomínio”, janeiro/março 2016.
No texto do conhecido especialista em Direito Imobiliário e dono de enorme vocação comunitária (vide os Zeladores de Vizinhança e os Alpinistas Urbanos), mergulho numa realidade bem de hoje, parte do dia a dia da Curitiba vertical: os porteiros e zeladores de edifícios (comerciais ou residenciais) têm ou não direito a adicional de insalubridade, quando manipulam lixo? Diz Queiroz que não, se a manipulação não for direta. O assunto sempre permeou discussões condominiais de que participei.
Paro a leitura por um tempo, reflito: ‘quanto a cidade mudou!’
Da minha diversão com os elevadores, nos anos 1950, ao lixo e os porteiros, há um mundo de realidades que a história e a memória da Curitiba urbana não me deixam esquecer. Até porque, dias atrás, a amiga Marleth Silva, dona de sempre texto precioso, me colocava mais “minhoca” na cabeça, indagando: “que fizeram da separação do lixo, iniciada por
Jaime Lerner a partir de 1989?”. Praticamente sumiu, a partir do momento em que acabaram com a grande central de reciclagem que funcionava na antiga FREI, na Região Metropolitana.
No meu prédio, descobri, não seríamos mais que 4 moradores que separam o lixo orgânico do reciclável. Lamentável, sendo verdade.
Elevadores, cidade vertical, separação do lixo, são temas para gente com a qualidade pessoal e profissional do cidadão Luiz Fernando Queiroz, a quem proponho entre nessas áreas.

