domingo, 22 fevereiro, 2026
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De quando o sagrado mexe com o mundo político

Luiz Inácio Lula da Silva, Ney Aminthas de Barros Braga e o Cardeal Dom Paulo Evariso Arns.
Luiz Inácio Lula da Silva, Ney Aminthas de Barros Braga e o Cardeal Dom Paulo Evariso Arns.

Lula não deve temer eventuais anátemas de igrejas pentecostais, tal a desenvoltura com que, falando, na semana passada, a grupo de sindicalistas ligados à CUT e ao PT, fez duras críticas a igrejas neopentecostais.

Começou por dissecar – com seu linguajar típico, descomprometido com fidelidade, no caso, a aspectos teológicos: “Para os pentecostais, tudo é coisa do diabo”, disse, acrescentando que “o diabo é culpado por tudo, por se ter ou não dinheiro, pela saúde e a doença…”

Arrancou gargalhadas da plateia, da qual não se ouviu uma voz de contestação ao chefe supremo do petismo. Embora Lula, quando candidato e depois como presidente, muitas vezes tenha se socorrido do apoio de neopentecostais para seus projetos políticos. Tem até um irmão – chamado de “frei Chico”-, que pertence a uma denominação pentecostal.

Segundo o relato de jornais paulistas, foi ampla e longa a crítica de Luiz Inácio aos neopentecostais, o que, de certa forma, atinge diretamente um dos líderes religiosos mais paparicados pelos políticos atuais, caso de Edir Macedo, da Igreja Universal.

2 – COM GETÚLIO VARGAS

Getúlio Vargas, embora ateu (pelo menos nos primeiros anos como presidente e ditador), sempre tratou de cultivar, com o maior cuidado, suas relações com o mundo católico. Naqueles dias a hegemonia católica no Brasil era incontestável. E a palavra da “Santa Madre” poderia coroar ou decretar o fim de carreiras e projetos políticos. Com o passar dos anos, o grande amigo e conselheiro de Getúlio foi mesmo o cardeal Leme, do Rio. Chegou a estar ao lado dele nos dias finais de seu governo.

Há documentos que indicam Getúlio como temente a Deus, nos últimos anos de vida.

3 – CONTRA O JOGO

Eurico Gaspar Dutra, que sucedeu Getúlio, foi um presidente opaco. Mas temia e tremia diante das vontades da Igreja Católica, realidade ampliada pelas sugestões de sua mulher, dona Santinha, uma carola exemplar. Dela, por vontade da Igreja, veio o veto que até agora existe no país contra jogos em cassinos. Há farta literatura sobre a presença de primeiras damas ao lado de presidente e governadores, influenciando-os a seguirem orientações religiosas.

4 – DONA LEONOR

Foi o caso, por exemplo, de dona Leonor Mendes de Barros, mulher de Adhemar der Barros, governador de São Paulo. Ela se pautava pelos ditames da Igreja Católica, amplamente. Dizem fontes bem informadas que o antigo convento jesuíta de Itaici, de São Paulo, por anos sede da CNBB, foi por ela patrocinado. Teriam entrado recursos públicos na obra, insinuaram sempre fontes da área…

5 – COM FIGUEIREDO

No Governo João Figueiredo, com a redemocratização do Brasil já a caminho, o general presidente contemplou dois braços religiosos importantes. “Figueiredo acendeu velas para os dois”, observa-me um historiador da PUCPR, recordando: “Ele criou o feriado da Padroeira, dia 12 de outubro, dedicado a Nossa Senhora Aparecida, e concedeu, logo em seguida, concessão de televisão (TV Rio) para o pastor batista Nilson Amaral Fanini”.

As igrejas batistas, naqueles dias, eram as mais representativas do protestantismo, afora a Assembleia de Deus.

Naqueles dias, ministros protestantes com concessão de televisão não existiam.

6 – CATÓLICO “CAÓTICO”

Não se tem conhecimento que Lula tenha replicado ao então cardeal do Rio de Janeiro, Oscar Scheidt, que o classificou de “católico caótico”, ao ser entrevistado em Roma – onde o então presidente fora para as exéquias de João Paulo II.

A inabilidade do cardeal foi condenável. Lula ficou quieto, talvez porque ele reconhecesse que deve à Igreja Católica, e a líderes como o depois cardeal Cláudio Humes e o ao cardeal Paulo Evaristo, boa parte do impulso que o fez um líder nacional.

Mas um dos mais fortes exemplos de ligação do mundo sagrado com os domínios espirituais deu-se na campanha de Ney Braga ao governo do Paraná, em 1960. A Liga Eleitoral Católica, poderosa, o apoiou e todos os batalhões do então arcebispo de Curitiba, dom Manuel da Silveira D’Elboux.

Esse assunto, a LEC, no Paraná, é o tema do livro “Religião e Política”, de Renato Augusto Carneiro Junior, diretor do Museu Paranaense, que será personagem de Vozes do Paraná 7.

No momento, um dos evangélicos mais visados – amado e contestados com iguais intensidades – é Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados. Ele era membro da Igreja Sara Nossa Terra, do bispo Rodovalho.

No ano passado, mudou-se de armas e bagagem para a Assembleia de Deus, a mais importante igreja protestante do país. Talvez, como dizem seus rivais, “por uma questão de espaço eleitoral”. Sem preocupações teológicas.

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