terça-feira, 5 maio, 2026
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Dalton Trevisan e a “memória dos outros”

Dalton Trevisan
Dalton Trevisan

Dalton Trevisan terá 92 anos em 14 de junho. Mora na mesma casa no Alto da XV, de endereço conhecido, mas não divulgado por conta das pragas que o escritor pode rogar. Ele é recluso desde a década de 70. Antes, inebriou-se com a fama e o assédio. Mas não por muito tempo.

Considera-os todos aqueles que o abordam – leitores, críticos, alcoviteiros – uns chatos e, Deus, livrai-nos dos chatos.

AUTOR PROLÍFICO

“O beijo na nuca”, livro de contos publicado em 2014, obedece à regularidade de um autor prolífico. Antes, foi lançado “O Anão e a Ninfeta (2011) e “Desgracida” (2010), este último dividido em minicontos e relatos pessoais em formato de cartas endereçadas a amigos e escritores: Otto Lara Resende, Rubem Braga e outros.

CONTRAPONTO

Há quem diga que “Novelas Nada Exemplares” é a sua Magnum Opus. Bobagem.

Talvez a referência a Miguel de Cervantes contenha mesmo uma crítica às histórias de aventura. O contraponto é o Dalton do cotidiano. Mas ele faria muito melhor. Seja, no estilo, cada vez mais conciso, seja na temática, cada vez mais interiorizada.

EU NÃO SOU EU

Há dois anos, quando Dalton completou 90 anos, um repórter da Folha de S. Paulo tentou abordá-lo na rua para uma entrevista. O escritor livrou-se com toda a fleuma: “Não, eu não sou eu”. E criou uma nova metafísica.

VAMPIRO

Leitor da coluna diz que conheceu Curitiba pela primeira vez depois de ler um conto de Dalton Trevisan e “ouvir o chamado do vampiro às suas vítimas”.

RECLUSO QUE PUBLICA

Dalton é um recluso que publica. Diferente de J.D. Salinger, o autor de “O Apanhador de Campo de Centeio”, que nunca mais publicou até morrer em 2010, aos 91 anos. Já Rubem Fonseca, é um recluso nacional. No exterior, esbalda-se em entrevistas. Não se diga, porém, que este ou aquele é mais autêntico em sua aversão ao contato público. Apenas que agem de modo distinto.

HIENA PAPUDA

Dalton jamais admitiu que alguém agisse sub-repticiamente e invadisse o seu círculo de amizades para extrair alguma história. Um escritor usou dessa artimanha e foi devidamente escorraçado no texto intitulado “Hiena papuda”, que Dalton distribuiria como se fora um libreto de ópera.

PREÇO CARO

O tal escritor chegaria a publicar um livro sobre sua curta convivência com o vampiro, mas com tantas chaves de leitura que até o editor de sua casa de livros original acabaria por rejeitar o manuscrito. O pecado lhe custou caro.

PROJETO EM GESTAÇÃO

Quem quiser escrever um livro sobre Dalton, já sabe, terá que anunciá-lo publicamente. Levar o projeto ao conhecimento do escritor e fazer com que seu círculo de amigos fiéis concorde em participar. Um projeto nesse sentido já está em gestação. Chama-se “Dalton Trevisan – Memória dos Outros” e deve ganhar força ao longo desse ano. Quem viver, verá.

Os mais notórios amigos de Dalton são Eduardo Rocha Virmond e Constantino Viaro; a jornalista Marleth Silva pode também ser contada nesse rol de privilegiados conhecedores do universo do “Vampiro de Curitiba”.

Eduardo Rocha Virmond, Constantino Viaro e Marleth Silva: amizades
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