Por Katia Michelle – Existe uma relação silenciosa entre a moda e a morada que ganhou forma pelos olhos da estilista curitibana Kamille Cunha, agora corretora. No lugar de tecer e criar com tecidos, ela passou a exercer um olhar sensível sobre o morar. À frente da imobiliária boutique Ka.Ka. Curadoria de Imóveis, ela reinventa imóveis e conecta pessoas às suas necessidades com um repertório construído ao longo da carreira, que inclui experiências com grandes marcas do Brasil e do mundo.
Formada em Belas Artes, com foco em escultura, e com estudos em Moda, Negócios, Varejo de Moda e Gestão, Kamille passou por diferentes áreas da moda e gestão de negócios. Trabalhou com marcas como Farm, Animale, Ricardo Almeida e Renner e manteve, durante anos, uma relação estreita com fornecedores na China.
A experiência internacional, somada à formação artística, construiu um repertório que hoje aparece de maneira quase intuitiva diante de um imóvel. “A moda me treinou a ter um olhar mais crítico sobre o produto, a perceber detalhes e, principalmente, a entender para quem ele faz sentido. Aprendi a analisar comportamento e público-alvo e hoje levo esse repertório para o mercado imobiliário. Isso me ajuda a reconhecer o potencial de um imóvel e onde realmente vale a pena investir”, diz.
Uma casa também é um produto
Antes de ser corretora, Kamille já era fascinada por imóveis. A relação começou cedo, influenciada pela família e por uma convivência próxima com construções. O pai montou uma fábrica de móveis; a mãe tinha uma empresa que fornecia portões eletrônicos para empreendimentos imobiliários. Desde pequena, ela frequentava grandes construções, acompanhando a mãe, e desenvolveu familiaridade com plantas e detalhes construtivos de diferentes épocas.
Aos 22 anos, leu o livro “Memórias de Danuza Leão” em que a apresentadora contava sobre a compra, reforma e venda de apartamentos antigos. A ideia ficou guardada. “Eu me apaixonei por essa possibilidade”, lembra Kamille. “Eu queria muito comprar apartamentos, reformar e vender.”
Décadas depois, a pandemia criou as condições para que aquela antiga curiosidade se transformasse em possibilidade profissional. Em 2020, depois de dissolver o escritório que mantinha ligado à moda e retornar definitivamente a Curitiba, Kamille se viu diante de uma circunstância inédita. Acostumada a viver na estrada, estava subitamente em casa.
Foi nessa época que ela comprou o imóvel onde mora hoje e decidiu reformá-lo. Kamille participou ativamente do processo, montou a apresentação do projeto para a arquiteta, acompanhou as escolhas e chegou a transportar saco de cimento no próprio carro. A experiência confirmou algo que até então existia mais como desejo do que como profissão.

O interesse de Kamille está especialmente nos imóveis que ainda permitem exercícios de imaginação. Apartamentos antigos, espaços reformados ou propriedades que guardam características de outras épocas fazem parte do seu repertório.
“Quando entro no apartamento, eu consigo ver o belo. Presto atenção em todos os detalhes, desde a luminosidade, a planta, os tacos, as sancas, tudo o que pode dar ainda mais valor para aquele espaço. Sou muito criteriosa na escolha dos imóveis que vão fazer parte da minha carteira”, diz. Para ela, é uma maneira de olhar que não descarta imediatamente aquilo que envelheceu, por exemplo. Detalhes antigos podem ser justamente o que confere personalidade a uma propriedade. “Os apartamento mais antigos, aliás, são as minhas maiores paixões”, complementa.
Quando a câmera entrou em cena
A mudança de carreira aconteceu aos poucos, de forma natural. Decidida a entrar no mercado, começou fazendo de tudo, até entender onde gostaria de atuar. Estudou, tirou o CRECI e foi construindo e entendendo o caminho que gostaria de trilhar. A resposta veio pelas redes sociais.
Inicialmente reservada diante das câmeras, Kamille precisou ser convencida a gravar vídeos para apresentar os imóveis. O primeiro foi uma casa no Campo Comprido, avaliada em cerca de R$ 5 milhões. Depois veio o “Xuxu do Bigorrilho”, apartamento que viralizou e começou a levar pessoas até os imóveis apresentados por ela.
“Os vídeos foram um divisor de águas. As pessoas começaram a me procurar para me dar os imóveis. E, para vender, meus vídeos ajudavam. Aliviou a pressão de ter que achar o cliente”, diz.
As gravações passaram a fazer parte do próprio processo de venda. Quem chega para uma visita já teve contato com a maneira original como Kamille apresenta a propriedade e com o seu olhar sobre aquele espaço. Ela não trabalha com roteiros rígidos. Prefere entrar no imóvel e descobrir sua história enquanto percorre os ambientes.
O resultado também apareceu nos negócios. No primeiro ano de trabalho, Kamille bateu a meta anual já no terceiro mês. Ela credita o sucesso ao seu diferencial de escolher imóveis que realmente gosta e acredita no potencial, assim como a importância que dá à sinegia com o cliente.
O perfil nas redes também ampliou seu alcance. Seus vídeos passaram a chegar a interessados nos Estados Unidos e na Europa. Com isso, Kamille pôde escolher melhor os imóveis com os quais queria trabalhar.
Uma imobiliária à sua maneira
A Ka.Ka. Curadoria de Imóveis nasceu em outubro de 2025, depois de Kamille receber propostas de diferentes empresas do setor. Em vez de escolher uma delas, decidiu montar a própria imobiliária. A estrutura é enxuta, com uma carteira de no máximo 25 imóveis.
A empresa atua com propriedades a partir de aproximadamente R$ 1,5 milhão e pode chegar a imóveis de R$ 30 milhões. No segmento de alto padrão, parte das negociações acontece de maneira discreta, no chamado mercado off-market.
A escolha por uma carteira menor acompanha a maneira como Kamille entende a relação com seus clientes. Antes de uma negociação, procura entender por que alguém quer vender e o que está por trás da decisão.
Em um mercado competitivo, trabalhar com menos imóveis parece quase uma provocação. Kamille, no entanto, não está interessada em ampliar a operação a qualquer custo. “Eu não quero crescer muito. Cada vez mais quero que as pessoas me escolham.”
Na moda, Kamille aprendeu a construir produtos a partir de referências e a entender para quem eles faziam sentido. Nos imóveis, esse conhecimento ganhou outra escala. “Consigo enxergar beleza e potencial em um imóvel abandonado. Gosto de perceber a história que ele carrega, imaginar a vida que aquele espaço ainda pode ter e identificar a valorização que pode alcançar quando recebe o cuidado e o olhar certos.”
Para Kamille, a matéria mudou, mas o olhar apurado continua sendo seu principal diferencial.
