
Natural da Ilha de Man, na Irlanda, Alan Cannell é engenheiro civil formado na Universidade de Londres e tem mestrado na área de transportes pela Universidade de Leeds. Radicado no Brasil desde 1972, Alan se mudou para Curitiba dois anos depois, vindo do Rio de Janeiro, quando começou a trabalhar no IPPUC em uma nova proposta de sistema de trânsito: o hoje conhecido e exportado BRT (Bus Rapid Transit).
Dentro do primeiro governo Jaime de Lerner na prefeitura, fez parte da equipe que negociou os empréstimos iniciais com o Banco Mundial e do Governo Federal para a viabilização do sistema BRT. Em 1976, Alan se tornou chefe do Controle de Tráfego, cargo que ocupou durante os dez anos em que o sistema BRT foi desenvolvido e expandido na capital paranaense.
Posteriormente, foi responsável pela implantação do BRT em oito cidades do Brasil, além de países como Colômbia e Vietnã. Desde 1990, é diretor da Transcraft.
Em maio deste ano, Cannell foi para a Coreia do Sul apresentar o modelo do BRT, a convite do governo de Seul. Com sua obra traduzida para o inglês – e para o coreano, depois desta empreitada – ele fala sobre a ocasião e sobre a situação atual do sistema de mobilidade urbana de Curitiba.
Como surgiu o convite para apresentar o BRT na Coreia do Sul?
Em 2009 escrevi um livro em inglês sobre BRT na América Latina chamado “Bus Rapid Transit in Latin America: The Development and Operation of BRT Systems in South American Cities“. No ano passado, fui procurado por um professor coreano, solicitando o lançamento da obra em coreano e me convidando para um evento sobre transporte na Coreia, em maio. Aceitei gentilmente e fui participar do evento em Seul. O interessante é que existe um consenso, por parte do grupo que coordena o transporte público e as questões urbanas, de que a reunificação das Coreias é algo inevitável.
Para antever os desafios que isso vai trazer, com os movimentos migratórios do Norte para o Sul, os custos e métodos disponíveis, o BRT é uma das alternativas estudadas.
O modelo de BRT expresso é destinado, justamente, ao transporte de massas, é mais simples, mais barato e eficiente. Cerca de 30 cidades na China já utilizam um sistema parecido, mas na Coreia isso é novidade.
Quais as expectativas agora?
A sensação que temos é que a unificação das Coreias vai acontecer em breve, mas sem uma definição de quando seria este “breve”. A implantação do BRT só viria depois disso. Na ocasião, aproveitei para atualizar meu livro sobre as melhorias feitas no sistema BRT do Rio de Janeiro, e sobre a paralisia do modelo em Curitiba. Muito pouco foi feito na última década…
O que acha do projeto atual do metrô de Curitiba?
O projeto do metrô é uma encrenca desde que foi inventado. Com isso, todo o sistema de mobilidade urbana fica paralisado, de certa forma: não se investe em melhorias no BRT porque vai ter metrô. E o metrô nunca sai do papel.
Vivemos uma época infeliz dentro do sistema curitibano, com a desintegração do sistema metropolitano, a falta de investimento nos terminais, a infraestrutura caindo aos pedaços e todos os problemas que os passageiros estão cansados de conviver diariamente. Com isso tudo, a capacidade do BRT fica reduzida, a velocidade diminui e, operacionalmente, o sistema de bilhetagem é antiquado: não é “fit for purpose“, como dizem os ingleses. Chega a ser anti-marketing, por exemplo, a questão do uso exclusivo de cartões nos ônibus centrais, sem aceitar dinheiro. É como se dissesse aos turistas, “por favor, não use nosso transporte”.
Qual seria a alternativa para melhorar esse quadro?
Há diversas opções. Curitiba realmente precisa de uma rede de metrô a qualquer custo? Com o cenário econômico atual, como o governo federal pode investir novamente em recursos? É preciso pensar a questão do transporte para o dia de amanhã, nos próximos oito anos, e não só daqui a 30 anos.
Nós temos um sistema que já foi modelo para o mundo e não está sendo utilizado como deveria, com os investimentos que poderiam ser destinados.
É preciso ampliar a capacidade e usar inteligência na gestão, criatividade e a tecnologia a nosso favor. O leque de opções da era digital é vasto e não está sendo usado. A impressão que temos é que se acomodou, com um modelo que funcionava bem na década de 1970 e 80, e se “deixou o barco correr”…

