E mais: Ana Claudia Quintana Arantes fala para público diverso
Por Dinah Ribas Pinheiro – Dois temas que se interligam pela profundidade superlotam espaços nobres de Curitiba. No Teatro Bom Jesus, em plena quinta-feira, a médica paulista geriatra, especialista em cuidados paliativos, Ana Claudia Quintana Arantes foi aplaudida de pé após a sua palestra A Morte é Um dia que Vale à pena Viver. No sábado da mesma semana, com o Guairão repleto, a atriz Vera Holtz, encena, o monólogo Ficções baseado no livro Sapiens: Uma breve história da Humanidade, do israelense Yuval Harari. Dois momentos que nos fazem refletir sobre a vida no planeta, conflitos existenciais, inicio e fim da existência.
Além de uma carreira independente de cursos e palestras pelo Brasil afora, a paulista Ana Claudia participa ativamente do movimento Alma Talks, em tradução livre do inglês, A Alma Fala, criado em 2022 pela professora e palestrante Ana Lucia Galvão. A plataforma é conhecida pelos podcasts sobre filosofia e arte bem como pelos summits realizados em diversas capitais brasileiras com cursos e palestras sobre a temática da espiritualidade e auto-conhecimento.

Ana Claudia se encaixa perfeitamente nestes conceitos de viver/morrer com dignidade, quando ela alerta sobre a fuga dos seres humanos sobre a importância do tema. “Partindo do princípio de que não vamos viver para sempre, é importante que a gente viva com plenitude até chegar a hora. O medo não diminui em nada o nosso tempo nem alivia as perspectivas de doenças e desconfortos”, argumenta a médica. De forma leve, sua fala aconselha uma vida saudável com boa alimentação, exercícios físicos, bons relacionamentos sem preocupações com a idade e suas conseqüências. Em resumo, ela trata de forma humanizada a partida para o outro plano, e ajuda a aceitar melhor a morte das pessoas queridas e a nossa própria.
Seu primeiro livro, que leva o mesmo nome da palestra em Curitiba, lançado em 2016, é considerado um best seller, com mais de 500 mil exemplares vendidos e diversas edições. Os outros títulos da autora: Histórias Lindas de Morrer (2020), Pra Vida Toda Valer à pena (2021), Mundo Dentro: poesia de Sobrevivência (2025). O psicólogo Ângelo Faleiro escreveu no seu blog: “Alguns termos usados por Ana Claudia vão demorar para sair da minha mente. Ela fala sobre zumbis existenciais, “pessoas que vivem sem viver, que estão ausentes de suas próprias vidas, sem conexão consigo e com os outros; para essas pessoas, só falta morrer fisicamente”.
Harari por Vera Holtz
O historiador, filósofo e professor israelense Yuval Noah Harari (1976) é conhecido mundialmente por best-sellers que abordam a história da humanidade e o futuro da tecnologia. Ele é professor no Departamento de História da Universidade Hebraica de Jerusalém. O livro mais conhecido do pensador, Sapiens: Uma Breve História da Humanidade, lançado em 2011, vendeu milhões de exemplares e explora a trajetória humana, desde a Idade da Pedra até o presente. Sua frase “Num mundo inundado por informações irrelevantes, clareza é poder. E a censura não funciona bloqueando o fluxo de informações, e, sim, inundando as pessoas com desinformação e distrações”. Isso resume o cerne do seu pensamento com relação às crenças e dogmas adquiridas pelos seres humanos durante o decorrer da existência, de forma aleatória.

Vera Holtz, uma das mais importantes atrizes brasileiras da atualidade quis beber na fonte do mestre e sob a adaptação e direção de Rodrigo Portela, encena o monólogo Ficções , inspirado no livro.” A peça explora a capacidade humana de criar narrativas coletivas como dinheiro, nações e deuses para organizar a sociedade”. A atriz interage com o público, canta e usa humor para questionar o que é real e o que é ficção. Durante todo o espetáculo ela se refere a si mesma ao falar e questionar o público, em outros momentos representa personagens fictícios e em outros ela fala com o próprio autor na persona de um marido fictício que também leva o nome de Harari.
O espetáculo estreou em 2022 e recebeu aclamação nacional, ganhando o Prêmio Shell de Melhor Atriz em 2023. Mais de 200 mil espectadores assistiram à montagem, pelo Brasil afora e também em Portugal. Em Curitiba foi vista no Festival de Teatro do ano passado voltando para mais apresentações em fevereiro deste ano. A cenografia é minimalista. Uma pedra gigante representa um meteoro que ao rasgar o Cosmos numa velocidade assustadora acaba caindo no planeta Terra. Vera vestindo um traje meio claro/meio escuro, longo, de mangas largas, se assemelha a um ser primitivo que representa os primeiros habitantes no seu percurso existencial de povoar Gaia.
De primata, Holtz passa a imperador da Babilônia, asno com pinta de professor, fóssil em busca de identidade, visitando o trágico que chega com a força da atualidade onde uma mulher é tiranizada e abusada. É a partir desses personagens que toda a narrativa acontece. Ao lado do violoncelista Federico Puppi, também compositor das músicas, os dois interagem o tempo todo. O público não pode se distrair em nenhum momento para não correr o risco de perder com quem a atriz está dialogando ou o que ela está querendo dizer. A narrativa fragmentada é um dos pilares da encenação. “Eu queria uma peça espatifada, que não conduz o espectador pela mão. O público é provocado a construir o espetáculo com a gente. É quase uma jam session, uma performance em permanente construção”, descreve Portella.

A jornalista Gabriela Mellão, da Revista Bravo resume a caminhada da personagem pelos caminhos da realidade e ficção que o espetáculo oferece após concluir que os avanços da tecnologia não transformaram a Terra num planeta melhor do que no tempo das cavernas. “Ela vai terminar sua jornada nômade como seus ancestrais, rejeitando, se não todas, ao menos uma boa parte das construções que o homem criou com o intuito de organizar e fazer progredir a sociedade como dinheiro, sistemas políticos, religiões, ideologias, cujo resultado hoje é: de um lado a disparidade social, do outro, o aprisionamento progressivo das liberdades individuais. Holtz tenta conscientizar seus companheiros de raça do descontentamento sobre o fato de que apesar da humanidade contemporânea ser mais poderosa em relação aos seus ancestrais não é mais feliz e deveria fazer algo a respeito disso”.
No livro, um fenômeno com mais de 23 milhões de cópias vendidas em todo o mundo, Harari compõe uma narrativa histórica de todas as instâncias do percurso humano sobre a terra para leitores comuns. Com rigor científico e linguagem acessível, explica de forma leve o descontentamento do Homo Sapiens que se tonou espécie dominante no planeta. “Além do conteúdo, a linguagem da obra também inspirou a adaptação do autor e diretor que ganhou todos os prêmios importantes do teatro brasileiro na última década”.

*Dinah Ribas Pinheiro é jornalista e escritora, especialista em Jornalismo Cultural. Trabalhou por duas décadas na Assessoria de Imprensa da Fundação Cultural de Curitiba. Exerceu a mesma função na Escola do Teatro Bolshoi em Joinville. Assessora de Comunicação no BRDE e no espaço cultural do Palacete dos Leões. É autora dos livros “A Viagem de Efigênia Rolim” nas Asas do Peixe Voador e “Teatro de Bonecos Dadá-Memória e Resistência”.
