Por Dinah Ribas Pinheiro – O título é um tanto intrigante: Bala de Goma Numa Terra que Desmorona. Qual o elo entre a guloseima e a paisagem semelhante às das tragédias que vimos recentemente no Nepal, em Mariana e em Brumadinho? Como interligar os desmoronamentos que fazem parte do cenário do espetáculo, com caramelos tão apetitosos? Para decifrar o enigma foi preciso entrar na alma de Fátima Ortiz, Pedro Bonacin e ErtaAle (Alexandre Bonin), atores no palco do Mini Teatro Guaira, na peça em cartaz no final de agosto.
A delícia tão apreciada pelas crianças e adultos surgiu no Egito, dois mil anos A.C, onde se faziam preparos gelatinosos usando goma arábica. Na Turquia, os lokum, ou Turkish delight (delícia turca), eram feitas de amido de milho e foram testadas pelo confeiteiro Bekir, que criava doçuras para o sultão Abdul Hamid no final do século XVIII. No Brasil, e em Curitiba, principalmente, a iguaria é tão apreciada que entrou no cardápio do espetáculo teatral, que só volta aos palcos no próximo ano.
Tanto as balas como os desabamentos representam um mistério nas falas dos atores que encenam a sofrência da solidão, perdas, luto, saudade. Esta intrincada teia ronda o enigma da existência humana. Nada é o que parece ser. Há também um ato de sobrevivência nesse emaranhado. Não é difícil se chegar à compreensão de que mesmo em situações trágicas, noites de tempestade e redemoinhos intensos é preciso continuar a existir, mesmo que não seja mastigando uma bala de goma. Podemos inclusive emprestar do poeta amazonense Thiago de Melo a frase Faz Escuro Mas eu Canto, título de um de seus poemas mais conhecidas.
Balas de Goma Numa terra que desmorona é uma criação teatral em parceria com a Sim Companhia de Teatro e o Palco Escola, como parte das comemorações dos 31 anos da Escola de Teatro Pé no Palco, em Curitiba. A direção é de Vanessa Corina que adaptou textos do grupo e os fundiu numa só história. A música da peça executada pelos músicos/atores Noe Carvalho e Leon Adam, não é somente uma trilha sonora, ela faz parte do próprio espetáculo e cria uma ambiência toda particular para cada cena. A proposta da montagem é falar sobre o poder de resistência dos seres humanos em sobreviver às suas próprias catástrofes, às suas próprias mudanças, seus renascimentos.

Segundo relato de Fátima Ortiz, a montagem “é um trabalho que comemora o encontro de nós, os principais integrantes do Pé no Palco, juntos desde 2002, quando a gente inaugurou a companhia com a peça O Conto da Ilha Desconhecida, do texto de José Saramago, no Festival de Teatro de Curitiba daquele ano. Estamos agora celebrando essa relação de amizade e parceria. Trata-se de um momento de criação muito prazeroso, apesar de angustiante. Mexeu muito comigo, com meu emocional, por abordarmos o luto, e a finitude. Junto com isso eu também estava fazendo uma mudança de casa, saindo do apartamento onde eu morei por 16 anos com meu marido, o ator e diretor Enéas Lour, falecido em 2024, e ocupando um outro espaço. Quem vive o teatro na sua forma mais profunda, não tem como separar as emoções pessoais do seu trabalho no palco”.
Fátima, criadora do projeto Pé no Palco aprofunda a reflexão sobre o teatro: “Hoje, para pensarmos em Arte e Educação e sobre o lugar do teatro devemos olhar para a história da humanidade como uma caminhada evolutiva. Podemos constatar que estamos dando um salto tríplice: novas fontes energéticas, novas formas de divisão do trabalho, novas formas de poder. Tudo isso somado às novas percepções acerca da repercussão da realidade virtual em nossas vidas. Essas transformações demandam uma nova forma de pensar o planeta, as relações humanas e o convívio criativo”.
Os companheiros do Pé no Palco, que também foram seus alunos falam sobre a idealizadora do projeto: “Cinquenta e cinco anos é um marco na trajetória desta mestra, que constantemente nos provoca perguntando aos artistas jovens e experientes a seguinte questão: Porque eu faço teatro? Pra quem? Para quê? E assim ela revigora nossas certezas e nos faz avançar com segurança e visão de futuro. Fátima Ortiz é uma mulher que se mantém atualizada às novidades do mundo e ao mesmo tempo enraizada na ancestralidade da arte de mestras e mestres que vieram antes dela. são existências que contribuem de forma estruturante e transversal para o desenvolvimento de diversos elos das redes criativas e produtivas das artes, preservando e ressignificando tradições, e inspirando diversas gerações de artistas”.
O testemunho vivo do seu engajamento está neste seu trabalho recente onde ela, vestida de Rainha aparece numa cena acompanhada de um Índio e um Negro numa forma visível de inclusão.

Em entrevista para as comemorações dos seus 50 anos de teatro, Fátima Ortiz fala sobre o atravessar das últimas décadas como artista no Brasil e ressalta a importância da valorização da arte, das experimentações e vivências criativas, dos desbravamentos dos artistas e dos grupos. Pontua em sua fala, que hoje, os artistas que insistiram, resistiram são história viva e devem ser celebrados no momento presente, no aqui e agora:
“Estávamos, nós trabalhadores da Arte, no século XX, vivendo os anos 70, período de transformações gigantescas. Expressamos o florescer de novas posturas, tomamos as rédeas de um fazer revelador da sociedade e das relações humanas. Entramos na década de 80 empossados do status de classe teatral, com a profissão regulamentada e movidos por tudo que veio antes de nós. Construímos o futuro na última década do século, já treinados aos limites e às dificuldades do ofício. Alguns bateram em retirada para fora da cidade ou tentaram a sorte em outra profissão. Muitos de nós seguimos na ativa; e agora na segunda década do século XXI: Somos história viva, andando por aí!”
Para Fátima, escrever, dirigir e ensinar formam uma tríade potente que deu origem a uma metodologia singular de ensino/aprendizagem da arte utilizada nos cursos livres de teatro e nos projetos sociais com crianças e jovens. O modo de ensinar e despertar a sensibilidade para o teatro, concebido pela sua prática foi passado ao longo dos anos para novos arte-educadores e professores que tiveram a oportunidade de estudar, estagiar e trabalhar na equipe do Pé no Palco.
As ações sociais promovidas no projeto são fruto do encontro entre artistas e comunidade. Escolas, pais, mães, avós, professoras, famílias, comerciantes, jovens, crianças, arte educadores, artistas, produtores, patrocinadores, apoiadores, todos unidos numa mesma certeza de que o encontro criativo e sensível com a arte e o teatro é capaz de transformar realidades e colaborar para um mundo melhor e mais justo”. Todos estes movimentos foram favorecidos pela liderança e pelas sementes plantadas e regadas por ela, na orientação de uma equipe dedicada a enfrentar as dificuldades e manter o idealismo, a construção de uma utopia e a efetiva concretude das ações.
Fátima Ortiz é atriz, dramaturga, diretora, gestora cultural e arte-educadora, considerada uma das mais importantes personalidades do teatro infantil no Brasil. Autora de diversos livros, alguns em parceria com o seu marido, Enéas Lour, e outros com Rosy Greca, que realiza todas as trilhas sonoras dos seus espetáculos. Doutora em Teoria Literária pela Uniandrade recebeu diversas premiações ao longo destas cinco décadas.
Pedro Bonacin e ErtaAle dividem com Ortiz as gostosuras das balas de Goma e o pisar nas terras desmoronadas de um lugar qualquer, neste ou em outros planetas. Ambos são atores, diretores e arte- educadores formados pelos Cursos Livres de Teatro Pé no Palco. Atualmente são gestores e coordenadores dos cursos livres. Suas carreiras tiveram início na Companhia onde trabalharam profissionalmente em mais de 20 espetáculos além de dirigir mais de 80 montagens na mesma Escola. A carreira dos dois extrapolou as funções de educadores, quando partiram para o áudio visual em séries e curtas metragens. ErtaAle coordenou algumas pesquisas no palco, dentre as quais, Hibridismo entre Teatro e Música.

*Dinah Ribas Pinheiro é jornalista e escritora, especialista em Jornalismo Cultural. Trabalhou por duas décadas na Assessoria de Imprensa da Fundação Cultural de Curitiba. Exerceu a mesma função na Escola do Teatro Bolshoi em Joinville. Assessora de Comunicação no BRDE e no espaço cultural do Palacete dos Leões. É autora dos livros “A Viagem de Efigênia Rolim” nas Asas do Peixe Voador e “Teatro de Bonecos Dadá-Memória e Resistência”.
