Missionários redentoristas, de laga tradição em missão popular, lutam contra o vírus; igrejas evangélicas históricas aceitam bem as restrições sanitárias. Micro-igrejas são as que mais reclamam

O sagrado foi duramente atingido em Curitiba, não perdoando, no universo católico, nem o Santuário de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, no Alto da Glória, que “rivaliza” com o Coritiba FC na atração de multidões.
Aquela paróquia semanalmente contabiliza a presença de 50 mil fieis vindos de todos os bairros para missas, orações e novenas (às quartas-feiras). Padre Celso Cruz, 55, redentorista, pároco do santuário, celebrou sua última missa no dia 27 de junho, e no dia 28 testou positivo para o covid. Coincidentemente, naquele domingo, o Perpétuo Socorro foi fechado em atendimento às então novas e gerais determinações sanitárias.
O coadjutor de padre Celso, padre Sérgio Lima, 35, também foi atingido, assim como dois seminaristas que lá trabalhavam, recuperam-se na Casa Paroquial.
Padre Celso Cruz continuava hoje, terça, 7, na UTI do Hospital Champagnat.
PREÇO DA MISSÃO
Há desdobramentos nesta investida da Covid-19 contra o sagrado: outros missionários redentoristas, conhecidos por capacidade de inserção nas massas, estão pagando caro pela dedicação votada ao pastoreio de almas. É o que acontece, por exemplo, no seminário de Filosofia do Redentoristas, localizado no Rebouças, onde desde o reitor – o ex-provincial nacional da congregação -, padre Joaquin Parron, e os seminaristas da casa foram atingidos pela Covid. Hoje estão sob cuidados especiais de um pneumologista que os atende todos os dias. Não correm risco de vida.
Parron continua ativíssimo, em casa, assim como as missas do Perpétuo Socorro estão seguindo em vias digitais (Internet e Facebook). Os redentoristas de Curitiba têm um enorme trabalho social, em que se inclui, entre outros, a distribuição de 1.500 cestas básicas mensais para famílias carentes, e atendimento de dezenas de internos na Chácara mantida em Quatro Barras (Estrada da Graciosa) para recuperação de
dependentes químicos, trabalhos feitos com apoio de 35 voluntários.
IGREJAS EVANGÉLICAS
Igrejas evangélicas, no geral, especialmente as históricas, indicam ter recebido com compreensão as decisões de fechamento dos templos para cultos. As que mais reclamam são as pequenas comunidades evangélicas independentes, geralmente pentecostais, muitas das quais reunindo suas assembleias para cultos em espaço diminutos. Mas sempre cheias, foco ideal para a infecção, pois.
Já com os evangélicos tradicionais, o quadro é de aceitação “diante da inexorabilidade da infecção, para a qual temos de ouvir as ordens dos médicos”, confessa à Coluna um pastor luterano de São Leopoldo, que a Coluna encontrou nesta terça em Curitiba, que pede ser identificado apenas pelas iniciais RHH.

PRESBITERIANOS
O pastor titular da Igreja Presbiteriana do Brasil (Central, Rua Comendador Araujo), reverendo Juarez Marcondes (que foi personagem do meu livro Vozes do Paraná) é realista, encara com clara resignação o momento. Diz que a sua igreja continua aberta, para atendimentos individuais, para eventuais aconselhamentos. Mas que segue à risca a proibição de realização de cultos.
Homem prático, de reconhecida força pastoral, com posição de direção no Supremo Concílio nacional da Igreja Presbiteriana do Brasil, reverendo Juarez não faz objeção alguma às normas sanitárias vigentes, ao dizer: “Estamos vivendo o momento laranja de controle da epidemia.
Não pode haver culto presencial. Estamos, em Curitiba, no Instagram e Facebook, e até vamos chegando a um número maior de fieis que atingimos usualmente na forma tradicional de culto. Agora há perto de 5 mil pessoas que nos acompanham via digital”.
Objetivo, Marcondes não aceita argumentos do que apontam Rio e São Paulo, ‘como exemplos’ de abertura dos tempos evangélicos nesta fase da pandemia: “Acontece que lá, na Capital paulista e no Rio de Janeiro, o vírus está em declínio. Aqui, pelo contrário, as contaminações crescem muito.”
Encerrando, reverendo Juarez Marcondes recomenda, com ameno tom pastoral: “Não esquecer que o importante é preservar vidas…”
BANCADA EVANGÉLICA
O pastor e deputado estadual Alexandre Amaro (Republicanos) falou na Alep protestando contra a decisão do juiz da Quarta Vara Pública de Curitiba que considerou “desrespeito à comunidade evangélica”.
O juiz desconsiderou a realização de cultos religiosos, nas igrejas, como essenciais para a cidadania. Amaro viu suposta interferência do Judiciário em decisão do Executivo estadual, já que recente decreto do governador estabelecera os locais de culto religiosos como áreas essenciais para a população.
CASAMENTOS E CATEQUESE
Padre André Biernaski, 61, uma unanimidade na aceitação entre o clero da Arquidiocese de Curitiba, por sua capacidade de unir pessoas, lamenta a falta de missas presenciais em sua paróquia, Nossa Senhora Aparecida, no bairro Seminário. Aos seus paroquianos, indica a missa pelo Facebook, ou apenas o áudio da missa pelo whatsapp.
André não está parado. Pelo contrário, envolve-se com muitos problemas “que vão ganhando dimensão enorme para a vida das pessoas”, diz, citando o caso de casamentos, que tem de adiar: “Exceto aqueles em que os noivos aceitam que se oficie o casamento com a presença apenas deles e uma testemunha”, explica.
O sacerdote reconhece que estão sendo criados muitos problemas “até psicológicos” com os adiamentos, geralmente transferidos para 2021. O mesmo se dá com a catequese infantil, para a qual a solução, admite, talvez seja usar meios digitais. Ou, simplesmente, entregar a tarefa aos pais.
