terça-feira, 24 fevereiro, 2026
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Como um padre arguto evitou grande “golpe” imobiliário

Arcebispo Dom Moacir Vitti e padre Fabiano Pinto
Arcebispo Dom Moacir Vitti e padre Fabiano Pinto

Nem sempre há paz de mosteiros em certos ambientes eclesiásticos, ao contrário do que se espera.

Muitas vezes, pode até haver uma guerra surda entre grupos encastelados – ou entrincheirados – em sólidas posições curiais e/ou em congregações religiosas e paróquias.

Verdade que dificilmente esses confrontos transparecem para o grande público, até porque as partes envolvidas – como no caso que relatarei a seguir – são homens discretos por profissão. Têm até voto de silêncio, no caso de confissões de que sejam depositários.

No entanto, até por isso, não posso deixar de registrar a surpresa com que fui saudado, ao final do almoço recente em homenagem ao arcebispo dom Pedro Fedalto, pelo padre Fabiano Pinto, ex-reitor do Seminário São José, da Arquidiocese de Curitiba:

– Prazer em conhecê-lo, senhor Aroldo, o senhor nem imagina ou bem que fez à Igreja Católica em Curitiba… Suas informações jornalísticas ajudaram a impedir um “crime” que seria a venda do Seminário Menor São José…

Padre Fabiano, soube depois, faz hoje doutorado em Direito Canônico na Universidade Pontifícia de Santa Cruz, em Roma.

O noticiado pela coluna deu-se no ano passado.

2 – DESCONHECIDO

O padre era até aquele almoço um ilustre desconhecido para mim, embora ele tivesse estado no epicentro do caso da venda citada, opondo-se à trama urdida por pelo menos 4 sacerdotes, uma beata, dois corretores/construtores de imóveis, um dirigente de faculdade, um pároco e um dono de fundação cultural-religiosa, além de um irmão (professor perpétuo) pertencente a uma congregação de educadores.

3 – A TERRA COBIÇADA

Seminário São José, em Orleans, Curitiba
Seminário São José, em Orleans, Curitiba

O objetivo do grupo – trabalhando separadamente, na maioria das vezes – era alienar para empresas privadas uma das áreas urbanas maiores e mais valorizadas, a do Seminário, 74 mil m2, localizada em Orleans.

A primitiva área, quando foi doada à Cúria, nos tempos de dom Manoel da Silveira D’Elboux por católicos do bairro de Orleans, anos 1950, era de 120 mil m2.

Fabiano foi relatando as dificuldades que ele enfrentou praticamente sozinho, apondo-se às tentativas – apoiadas por padres muito influentes junto ao então arcebispo Dom Moacir Vitti – de venda do imóvel.

Havia, na verdade, todo um clima criado para facilitar a alienação.

Uma das ‘táticas’ incluía periódicas noites de carteado, de amigos com o arcebispo e alguns desses “corretores”, leigos ou religiosos; outra tática envolvia a promoção de pescarias com o arcebispo, um aficionado da pesca, encontros que não tinham peixes como alvo, mas acabavam centrados na tentativa de venda do seminário. Não se pescava, tentava-se fazer negócio.

4 – “PODE ME DEMITIR”

Padre Fabiano foi duro na defesa do patrimônio da Igreja, já com amplo histórico de perdas irreparáveis, como aconteceu nos anos, 60, quando um monsenhor poderoso alienou área nobre “a preço de banana”. É o caso de área do bairro Seminário/Batel (Rua Heitor Guimarães e todas as quadras que vão até a Igreja Pio X), atrás do antigo Seminário Maior (hoje alugado ao grupo Positivo), vendida a imobiliárias que a transformaram em loteamento.

Foi uma operação de que a Cúria de Curitiba “jamais se recuperou, pela perda que significou”, diz à coluna um velho monsenhor.

As pressões acabaram sempre desandando no colo de padre Fabiano, que – baseado em seu “amor à Igreja” – opôs-se ferrenhamente à alienação.

Chegou uma hora que Fabiano ficou sozinho e ele teve de ser muito claro com o arcebispo: “Se depender de minha aquiescência, jamais o Seminário São José será vendido. Mas o senhor é o chefe: se quiser, demita-me…”

Dom Moacir voltou atrás, na verdade, depois de a “armadilha” contra o patrimônio da Igreja ter também repercutido no jornal Gazeta do Povo. O “golpe” tornou-se público e os arquitetos da alienação recolheram-se em copas, com seus “assessores eclesiásticos”.

5 – O FAZENDEIRO

Como o avô fazendeiro, da Lapa, padre Fabiano é conservador sobretudo com relação a patrimônio imobiliário. E com o ancestral aprendeu:

“Nunca se vende imóvel, só se compra mais…”

Mas houve uma série de desdobramentos e histórias, algumas até hilariantes, envolvendo a tentativa de venda do Seminário São José. Uma delas: a irrisória oferta de um grupo educacional que queria comprar o enorme imóvel para lá montar uma escola, tendo ofertado apenas “a construção de duas casas pequenas para o novo seminário”. A justificativa é a de que seminários “não mais podem ser grandes…”

E houve outra oferta ridícula: um pretendente quis pagar R$ 800 mil pela área, que, na verdade, não tem preço, tal sua localização e tamanho.

Quantos milhões vale?

Mas houve interessados que arriscaram “preços mais ou menos dentro da realidade de mercado”, diz Fabiano, sem mencionar o quantum. R$ milhões, com certeza.

6 – ENTRA A SANTA SÉ

Esperto, estudioso, padre Fabiano, num determinado momento das pressões dos que queriam terreno para lá montar condomínios residenciais de alto padrão, foi direto a dom Moacir. E lembrou ao homem que decidiria o assunto, e que já estava convencido de que a alienação seria um grande negócio. Disse-lhe:

– Seus assessores, dom Moacir, esqueceram de lembrar-lhe que em casos como esse, dessa monta, a Santa Sé tem de ser ouvida. Vender o imóvel sem ouvir o Vaticano fere o Direito Canônico, até porque a Santa Sé tem direito a um percentual sobre as vendas…

Essa advertência pode ter sido a pá de cal no assunto, juntamente com a repercussão que o caso ganhou na mídia.

Padre Fabiano, que está de volta a Roma, e que foi um dos beneficiários em sua formação do Seminário São José, contempla feliz a casa que abriga aspirantes ao sacerdócio, o Colégio Arquidiocesano e aulas da Faculdade de Filosofia da Arquidiocese.

Na verdade, o Seminário teve, naqueles dias da pressão, a ponto de fechar – ou suspender suas atividades – porque o velho telhado estava caindo. Foi salvo por generosa doação feita pelo empresário Guilherme Beltrão Almeida, que desembolsou R$ 100 mil para nova cobertura do São José.

7 – NÃO FAZ PESCARIAS

Fabiano é objetivo, diz-se aliviado: “Agora sei que o Seminário São José não será mais alienado. O arcebispo Dom José Antonio Peruzzo é francamente a favor de sua manutenção. E ele mesmo teve sua formação básica no São José”.

E por último, em tom de blague, garante: “O novo arcebispo não faz pescarias nem joga carteado…”

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