
“Possa sua face aterrorizar os inimigos da verdade”, dizia o celebrante na sagração do bispo, no rito tridentino – aquele chamado de Rito de Pio V -, pré-Concílio Vaticano II.
Essa lembrança sobre a importância que antigamente se atribuía a um bispo da Santa Igreja Romana eu a recolho do livro “Como se faz um bispo, segundo o alto e o baixo clero”, do ex-teólogo jesuíta brasileiro J.D.Vital, edição de 2012 da Civilização Brasileira. E no qual me baseio para alguns comentários em torno do “projeto mitra” que tanto acalenta certos padres. Ontem, o livro, lido há anos com muito interesse, voltou-me às mãos. O motivo: a escolha, pela Santa Sé, do sacerdote Ricardo Hoepers, 45, da Arquidiocese de Curitiba, curitibano, um doutor em Moral pela Accademia Alfonsiana de Roma, mestre em Bioética, diretor do Studium Theologicum de Curitiba, conferencista de muito bom desempenho, para ser bispo da Igreja.
Ricardo é orientador espiritual e diretor-conferencista do Instituto Ciência e Fé de Curitiba (“Fidelis et Constans”)
CIDADE HISTÓRICA
Ricardo foi designado, conforme dado ontem a conhecer, para a diocese da cidade de Rio Grande, a quarta mais importante do Rio Grande do Sul, historicamente a mais expressiva daquele Estado. Não é grande, deve ter umas 20 paróquias, 6 cidades, centenas de capelas, diversas obras religiosas. O porto da cidade é um dos mais importantes do país e lá. E os limites territoriais do curitibano para exercício de suas funções de bispo irão ao Chuí, ponto extremo sul do Brasil.
“Eu me lembro que Ricardo não ficou silencioso diante do voto de um ministro do STF sobre a questão de aberto de fetos anencéfalos. Defendeu o direito à vida com garras de um cruzado moderno em carta de fortes acentos, enviada à Sua Excelência.”
Rio Grande é cidade nascida no século XVII, fundada por portugueses, muitos deles – acho eu – cristãos novos vindos de Portugal. Lá nasceu o primeiro e mais importante instituto de estudos oceanográficos do país, mantido pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
A notícia foi muito comemorada, especialmente em Curitiba, por professores, estudantes, padres e uma multidão de amigos, paroquianos e ex-paroquianos, que padre Ricardo Hoepers cultivou ao longo dos anos. Posso assegurar que Hoepers ganhou sólida aceitação e acatamento em parte da comunidade católica de Curitiba, especialmente nos anos – começo da década – quando foi pároco da Igreja de São Francisco de Paula, na Rua Des. Motta.
“Ele é um aglutinador, e como bispo não se interessará por poder e ressonância do cargo. Ele sabe que bispo deve ser servidor, num mundo marcado pelo secularismo e o agnosticismo e a presença avassaladora de seitas”, diz o médico oncologista Raul Anselmi Jr.
– “Padre Ricardo nunca fugiu do debate, em defesa da fé”, me lembrava ontem o professor e oncologista Cícero Urban, vice-presidente do Instituto Ciência e Fé de Curitiba. Por exemplo, nunca teve receio de atender a convites para debates universitários sobre temas polêmicos, como aborto e células tronco …
Eu me lembro que Ricardo não ficou silencioso diante do voto de um ministro do STF sobre a questão de aberto de fetos anencéfalos. Defendeu o direito à vida com garras de um cruzado moderno em carta de fortes acentos, enviada à Sua Excelência. Não sei se em Rio Grande terá o mesmo clima intelectual pela frente. Mas o certo é que os gaúchos são bastante dos debates em torno de suas ideias, de que não desistem com facilidade.
E na cidade próxima, e maior, Pelotas – com uma universidade federal e outra Católica – não lhe faltarão espaços para expor seu pensamento, especialmente em Bioética, a qual olhará sempre à luz do magistério de Pedro.
POR TRÁS DA NOTÍCIA
A escolha de padre Ricardo para bispo não foi “mansa e pacífica”, como se poderia esperar. Isso numa primeira instância, quando, há pouco mais de um mês, o nome do ainda pároco de Santo Agostinho, no Centro Cívico, foi examinado – juntamente com pelo menos mais 5 sacerdotes de Curitiba – como possível para receber a mitra.
“De qualquer forma é bom anotar: se depender da avaliação do Conselho Presbiteral de Curitiba, dificilmente um padre local será encaminhado ao episcopado”
O colegiado que fez o exame – com poder de veto, e que acabou exercitando de forma geral e irrestrita – foi o Conselho Presbiteral da Arquidiocese de Curitiba. Trata-se de grupo de 9 padres, alguns deles considerados de “relevantes serviços à Igreja”. Uma verdade parcial, claro. Na prática, aconselham o arcebispo na tomada de grandes decisões.
A reunião, segundo me conta fonte do referido Conselho, foi de “uma queimação geral”. Um dos padres mais cotados, Pedro Carlesso, doutor em Roma, homem exemplar e com larga experiência no sacerdócio, foi vetado por “ser muito velho”. Tem apenas 62 anos…
Outro nome que esteve na berlinda foi o do padre Kleina, que agora dirige Imaculada Conceição, no Guabirotuba, então pároco de Vila Hauer. Foi tido como “muito exposto ao modernoso”, sem que se entenda exatamente o que quer isso significar. Sabe-se que o padre, muito cuidadoso com aparência e no trajar, é consumado motoqueiro, o que não é pecado. Padre Chemim, dono de um bom currículo acadêmico, ex-formador no Seminário Maior da Arquidiocese, teria “rodado” por “não ser exatamente um homem de muito diálogo”. Mas ele, sendo psicólogo e bom conselheiro espiritual, sempre se deu bem dialogando…
Padre Ricardo Hoepers – que logo será Dom Ricardo Hoepers – também “dançou” no exame em que os juízes foram seus colegas padres. Soube, mais tarde, que Ricardo teria sido “queimado” por um padre na faixa dos 50anos, de paróquia da RM de Curitiba, que tem contencioso com Hoepers, envolvendo questiúnculas administrativas desimportantes geradas em tempos em que dividiram o mesmo espaço paroquial.
Há outros, menos cotados, que entraram no Raios-X do Conselho Presbiteral e foram vetados. Ficam na geladeira Ricardo, conhecido pela prudência, homem de diálogo, que evita situações polêmicas, bolas divididas e conversas “de Matilde” – muito caras a meios religiosos -, um intelectual maduro e dono de funda capacidade de estudo, deve ter-se julgado fora do jogo episcopal, quando os “resultados” da avaliação transpiraram.”
“SAIU DA PARÓQUIA”
Há uns 12 dias, a mesma fonte que me mantém atualizado de realidades da Igreja local, me assegurava: “O caso padre Ricardo voltou à tona, saiu da esfera local, agora está nas mãos do Núncio e de autoridades do Vaticano”. Com isso, a fonte me queria dizer: “Acho que até o arcebispo deve ter sido ouvido novamente e deve ter palavra de apoio à entrega do báculo a padre Ricardo”, cravou.
Quem decidiu, na fase final da escolha, deve ter sido mesmo o arcebispo Peruzzo, com o placet do Núncio.
De qualquer forma é bom anotar: se depender da avaliação do Conselho Presbiteral de Curitiba, dificilmente um outro padre local será encaminhado ao episcopado. Sua capacidade de exercitar o veto já é mais ou menos costumeira. Ou histórica, de que já sabia bem o antigo arcebispo dom Vitti, que um dia abordou essa preferência pela guilhotina do clero local.
QUEM É RICARDO
Padre Ricardo Hoepers é natural de Curitiba. Nasceu em 16 de dezembro de 1970. Filho de Francisco Hoepers e Doraci dos Santos Hoepers. Ingressou no Seminário Arquidiocesano São José aos 19 anos. Cursou Filosofia na Universidade Federal do Paraná e Teologia no Studium Theologicum.
Recebeu a ordenação presbiteral em 31 de janeiro de 1999. Possui especialização e mestrado Bioética. É doutor em Teologia Moral para Accademia Alfonsiana de Roma. Na trajetória como padre, foi diretor da Faculdade de Filosofia da arquidiocese de Curitiba (2002-2003), coordenador geral do clero (2005 a 2008), membro do Conselho Presbiteral e do Colégio de Consultadores, assessor eclesiástico da pastoral da Pessoa Idosa, no regional Sul 2 da CNBB. É autor do livro “Teologia Moral no Brasil: um perfil histórico”.
