terça-feira, 14 abril, 2026
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Como construir uma cidade sustentável

Jaime Lerner
Jaime Lerner

As cidades têm um significativo impacto nas mudanças climáticas: estima-se que essas áreas urbanas são responsáveis por 75% das emissões do efeito estufa… (-) Se a maioria da população mundial vive em cidades, e as atividades urbanas têm um largo impacto ambiental, é delas que virão as soluções para o meio ambiente.

Em síntese, este é o resumo da mensagem de Jaime Lerner, no artigo “Como construir uma cidade sustentável”, que o ex-prefeito de Curitiba, ex-governador, urbanista e arquiteto publicou na edição de segunda-feira, 7, no New York Times.

Longo, o ensaio de Lerner equivale a uma aula especial nestes dias em que o mundo parece se comprometer em Paris para evitar o caos ambiental.

Assim, registra a coluna alguns fragmentos do artigo que a pintora Bia Wouk me manda, recomendando que se acesse ao texto do NYT.

Diz Lerner: “Creio firmemente que as cidades podem prover as soluções para os desafios com que elas se defrontam e nós nos defrontamos; que cada cidade, independente do seu tamanho e riqueza, pode significativamente implantar (as soluções) em dois ou 3 anos; e que são elas o último refúgio de solidariedade da nossa sociedade”.

AS MEGACIDADES

BRT em Quito, Equador
BRT em Quito, Equador

Lerner observa que, como as megacidades vão crescendo mais, e mais populações deixam as áreas rurais, cada cidade deveria priorizar 3 pontos que têm grande impacto na qualidade da vida urbana, começando por achar respostas que sustentarão nossa sociedade em longo termo: mobilidade, sustentabilidade e sociodiversidade.

Para Lerner, as cidades “devem ter prioridades sobre os carros; as pessoas devem ter prioridade sobre os carros; carros têm sido produzidos por pouco mais de cem anos, mas o espaço que eles têm tomado e o total de infraestrutura que demandam são extremamente altos”.

Uma frase de grande efeito – e que pode gerar muitas reflexões -, é aquela com a qual o urbanista se refere ao carro:

– Os carros são os cigarros do futuro.

E observa mais, nesta linha, Jaime Lerner:

CARRO USURPADOR

– Carros ocupam mais espaço que qualquer ser humano. E, em média, o espaço para estacionamento de um carro ocupa 25 metros quadrados. Ora, seu carro ocupa 25 metros quadrados nas proximidades de sua casa: Se você o dirige para o serviço, ocupa outros 25 metros quadrados nas proximidades de seu trabalho, isso significa que um total de 50 metros quadrados são imobilizados para o estacionamento do veículo.

E mais diz Lerner:

– Pense, por outro lado, nos incríveis benefícios se, pelo menos, parte dessas áreas fossem usadas para combinar casa e emprego; e fossem (esses espaços) apropriados pelo pequeno edifício de negócios comunitários, como padarias, cafés, livrarias, floriculturas e escritórios, ou por pequenos parques verdes.

O BRT É NOSSO

A prioridade pela mobilidade urbana deveria prover um confortável e seguro uso do transporte público. Cada modal (trem, metrô, ônibus, taxi, bicicleta) deve operar otimamente e estar integrado numa “network do trânsito”, opina.

Lerner é taxativo quando assegura:

– Minha crença é que o futuro do transporte público repousa em sistemas como o Bus Rapid Transit (BRT), identificado por alguns como “metrô de superfície”. (…)

– “Por causa de sua boa performance o BRT (é mais barato que construir metrô) e com flexibilidade para implementação. É o sistema que começou na cidade brasileira de Curitiba em 1974, agora está em cerca de 200 cidades mundo afora, incluindo Bogotá, Seoul, Istanbul, Beijing, Rio de Janeiro e muitas outras deverão adotar o BRT”.

E acentua o ex-prefeito de Curitiba, com quem nasceu o BRT:

– “Eu vejo o BRT, no futuro, tornando-se um sistema movido por veículos a eletricidade, pneus, correndo em faixas exclusivas, reabastecendo-se em cada parada”.

EVITAR DESPERDÍCIOS

Recomenda Jaime Lerner, diante das questões de sustentabilidade, que a chave para resolvê-las, é evitar o desperdício de energia, tempo e recursos. E que cada um use seu carro comedidamente, assim como promova a reciclagem do que pode ser reciclado.

Uma cidade saudável, na opinião de Lerner, é uma estrutura integrada de vida, trabalho e movimento. Isso requer um desenho urbano que respeita a terra e a área do ecossistema: a topografia, fontes de água e a vegetação.

Esse desenho deve guiar investimentos públicos e privados, envolvendo o inteligente uso da densidade, compactação e a mistura de usos.

CIDADE-ESPERANÇA

“A cidades devem oferecer esperança, não desespero. O senso de identidade dividida, o sentimento de pertença a um lugar específico amplia a qualidade de vida. A cidade deve prover pontos de identidade aos quais as pessoas podem se referenciar e conectar – rios, parques, edifício públicos.

Tais espaços contam histórias e protegem as memórias, como um diário ou um álbum de retratos de família. Ao mesmo tempo a identidade da cidade é preservada…”

E opina Lerner:

Uma cidade não pode ter guetos, com áreas de ricos e pobres, ou para pessoas de grupos étnicos específicos, ou grupos de certas faixas etárias. Muros e cercas são barreiras ilusórias de proteção: segurança deve existir em função do respeito e da civilidade, que derivam garantir a integração e coexistência.

Para Lerner, o desenho da cidade deve ser a construção coletiva, partilhando sonhos, de tal forma o sentimento de corresponsabilidade informe nossos esforços.

Não acha o urbanista que o consenso deve ser encontrado em cada passo do caminho. “A procura pelo consenso absoluto pode se dirigir para um estado de paralisia”.

Para ele, “democracia não é o consenso, mas permanente conflito que a sociedade tem de arbitrar com grande sensibilidade. Políticas de longo alcance devem ser ajustadas por meio de constantes feedback do povo”.

UNILIVRE

Lerner lembra, no artigo, que a criação da UniLivre, a Universidade do Meio Ambiente, em Curitiba, deu novas definições a uma área então deprimida, fazendo nascer um parque urbano devotado a discussão ambiental.

Citou o fato como exemplo de acupuntura urbana.

Para mim, que acompanho Lerner desde os primeiros dias da grande intervenção urbana que ele promoveu em Curitiba, o artigo agora publicado no mais importante jornal de todo mundo apenas reafirma a prédica que o ex-prefeito de Curitiba começou a enunciar no começo dos 1970. E que, por “coincidência”, é apropriada amplamente por todos os que estão – quarenta anos depois – em busca de soluções para cidades sustentáveis. É a nova pregação do momento. Uma prova de que Lerner não falou no deserto.

NOTA:

Eis a mensagem de Bia Wouk, recomendando o acesso ao link com a íntegra do artigo de Lerner:

Bárbaro! Viva Jaime!

http://www.nytimes.com/2015/12/07/opinion/how-to-build-a-sustainable-city.html?emc=edit_ty_20151208&nl=opinion&nlid=32269818

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