quinta-feira, 19 fevereiro, 2026
Home#Colunas do MuralColunista pode usar IA na escrita? Praticidade ou desrespeito?

Colunista pode usar IA na escrita? Praticidade ou desrespeito?

Lembro-me de quando recebi o convite para escrever em um jornal, anos atrás. Comentei com meus colegas de trabalho que estava surpresa, pois, poucos meses antes, havia ocorrido uma discussão acalorada sobre não jornalistas escrevendo em veículos de imprensa.

Na época, eu compreendia a queixa dos profissionais – e continuo entendendo -, mas é inegável que o mundo mudou com a internet e as plataformas que temos hoje. As discussões agora são outras. Há alguns dias, deparei-me com uma matéria em um dos maiores jornais do país assinada por uma empreendedora do ramo da estética. Ela faz sobrancelhas com atendimentos que podem ultrapassar os 12 mil reais. Trabalhando nesse nível, imagino que seu tempo seja realmente escasso, como ela mencionou em sua coluna. Essa foi a justificativa usada por ela (ou pelo chat) para defender o uso de IA na produção de seus textos.

Eu utilizo a IA no meu dia a dia. Ela me ajuda a instalar produtos, tira dúvidas corriqueiras, auxilia em pesquisas e até corrige a gramática de materiais que envio. Não pretendo dominá-la de forma profissional. Ainda que eu assine esta coluna e uma newsletter semanal, minha formação é em Arquitetura e minha profissão atual é Cigar Sommelière.

Certamente, se eu pedir para a IA criar uma harmonização, ela o fará. No entanto, ela não será capaz de analisar as nuances que transcendem as regras técnicas. Ela não escuta o cliente, não observa seu humor, o ambiente, a temperatura ou o clima. Existem elementos subjetivos que vão muito além da técnica, mas são fundamentais para um bom resultado.

Olhar para uma página em branco por horas é normal para quem escreve – e digo isso sem qualquer pretensão de adicionar o cargo de “escritora” ao meu LinkedIn. Mas acho um desrespeito com todos os empreendedores, médicos e profissionais liberais (graduados ou não) que assumem a responsabilidade de assinar um texto em um jornal e, de fato, o escrevem sem recorrer a robôs.

O tempo está escasso para todos, cara colunista, e garanto que, pelo pouco que a IA me disse sobre sua jornada, suas 24 horas rendem muito mais do que as dos colegas que enfrentam, diariamente, o desafio da página em branco.

*Carolina Macedo é curitibana, empresária, cigar sommèliere e pioneira no universo dos charutos, atuando à frente da Bulldog Tabacaria e abrindo espaço para mais mulheres no setor. Fala sobre este universo, além de agendas de cultura e lazer.

Leia Também

Leia Também