Assessoria – Thriller adulto dirigido por Filipe Matzembacher e Marcio Reolon, Ato Noturno chega aos cinemas nesta quinta-feira (15), com distribuição da Vitrine Filmes pelo projeto Sessão Vitrine Petrobras. Ambientada em Porto Alegre, a história acompanha um ator e um político que vivem um caso em sigilo e, juntos, descobrem ter fetiche por sexo em lugares públicos. À medida que se aproximam da fama, mais intenso se torna o desejo de se colocarem em risco.
Até o momento, as praças confirmadas são: Aracaju, Brasília; Maceió; Manaus; Poços de Caldas; Porto Alegre; Rio de Janeiro; Salvador e São Paulo. A classificação indicativa é de 18 anos.
Produções que transformam a cidade em parte ativa da narrativa ganham força dramática e Ato Noturno realiza esse movimento com grande precisão. Rodado e situado em Porto Alegre, o filme articula um contraste entre ambientes privados e afetivos da capital e espaços emblemáticos como o Parque da Redenção, a Avenida Mauá, o Theatro São Pedro e a Praça da Matriz. Esse jogo de cenários constrói uma paisagem que reflete diretamente a duplicidade vivida pelos personagens: homens que circulam entre a exposição da vida pública e experiências íntimas que acontecem fora do olhar social.
Ato Noturno reafirma a marca autoral de seus diretores ao investigar a sexualidade e o encontro entre intimidade e cidade. Com referências hitchcockianas e se inspirando em ‘Instinto Selvagem’ (1982), ‘Dublê de Corpo’ (1984), Vestida para Matar (1980), a trama acompanha Matias (Gabriel Faryas), um ator ambicioso em Porto Alegre que vê sua rivalidade com o colega Fábio (Henrique Barreira) crescer diante da chance de um papel decisivo na TV. Paralelamente, ele se envolve com Rafael (Cirillo Luna), um político em ascensão, dando início a um relacionamento secreto, em que os dois descobrem ter fetiche por sexo em lugares públicos. Entre ambição, desejo e exposição pública, os personagens passam a viver sob constante tensão, colocando em risco ambas carreiras.
Diretores e festivais
Marcio Reolon e Filipe Matzembacher formam uma das duplas mais relevantes do cinema brasileiro, com uma filmografia marcada pela investigação de desejos, identidades e relações de poder. Os cineastas já dirigiram longas com grande relevância e passagens por festivais ao redor do mundo, como Beira-Mar (2015) e Tinta Bruta (2018), que estreou no Festival de Berlim, quando, conquistando os prêmios de Melhor Filme (Teddy Award) e Melhor Filme Panorama (Júri C.I.C.A.E). A parceria se destaca pelo olhar autoral, pela abordagem da sexualidade e pelo diálogo entre intimidade e espaço urbano, sempre com o Rio Grande do Sul como espaço principal na trama.
Ato Noturno vem percorrendo todos os cantos do mundo e levando uma nova cara da cidade de Porto Alegre. O longa estreou no Festival de Berlim e foi filme de encerramento do prestigiado BFI Flare– London LGBTQIA+ Film Festival. Além disso, passou pelo Festival de Mar del Plata, sendo premiado com o Prêmio da Crítica (FIPRESCI); Fantastic Fest, o maior festival de gênero do continente americano; Festival de Cinema de Novas Fronteiras, na Polônia; Frameline, nos Estados Unidos; Festival Queer Lisboa; entre outros. No Brasil, a obra se destacou no Festival do Rio, quando levou três Troféus Redentor: Melhor Ator para o estreante em longas Gabriel Faryas, Melhor Roteiro para Matzembacher e Reolon e Melhor Fotografia para Luciana Baseggio. Além disso, a produção ainda foi eleita o Melhor Filme do Prêmio Felix, dedicado a obras com temática LGBTQIAPN+. Além disso, o filme também foi exibido na Mostra de Cinema em São Paulo e no Mix Brasil.

Regionalismo de jovens cineastas
Por André Nunes – Assisti Ato Noturno em uma sessão online de cabine de imprensa. Mais uma grata surpresa do jovem cinema brasileiro, cujo regionalismo nas produções lançadas nos últimos anos não só dá mostras de sua força, como também na autoralidade dos gaúchos Filipe Matzembacher e Marcio Reolon. Faço coro à saudação de Kleber Mendonça Filho ao receber o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro por O Agente Secreto, que convocou jovens cineastas a produzirem cada vez mais obras.
Dentro das temáticas LGBT, o recente Apenas Coisas Boas – de Daniel Nolasco, exibido e premiado no Olhar de Cinema 2025 – também se aventurou com maestria pela seara que flerta com o chamado cinema adulto-erótico. Mas cada um dentro de sua proposta, sem apelação, em que se frise as marcas regionais das cidades que roubam a cena e fazem parte da narrativa: a Porto Alegre de Ato Noturno e a Goiânia de Apenas Coisas Boas – assim como o rústico interior goiano visto no longa.
Com atuações na medida dos protagonistas Gabriel Faryas e Cirillo Luna, Ato Noturno dá luz a uma das taras sexuais mais controversas, ainda que essencialmente humana: fazer sexo em locais públicos, ou com risco de ser flagrado. Mas não limita os personagens Matias e Rafael a esse aspecto: enquanto o primeiro é um ambicioso ator vindo do interior, o segundo é um empresário candidato à prefeito da capital gaúcha.
Ao adentrar no campo político eleitoral, impossível não lembrar do governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, que assumiu sua homossexualidade. Desconheço se os realizadores mencionam o político real como inspiração, mas a associação para o público se torna inevitável.
Como ponto fraco, infelizmente o encerramento do longa deixa a desejar pela pressa e pontas soltas, com uma reviravolta previsível que extrapola a suspensão da descrença. Para quem busca o sigilo em seus atos sexuais, para não prejudicar suas carreiras, o casal extrapola em várias sequências sua exposição pública – tendo como cenário recorrente do chamado cruising o Parque da Redenção, filmado sob um aspecto noir. Mas nada que prejudique a ousada proposta de Ato Noturno (Nota 3/5).
