Luxo sempre fez parte da sociedade. O conceito pode mudar ao longo do tempo assim como os símbolos que o representam, mas ele nunca desaparece. A bolsa que antes era inacessível pela maior parte da sociedade agora já é uma possibilidade para mais pessoas, ainda que siga restrita. A verdade é que, sempre que um símbolo de status se populariza, algo ainda mais exclusivo surge para ocupar seu lugar no imaginário coletivo.
Recentemente vimos o burburinho nas redes sociais das empresas chinesas vendendo bolsas que seriam caríssimas, mas se tornam infinitamente mais baratas ao perderem a etiqueta da grife famosa. Há sempre um mercado paralelo correndo por fora para tornar esse produtos acessíveis a quem não tem acesso. Isso escancara o fato de que muitos desses objetos são, acima de tudo, símbolos. Não apenas de poder aquisitivo, mas de posição. O charuto, por exemplo, é difícil dissociar a imagem dos charutos de personagens como Winston Churchill. No entanto, luxo e poder mudaram e muito de lá pra cá, e não é só por conta desse “mercado paralelo” que tende a democratizá-los.
Há poucos dias a filha de um empresário famoso foi fotografada com uma bolsa avaliada em 14 mil reais. A patrulha da internet não aliviou e as críticas começaram, inclusive ameaças contra a criança, de apenas cinco anos, e seus pais. Neymar comprou um carro novo, mais um para a sua coleção, esse avaliado em mais de 8 milhões de reais. Novamente, a internet se dividiu entre quem o defendia e quem o atacava. Não vou falar sobre a vida dessas pessoas e o quanto elas trabalharam, ou não, para conquistar esses produtos. Questiono mesmo quem perdeu seu tempo brigando com desconhecidos sobre isso tudo ser certo ou errado.
Compreendo o que o mercado define como um produto de luxo, mas se tirarmos o rótulo e olharmos com mais contexto, veremos que luxo é algo profundamente subjetivo. Depende de onde você está, de quem você é, e não só quanto dinheiro você tem.
Arrisco dizer que o luxo hoje não está na anilha do charuto, nem na etiqueta da bolsa. Afinal, a conquista de uma bolsa significa horas de trabalho e abdicação de momentos pessoais em uma busca por conquistar mais e mais dinheiro. O verdadeiro luxo está no tempo dispensado para degustar aquele charuto. Luxo é ter tempo, e mais do que isso ter a possibilidade de escolher o que fazer com ele. Poder usar o tempo “livre” para ser de fato livre. Sem preencher com atividades extracurriculares. Luxo é poder compartilhar de um momento com os amigos e esquecer da hora. Brincar com os filhos e não tocar no celular. Esse luxo talvez seja o mais inacessível, bem mais raro que garotas de cinco anos usando bolsas de 14 mil reais.
Luxo está em poder parar o seu dia por algumas horas e desfrutar de um momento de puro prazer e contemplação.
*Carolina Macedo é curitibana, empresária, cigar sommèliere e pioneira no universo dos charutos, atuando à frente da Bulldog Tabacaria e abrindo espaço para mais mulheres no setor. Fala sobre este universo, além de agendas de cultura e lazer.