quarta-feira, 6 maio, 2026
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Caio Soares, a morte de um “termômetro” da cidade

Caio Soares morreu na terça-feira e será sepultado hoje, às 17 horas, no Cemitério Parque Iguaçu. O passamento desse advogado, ex-conselheiro do TCE, e um dos nomes mais próximos de Jaime Lerner, de cujos governos no Estado participou ativamente, como secretário, leva com ele parte  de boas histórias curitibanas do século passado.

Caio era um “causeur”, sabia encantar  salões, fortalecer mesas de bares ao lado de amigos, e dar o tom de festa a encontros que, com ele, jamais poderiam ser tristes.

Jaime Lechinski

O senso de oportunidade para o momento era enorme em Caio, um malabarista do verbo, o humor “suspenso ao ombro”, uma alma pura iluminada pelo lúdico e capacidade de síntese de momentos –  sérios ou, até ridículos. Jamais perdia a oportunidade de registrar sua irremovível ânsia do “ridendo castigat mores”.

As imagens que guardo são muitas, começam com ele sentado na cadeira Gerente do Unibanco, na Marechal Deodoro. O irmão, Luiz Roberto Soares, outra raridade, foi quem me o apresentou.

Para mim, Caio, Sergio Mercer e Jaime Lechinski formavam a tríade de “ouvidores” da Curitiba e sua gente, em que encontravam graça e da qual tiravam momentos de fino humour, muitas vezes até escondidos.

Sergio Mercer

O perito em gente sai de cena

 

Por Jaime Lechinski

Nunca se viu alguém como ele. Por onde passava, deixava um rastro de alegria, conquistava corações e mentes.

Com humor surreal e inteligência cortante, tinha definições certeiras, o que fazia dele um grande conselheiro político e um amigo com quem se podia confidenciar sem medo.

Lúdico, decodificava assuntos complexos em enunciados de simplicidade desconcertante. Tinha empatia, entendia de gente como poucos. Um perito em gente!

Nele transbordava o que a moderna ciência classifica de inteligência social, atributo hoje tão valorizado até no mundo corporativo.

Uma vez imaginamos um filme sobre ele, que se chamaria simplesmente Caio. Mas dai o publicitário  Sergio Mercer,  seu amigo inseparável, ponderou que só Fellini poderia dar conta da empreitada e, mais, não havia ator capaz de alcançar a dimensão do personagem.

Apesar disso, o filme nunca deixou de passar em nossas cabeças, e vai continuar em cartaz nos nossos corações, ainda mais agora que o Caio sai de cena.

 

No céu a noite de hoje vai ser mais alegre

 

Por Ney Leprevost

 

Faleceu o Caio Soares. Eu gostava muito dele. E ele de mim. Em que pese a imensa diferença de idade, sempre me tratou como um igual. Tornou-se meu amigo. Tomamos ótimos pilequinhos no salão de festas do Jornal do Estado, hoje Bem Paraná. Seu papo era muito agradável e, sempre, engraçado.

 

Lembro-me de uma ocasião em que conseguimos levar para Foz do Iguaçu as principais seleções que estavam disputando a Copa América de Futebol. Eu tinha 25 anos de idade e era secretário de Esporte e Turismo do Paraná. Alguém da equipe do governo decidiu que o Jaime Lerner, governador, e eu tínhamos que visitar as concentrações dos times.

 

Na noite anterior; o Jaime, eu, o Caio, o Davi Campos, a Paulinha Tavares e mais alguns amigos, recepcionados pelo impecável anfitrião Fernandinho Salinet, ficamos até altas horas da madrugada tomando cerveja no bar do hotel Bourbon. O sono batia forte, mas os casos e piadas contados pelo Caio eram tão divertidos que nos impediam de ir dormir. Ninguém queria perder aquele show que ele dava com a maior naturalidade.

 

Na manhã seguinte, toda comitiva estava firme e com ressaca na recepção do hotel esperando o governador para cumprir a missão de visitar os atletas e dar a eles as boas vindas ao Paraná. O Jaime, que como todo gênio se atrasava sempre porque levava horas se entretendo com as próprias ideias, depois de um tempo apareceu e me perguntou do Caio que, na época, era apenas seu assessor especial. Eu disse que não fazia ideia de onde ele estava. Mas o Jaime amava o Caio, não gostava de ir a lugar nenhum sem ele. Então, o governador foi a recepção e ligou para o quarto do Caio. Afinal, já estávamos ultrapassando o rigoroso horário que tinha sido agendado. Desligou e voltou rindo. Curioso, eu perguntei: “O que ele falou governador?” E o Jaime respondeu: “Me mandou tomar naquele lugar. Disse que não vai visitar marmanjo nenhum e que é pra eu ligar quando voltar para almoçarmos juntos.” O Caio fez muito bem ! A visita as seleções foi um programa chato e sem retorno algum para o Paraná.

 

Este era o Caio Soares. Não puxava o saco de ninguém. Autêntico, amigo, carinhoso… Todo mundo gostava dele.

 

Do Caio, guardarei a imagem sorridente e os conselhos prudentes. Hoje o céu está mais alegre. Que a família, com o tempo, transforme a saudade em lembranças felizes deste grande ser humano que foi o Caio Soares.

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