
(Do Valor Econômico)
Desarticulação das políticas sanitárias, quarentenas que alcançaram pouca eficiência pela pressão do poder econômico, imunização nacional pulverizada e baixa cobertura relativa ao tamanho da população. Após quatro meses do início da vacinação contra a covid-19 no Brasil, em 17 de janeiro, técnicos fazem balanço e avaliam que o “jeito brasileiro” de responder à pandemia impõe agora a desconfortável posição de ter que lidar com um risco em perspectiva. Segundo três especialistas que já passaram pelo Ministério da Saúde, um deles no comando da pasta, se corrigidos meses atrás, muitos erros afastariam temores como o que já tira o sono de alguns: o país ser o berço de uma cepa do coronavírus resistente às vacinas.
Não se pode afirmar determinantemente que vá ocorrer, ponderam. De um patógeno que vem apresentando o comportamento imprevisível do Sars-Cov-2, inclusive passando a matar mais jovens, pode-se esperar o pior — mesmo que sua agressividade se atenue. Mas o surgimento de uma super cepa não é impossível, admitem sanitaristas. E o Brasil vem apertando todos os botões de comando para se pronunciar nessa direção, sob risco até de gerar mutação tão ou mais hostil que a indiana.
“Não temos como afirmar categoricamente que uma variante que resista a vacinas vá surgir no Brasil. Vírus mutam o tempo todo. Algumas dessas mutações podem nos ser favoráveis, outras não. Mas, em tese, a possibilidade existe, e precisamos trabalhar com diferentes cenários de risco”, afirma José Gomes Temporão, médico sanitarista da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e ex-ministro da Saúde.
