quinta-feira, 16 abril, 2026
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“Bicho do Paraná”: um grande momento do marketing

Eloi Zanetti
Eloi Zanetti

Um dos nomes mais significativos da publicidade e marketing do Paraná no século 20 – e deste – Eloi Zanetti será um dos personagens de meu próximo livro Vozes do Paraná, volume 8.

Dentre os seus momentos únicos de criador está a campanha “O Bicho do Paraná”, que acabou entrando no nosso léxico com a significação de gente operosa, única.

Parte do perfil de Zanetti (uma parte muito pequena) o leitor terá a seguir:

Eloi é um tímido. Esta é a impressão ele passa já no primeiro contato. E ela vai persistir. Por anos pensei que essa atitude de reserva fosse herança do lado Ultmann, os suecos – 53 famílias que vieram para o Paraná no século 19 – de que ele descende, pelo lado da avó paterna, Olga.

No entanto, recentemente descobri outro elemento que ajuda a melhor entender o seu sorriso contido, as expressões idem, a fala pausada a denunciar cautela, um certo pisar em ovos na abordagem de determinados temas, as “revelações bomba” proclamadas sem emoção.

Foi quando descobri as raízes mineiras do personagem, e a admiração de Eloi pela mãe Abgail Mello, uma mulher das Minas Gerais profundas. Uma mineira essencial, com os correspondentes “uais” e sua maneira caipira e sapiente de ver a vida e contemplar o próximo, aferindo, com prudência, cada gesto e cada intenção do interlocutor, evitando sempre expressões comprometedoras ou bolas divididas. Isso tudo sem excluir uma visão fatalista de certas situações.

“Assim, numa revisita àqueles dias, me é impossível, por exemplo, separar nome de Zanetti de momentos históricos como foram aqueles da campanha de televisão “O Tempo Passa, o Tempo Voa”, com a qual o banco Bamerindus fez uma consistente catequese do correto uso do tempo pelo ser humano (como a lembrar o tempus fugit). A campanha durou 14 impressionantes anos na televisão.”

Por isso, não tenho dificuldade em identificar que há um indisfarçável pudor nas manifestações de Eloi, expresso na fala prudentemente dosada.

Disso ninguém duvide. Mas também não se duvide que esse recatado (e privilegiado) observador da alma humana, em dados momentos pode surpreender ao pontificar, com precisão dogmática, do alto de sua autoridade de homem de marketing de sucessos indiscutíveis:

– Marketing político, para quê? Grandes e consistentes políticos não precisam de marquetólogos, como Juscelino, Getúlio Vargas, Jânio Quadros… . Eles se bastavam por si.

Para quem eventualmente precise aferir a autoridade de Eloi Zanetti, lembro só um detalhe: com ele ganhou autonomia dimensões definitivas a expressão “Bicho do Paraná”, um dos melhores momentos da publicidade brasileira. Isso sem esquecer de “O tempo passa, o tempo voa”, outra das mais fortes campanhas do extinto Bamerindus, por ele engendradas.

2 – CONTADORES DE HISTÓRIA

Tenho alguma dificuldade em encaixar Eloi, com precisão, no mundo profissional, tal a multiplicidade de caminhos em que ele se expressa para viver a vida, para realizar-se no trabalho.

Uma certeza fica: é também escritor, definitivamente. Com essa arte amplia horizontes sendo hoje, como autor, grande vendedor de milhares de livros, como “Administração, Futebol e Companhia” (Elsevier, Rio), a caminho de nova edição, com prefácio do jogador Zico e apresentação do COPEADE, o mais importante centro brasileiro de estudos de Administração, ligado à Universidade Federal do Rio de Janeiro.

E é igualmente sucesso de livraria aquela que talvez seja sua obra com maior potencial de mercado: “Por que os maridos não conversam com suas mulheres”. Posso assegurar que o escritor em Eloi é uma vocação tardia, tal como aquela que impele, por exemplo, homens e mulheres maduros, escolados, vividos, a optarem por uma vida religiosa de clausura. Caso do trapista norte-americano Thomas Merton, para exemplificar, que foi um dos ícones da literatura mística (e, depois, da defesa ambiental) no século 20, no Ocidente.

3 – “O TEMPO VOA”

Amplo depoimento a seguir, de Eloi Zanetti, detalha momentos que fazem parte do melhor marketing e propaganda brasileiros do século 20.

Esta é uma realidade que gerações de brasileiros que aí estão, espalhadas por todo o país, podem confirmar, tendo retido em seus inventários afetivos momentos únicos de eficácia em comunicação.

Tudo com dosagem poética, simplicidade e em medida exata. Sem recorrer a efeitos especiais e/ou pirotecnias, num tempo de feitos heroicos – ou quase heroicos – em publicidade, pré-Internet e sem contar com as possibilidades sem fim da era digital.

Assim, numa revisita àqueles dias, me é impossível, por exemplo, separar nome de Zanetti de momentos históricos como foram aqueles da campanha de televisão “O Tempo Passa, o Tempo Voa”, com a qual o banco Bamerindus fez uma consistente catequese do correto uso do tempo pelo ser humano (como a lembrar o tempus fugit).

A campanha durou 14 impressionantes anos na televisão. A honestidade de Eloi o faz dividir os momentos criadores excepcionais, como os do “Tempo Voa” e “Bicho do Paraná” com Sérgio Reis e Luiz Aurélio Alzamora, na Umuarama Publicidade, a então house do Bamerindus, o chamado “banco de nossa terra”.

Por vezes, interrompe as rememorações como que para se corrigir: “E Sérgio Mercer, por um tempo, foi nosso criativo companheiro de caminhada…”.

4 – ASSUMIR O CAIPIRA

A trajetória de Eloi Zanetti é cheia de reconhecimentos e prêmios nacionais por campanhas publicitárias desenvolvidas e trabalhos de marketing de diferenciada qualidade.

Nos últimos anos, firmou-se como consultor de marketing, atendendo clientes no país todo. E como consultor fez palestras e conferências em todos os Estados, com exceção do Amapá. Teve dezenas de clientes, alguns de importância indiscutível. Dentre eles, o apresentador e empresário Ratinho, dono de vários empreendimentos (de quem continua amigo, mas não mais lhe presta serviços).

Sinto, nesta breve avaliação, que alguns momentos são muito definitivos na vida de Eloi. Um deles foi o do “eureca”, que deve ter bradado, quando, depois de ampla análise com seus companheiros e publicidade, saiu em busca dos traços que fazem a identidade do paranaense. A resposta estava à flor da pele:

– Assumimos a identidade caipira, de um Estado novo. Foi quando expusemos pela televisão o “Bicho do Paraná” – a partir da canção de João Lopes. E dessa forma simples, nosso trabalho foi reconhecendo grandes feitos de nossa gente muitas vezes desconhecida para o grande público.

Caso, por exemplo, o “bicho” que fazia cálculos balísticos para a NASA…

Acabou enfocando três centenas de notáveis “produtos da terra”.

“O Bicho” passou a ser sinônimo de homens e mulheres de todas as idades e classes sociais, com histórias únicas, exemplares. Gente que orgulha o Paraná, como Eloi Zanetti. O “bicho”, enfim, entrou no léxico como sinônimo de um povo operoso, criativo e único.

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