O ator argentino Juan Tellategui celebra 30 anos de carreira e 15 anos morando no Brasil com a peça “Visita a Domicílio“, texto inédito do argentino Alberto Romero, no qual contracena com Cícero de Andrade. A obra dirigida por Miguel Arcanjo Prado e Zé Guilherme Bueno faz estreia nacional no Festival de Curitiba, de 7 a 9 de abril, terça a quinta, 18h30, no Teatro Paiol, dentro da Mostra Fringe, com ingressos à venda no site do Festival e na bilheteria oficial no Shopping Mueller.
A peça marca a volta do ator argentino ao Festival de Curitiba após dez anos. “’Visita a Domicílio’ é uma sensível comédia dramática de Alberto Romero sobre um amor entre dois homens que foi interrompido bruscamente por conta do preconceito. Por um acaso do destino, 25 anos depois, eles ganham uma rara oportunidade de fazer um acerto de contas com o passado”, adianta Tellategui.
“O espetáculo é uma coprodução internacional Brasil-Argentina, o que faz conexão com minha trajetória, de um ator argentino que escolheu viver no Brasil. Desde que me mudei de Buenos Aires para São Paulo, tenho me esforçado para construir pontes culturais entre os dois países nos trabalhos que realizo. A estreia tem um sabor especial, pois foi neste importante Festival que dirigi minha primeira peça no Brasil, dez anos atrás, e fui tão bem acolhido pelo inteligente público curitibano. Curitiba é uma cidade apaixonante, onde tenho grandes amigos”, completa o ator argentino.
Depois de Curitiba, o espetáculo segue para São Paulo no Teatro Sérgio Cardoso, onde faz temporada de 20 de maio a 25 de junho, nas quartas e quintas-feiras, às 19h.

Visita a Domicílio @visitaadomicilio
34º Festival de Curitiba – Mostra Fringe
- 7, 8 e 9 de abril – Terça, quarta e quinta, às 18h30
- Teatro Paiol (R. Cel. Zacarias, 51 – Prado Velho, Curitiba, Paraná)
- Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia-entrada)
- Vendas pelo link
- Duração: 60 minutos / Classificação: 18 anos
Entrevista com Juan Tellategui
Está é sua segunda participação no Festival de Curitiba? A primeira foi há exatos dez anos? Como se sente?
Sim, é um retorno carregado de simbolismo. Estive no Festival há exatos dez anos, sob a ótica da direção e da dramaturgia com ‘Hermanas’. Hoje, o desafio é outro: volto ocupando o palco como ator e também como tradutor da obra. Sinto que essa década serviu para maturar meu fazer artístico e minha escuta com o público; muita coisa se assentou nesse tempo. É muito gratificante ver um projeto como ‘Visita a Domicílio’, que venho gestando há um tempo, finalmente chegar ao palco de um festival tão importante. Sinto que chego com a bagagem e a maturidade que a complexidade desta nova peça exige, abrindo um novo ciclo com muita emoção.
Quem é o Gabo, seu personagem em Visita a Domicílio?
O Gabo é um homem de meia-idade que está em um momento crucial da sua vida, atravessando um balanço existencial onde os fatos e as decisões do passado o confrontam mais uma vez. Ele representa uma geração de homens gays que, como ele, teve uma adolescência traumática: enquanto outros jovens experimentavam seus primeiros amores, o Gabo precisou esconder seus sentimentos e transitar por tudo o que sentia de maneira ‘clandestina’, como se estivesse fazendo algo errado. Esse silêncio imposto criou marcas profundas que o acompanharam por toda a vida, mas agora a vida lhe oferece a chance de se reencontrar com seu primeiro amor. É uma jornada sobre o confronto entre o peso dessas cicatrizes e a possibilidade de fazer novas escolhas, provando que o passado está sempre à espera de ser ressignificado.

Qual a importância de fazer uma coprodução internacional independente que une Brasil e Argentina?
Acredito que coproduções internacionais independentes são extremamente ricas e potentes. A ponte que se estabelece a partir do encontro de diferentes poéticas e estéticas amplia horizontes e nutre profundamente a nossa percepção do mundo. Como artista argentino, tenho sempre o desejo pulsante de compartilhar com o público brasileiro a singularidade do teatro que se faz lá. A dramaturgia argentina possui uma riqueza e uma preciosidade excepcionais, o que se confirma pelo movimento constante de produtores que buscam textos argentinos para encenar no Brasil. Realizar esse intercâmbio é criar um território comum onde as culturas se retroalimentam, fortalecendo a cena teatral de ambos os países através dessa cartografia de afetos que faz do palco um território sem fronteiras.
Como é celebrar 30 anos de carreira e 15 vivendo no Brasil com essa peça? Metade da sua carreira de ator foi feita no Argentina e metade no Brasil, como é se dar conta disso?
Olhar para essa trajetória de 30 anos é algo que me comove profundamente. Perceber que metade da minha carreira foi construída na Argentina e a outra metade aqui no Brasil me faz ver que aquele jovem entusiasta, cheio de sonhos e vontade de aprender, ainda caminha ao meu lado. Jamais imaginei, quando comecei, que o teatro me levaria a atuar em outro país e em outra língua. Sinto que toda a bagagem que construí com mestres e diretores incríveis na Argentina, somada aos novos aprendizados que o Brasil me proporcionou, foi o que me permitiu chegar até aqui.
Foi preciso, muitas vezes, deixar de lado o que eu já sabia para me jogar no vazio da incerteza e abrir espaço para novos saberes. Celebrar esses 30 anos com esta peça é sentir que tudo o que eu vivi até aqui, tanto lá quanto aqui, me preparou exatamente para o que estou fazendo agora.

Por que você quis contar essa história? Como chegou a você?
O texto chegou até mim através do próprio Alberto Romero, que me procurou há alguns anos para estabelecermos uma parceria e montarmos suas obras no Brasil. Assim que li ‘Visita a Domicílio’, fui imediatamente atravessado pela maneira sensível e, ao mesmo tempo, humorada com que ele conduz a trama. Quis contar essa história porque ela ecoa a vida de muitas pessoas da comunidade LGBTQIAP+. Acredito ser fundamental lançarmos luz sobre as nossas problemáticas para despertar a empatia e a sensibilidade na sociedade. Ainda temos um longo caminho a percorrer no respeito à diversidade humana, e essa peça reafirma algo que deveria ser sagrado: todos temos o direito de amar e ser amados, independentemente de nossas diferenças.
Além disso, essa obra preenche uma lacuna que existe na dramaturgia ao abordar o envelhecimento de pessoas LGBTQIAP+, lembrando que os afetos e o direito ao recomeço não têm data de validade. É muito potente como a paralisia física do Gabo funciona como uma metáfora, ele está ‘travado’ tanto no corpo quanto na própria vida, e o reencontro com esse antigo amor serve para destravar emoções que ele manteve congeladas por 25 anos. Como tradutor, meu maior cuidado foi para preservar o frescor e o humor original de Alberto Romero, garantindo que a alma argentina da peça dialogasse com a sensibilidade do público brasileiro.
O que o público de Curitiba pode esperar de Visita a Domicílio?
O público de Curitiba pode esperar um espetáculo visceral e, ao mesmo tempo, acolhedor, que navega com fluidez entre o riso e a emoção profunda. É uma história que pulsa com a verdade dos sentimentos, permitindo que cada espectador se reconheça no palco através de uma narrativa leve e muito humana. A trama traz a premissa de um reencontro com o grande amor da adolescência, 25 anos depois — uma verdadeira viagem no tempo que faz com que aquela avalanche de sensações que todos nós já vivemos em algum momento venha à tona. É um trabalho sobre o peso do tempo e, acima de tudo, sobre o direito de se permitir sentir e ressignificar o próprio passado. Será uma alegria compartilhar essa jornada de memórias e descobertas com todos vocês no teatro.
